A Carne Que Habito - Capitulo 2: Cf6-Pc4-Pg6

"A continuação dessa história levou tempo e trabalho de pesquisa, e, mesmo representando um periodo menor de tempo, comparado ao capitulo anterior, ainda é de grande importância para o futuro. Espero que gostem e continuem acompanhando o Magno."

— Acerola


 Cf6-Pc4-Pg6


 As peças laqueadas deslizavam e batiam sobre o tabuleiro de madeira, produzindo ruídos ocos num ritmo agradável que contrastava com a tensão que permeava todo o meu corpo. Depois do meu movimento de abertura, a figura branca, a Morte, fez o seu, levando o cavalo para F6, e então, entre reflexões pausadas e toques acrobáticos usando as pontas dos dedos, uma série de jogadas se sucedeu. Não importava a postura que eu adotasse, aquela entidade mantinha sempre a mesma expressão, um largo sorriso malicioso, expondo os dentes pontiagudos como agulhas. Encarar aquela boca diabólica me causava vertigem, sentia como se dançasse entre as presas e a língua, como uma pequena presa sendo esmagada contra o palato de uma fera sádica.

 Esmagado pela pressão das circunstâncias sobrenaturais, suspirei pesadamente, livrando o peito de uma parcela do aperto que esmagava meu coração, e, exausto, amedrontado e um pouco irritado, fiz um pedido que soou muito mais como uma exigência.

 — Devemos parar por aqui, estou cansado. Peço que continuemos em outro momento, seria injusto prosseguir a partida da forma como estou agora.

 As bochechas retorcidas e os lábios esticados não cederam nem por um momento.

 — Tens razão. Que assim seja. Voltarei em breve, para terminar o nosso jogo. — Voltou a face para baixo, imagino que estava memorizando o tabuleiro. — Vá. Siga o riacho.

 — Obrigado. — Curvei meu pescoço numa reverência forçada e cautelosa, buscando também marcar em minha mente a imagem das peças e suas posições.

 — Nos encontraremos em breve, Magno. — Vomitando meu nome em tom de provocação, acenou com a cabeça.

 Levantei-me e parti. Não ousei parar até que uma hora tivesse se passado, e, somente quando acreditei estar muito distante cai sobre a margem, e, como um animal, sorvi a água gelada do riacho, trazendo algum alívio a minha garganta seca e ansiedade tremulante.

 O terror causado pela sucessão embriagada de acontecimentos foi se amornando, resfriado pelo ar gélido da noite que caía.

 Escureceu, e, sentindo-me ameaçado pelos perigos da floresta escura, empunhei minha espada, segurando o cabo com firmeza.

 A lua cheia brilhava, adornada pelo céu estrelado, em especial uma estrela que brilhava mais que as outras, isso trazia algum conforto, muito pouco, porém. A luz concedida pelos astros estava rapidamente sendo engolida pela escuridão profunda da hora do lobo, meus olhos, ainda que esforçados, seriam aliados inúteis nessa situação; os outros sentidos também não seriam o bastante. Se quisesse ao menos ter a chance de saber qual fera pularia sobre mim em direção a minha jugular, deveria acender uma fogueira e acampar. Contudo, mesmo após meio dia do encontro macabro, ainda persistia em mim alguma adrenalina inquietante, que queimava como gelo, escolhi continuar por mais algum tempo, e assim o fiz.

 Pelo que pareceram horas guiei-me através das silhuetas mal-iluminadas das árvores, tropeçando em pedras e raízes expostas, cada passo em falso torturava ainda mais minhas pernas, que doíam por completo. Havia na região das panturrilhas uma dor aguda e excruciante que torturava meus músculos com a sensação de que um galho nodoso havia perfurado e encontrado morada na ferida, esfregando suas pontas na parte interna dos músculos, rasgando a carne de dentro para fora. Senti a necessidade de conferir algumas vezes, confirmando se tratar do resultado do esforço extremo. Havia marchado com os cavaleiros da Ordem Da Bromélia e os outros soldados desde o amanhecer, então corri pela floresta durante toda a tarde, sendo o único momento de descanso para o corpo aquele que me sentei a mesa de pedra com a Morte, contudo, não houve ali nenhum descanso real, na verdade, o que aconteceu foi justamente o contrário; o estresse e o esforço mental foram tamanhos que, somados ao terror dilacerante, tranpassavam os limites da mente e do coração, fazendo com que o corpo viesse a ficar ainda mais cansado e fragilizado do que a marcha militar e a fuga desesperada, mesmo somadas, poderiam fazer outrora.

 A mente tem poder sobre o corpo, o corpo tem poder sobre o coração e o coração tem poder sobre a mente. O espírito, porém, quando não é uno com os três, é maior do que eles.

 Uma aparição capaz de amedrontar o espírito, teria por consequência, poder total sobre mim.

 Eu possuía um espírito forte, era o que acreditava. Todavia, mesmo um monge que prepara-se a vida toda para morrer, quando frente-a-frente, tem medo da morte.

 Quando pensava em desistir, eu poderia dizer. A verdade, porém, é que cogitei desistir por todo o caminho. Não existiu um único momento desde minha dramaticamente humilhante fuga em que não recitei em minha própria mente poemas desengonçados sobre promessas de milagres e restituição de tudo o que, porventura, era meu de direito. Não existiu também nenhuma vez nessa viagem, em que caí nessas armadilhas preguiçosas. Talvez fosse verdadeiramente desistir, ou quem sabe não. Poderia até mesmo cair morto sobre a terra fria e, como o animal ignóbil que me tornei, ter de última refeição o capim que ali firmava suas raízes, sem sequer ser capaz de distinguir se estava verde e suculento ou marrom e seco. Se estava mesmo prestes a desistir ou se esse era mais um delírio fumegante não importava.

 Vislumbrei uma luz bruxuleante à frente, um pouco distante, mas perfeitamente luminescente. Seria um fogo-fátuo? Imaginei. Se fosse o caso, uma aproximação seria perigosa, todavia não podia ignorar a possibilidade de ter encontrado um acampamento confortável e potencialmente acolhedor, onde poderia receber ou negociar comida e dar descanso aos pés. A maioria dos soldados, e este era o caso do exército reunido por Don Doruant IX, acredita que comer antes de uma batalha anestesia os sentidos, deste modo não nos foi servida uma refeição, somente grossas canecas de madeira para serem afundadas nos grandes barris de cerveja, o álcool, diferente dos alimentos comuns, tinha a habilidade de aguçar os sentidos, era o que criam, então nos foi servida cerveja, sem comida ou nem mesmo aperitivos. Como cavaleiros da Ordem Da Bromélia não eramos estritamente proibidos de consumir nenhum tipo de bebida alcoólica, porém, dada a situação, era necessário que “mantivéssemos a imagem e déssemos o exemplo”, por isso fomos ordenados a não beber. Graças a isso, desde o almoço de anteontem não havia nada em meu estômago se não a água insegura que tomei no riacho algumas vezes.

 Avancei em direção às árvores iluminadas, cada passo tornava-me mais temeroso. Ainda que fossem seres humanos, e se fossem ladrões? Mais alguns passos. Talvez assassinos traficantes de órgãos? Mais alguns passos. Canibais, devoradores profanos da carne de sua própria espécie. Mais alguns passos. Vampiros esperando para se deleitar com o sangue do primeiro desavisado que caísse em sua armadilha noturna. Mais passos. Licantropos compartilhando o resultado de sua caçada humana, felizes em receber uma sobremesa temperada pela travessia da floresta e pelo encontro com a morte. Morte? Mais passos. A própria Morte, novamente a minha espera, traindo o combinado, exigindo a finalização de nosso jogo imediatamente, aproveitando-se do cansaço e da incapacidade de raciocínio claro. Passos. Uma mesa de pedra adornada com ossos, crânios e  fêmur de campeões caídos. Passos. Passos. Meu destino dançando por entre as peças como uma camponesa no dia de seu casamento, o último de sua liberdade. Passos. Passos. Passos.

 Meu corpo se aproximava na mesma medida que minha mente se afastava, fazendo-me incapaz de distinguir se a luz estava próxima ou distante.

 Quando dei por mim.

 Não. Isso está errado.

 Não havia eu ali, não existia espaço para tal.

 Escondido entre os arbustos eu finalmente pude ver, mesmo incapaz de compreender, o que estava ali.

 Havia um enorme círculo de tinta branca, dentro dele um hexagrama cujas pontas tocavam a extremidade, de frente a cada ponta do hexagrama uma vela acesa, todas branco-amareladas exceto a que ficava ao norte, que tinha a cor vermelha; estavam derretidas e a cera se espalhava e engrumava sobre a terra em imagens disformes que lembravam fungos e feridas infeccionadas. Atrás da chama dourado-alaranjada que queimava sobre a cera rubra um pequeno altar que se resumia a madeira entalhada, em cima do altar uma adaga que parecia ser de prata, com uma esfera de jade no cabo; uma fina placa imperfeitamente circular de obsidiana e um cálice de bronze muito gasto, preenchido com vinho. No centro do hexagrama havia um pequeníssimo tapete vermelho, e nele estavam bordadas em dourado as três pontas de um triângulo sem bases, dentro das pontas um símbolo formado por três linhas de diferentes tamanhos sendo que a maior estava a esquerda e a menor a direita, ao lado da linha menor um símbolo serpenteante parecido com um “8”, porém sem uma parte da metade inferior. Nas quatro diagonais entre as pontas do hexagrama estavam escritos nomes de divindades pagãs que representavam respectivamente: a superior esquerda o outono, a sua direita o verão, na diagonal inferior esquerda o inverno e a direita a primavera.

 Sobre o círculo dançavam freneticamente dois homens e quatro mulheres que estavam nus, exceto por uma delas, que usava um véu negro com brilhantes como saía, um pesado colar de prata com três esmeraldas redondas encrustadas e um diadema com um trio de quartzos-rose em pontas sobressalentes. A música era emitida na forma de gritos, uivos e estalos de língua; a dança baseava-se em rodear a mulher com o diadema, que ficava no centro, e enquanto faziam isso moviam euforicamente os braços de modo que, a princípio, parecia aleatório, porém, depois de algumas voltas pude perceber que se tratavam de movimentos precisos e ensaiados que, apesar de não fazer sentido isoladamente, encontrava razão na repetição, uma vez que cada um dos participantes nus nunca fazia um movimento semelhante ao mesmo tempo, mas sempre repetia cada uma das posições em algum momento.

 — Vinde a mim, mãe terra. — Vociferou a mulher no centro.

 — Vinde. — Gritaram os outros.

 — Vós que me deste a vida. Que concede força aos homens e sabedoria às mulheres. Dai me asas como deste aos corvos, as corujas e as águias. — Cruzando os braços em X, a mulher abraçou os próprios ombros.

 — Saudamos a floresta. — Rezou o coro.

 Tal visão me era maravilhosa, um deleite radiante e ostensivo, sentia-me como uma criança que roubara com sucesso um doce da despensa e o devorava com pressa carregada de insegurança e desejo. Visivelmente se tratava de uma forma de magia e adoração diferentes das que eu vivenciara até então; Celeste era para mim e para os outros celestinos, praticantes da teurgia ou não, o único e verdadeiro deus nos céus, todavia, a evocação de seres, para mim tão pouco íntimos, era, ainda assim, completamente palpável, de modo que, ainda que como observador, o êxtase dos participantes do ritual se estendia para mim e fazia vibrar todo o meu ser, isso é, corpo, alma e mente.

 Toda aquela visão era maravilhosa, mas havia algo de especial na mulher no centro. A pele desnuda tinha cor de bronze e exibia, mesmo com os poros eriçados pela brisa noturna, uma maciez livre de imperfeições, não completamente livre, existia na parte inferior do abdômen, a esquerda, uma cicatriz antiga, de cerca de 7 centímetros, um aglomerado rosa-esbranquiçado de carne e pele retorcidas e massificadas numa elevação flácida saltando a pele, e era isso o que a tornava perfeita; a existência de um ferimento mal-tratado numa região tão pouco exposta é o tipo de coisa que só seria possível observar em crianças e prostitutas. Se crianças e prostitutas têm algo em comum, me perdoe a comparação de péssimo gosto, é o fato de que são reais, humanas. Uma zona tão profundamente castigada e marcada tornava-se uma ilha em meio ao oceano sinuoso e erótico que era o corpo, a prova cabal e indubitável de que a aparição ninfolépsica em minha frente era completamente real.

 Os lábios cor de romã se tornaram brilhantes e adocicados quando umedecidos pelo vinho do cálice que ela, se curvando como se pedisse licença, saiu do círculo e apanhou, em seguida retornando ao centro e sendo saudada pelos demais. Uma gota veloz e lasciva da bebida escorreu pelo canto da boca, escorrendo pelo corpo, deixando para trás uma linha avermelhada que marcava seu rastro, pela bochecha redonda, então o queixo fino mas arredondado, o pescoço delgado esticava e contorcia quando a cabeça, voltada ao céu, girava em movimentos sinuosos, a gota escorreu pelo vale dos seios que se projetavam de forma desavergonhada, quase orgulhosa, da caixa torácica, e por todo o caminho até o umbigo passou a existir uma delimitação rubra e molhada, que dava a impressão de que fora precisamente aberta por um médico, tornando-se uma imensa ferida invasiva; pois era essa a mudança que esses deuses, tão distantes e também tão perto de celeste, faziam nela, uma operação profunda delicada e tão profundamente interna que, mesmo que se retirassem, enfileirassem e enumerassem todos os órgãos, não se poderia encontrar o que havia mudado, mas com toda a certeza estaria lá. Circulando o a concavidade umbilical a gota escorreu pelo ventre projetado para a frente e num último brilhar refletindo as estrelas desapareceu em meio a concentração desorganizada de pelos púbicos que enfeitavam e escondiam a vagina. Eu observava extasiado.

 Fazendo balançar a meia-saia translúcida que circulava a cintura, a mulher passou o vinho para um dos homens que estava ali e do qual eu já havia me esquecido, ele por sua vez bebeu e então passou para o próximo, e assim foi até que todos tivessem sorvido do cálice e o objeto estivesse de volta a mão daquela musa coroada pelo diadema, que virou todo o líquido sobre a terra aos seus pés no ponto central do hexagrama.

 — Que as asas nos levem até o insondável patrono do noroeste. — Pregou a musa.

 — Seguro seja nosso alçar voo. — As vozes dos outros se misturavam aos sons da floresta para mim, tendo pouca ou nenhuma importância.

 Novamente se curvou e pediu licença, saindo do círculo e indo até o altar, depositando a taça de bronze vazia e apanhando a placa reluzente de obsidiana, então retornou.

 Segurado com ambas as mãos, o objeto foi erguido em direção ao céu noturno e levemente inclinado em diferentes direções, como se buscasse uma posição exata.

 — Pórus, nobre astro patronal, nós o saudamos, mostre-nos o caminho. — A musa exigiu e os outros se ajoelharam.

 — Nós o saudamos. — Repetiram com as testas no chão e os braços estendidos.

 Quando as palavras ecoaram por entre as árvores obscurecidas o espelho de obsidiana encontrou e recebeu a luz da estrela que brilhava mais forte na imensidão celestial, nesse momento, como se o brilho prateado fosse um raio afilado e poderoso, a placa se partiu em duas, numa cicatriz que dava a impressão de ter sido atingida pelo golpe de um machado.

 — Que assim seja. — Disse por fim, a mulher de pé.

 Um coro de uivos estridentes ecoou e todos se levantaram. Ainda com as peças de obsidiana em mãos, ajoelhou-se e beijou um umbigo, em seguida a boca da outra mulher, que estava sobre a ponta do hexagrama voltada ao noroeste, assim como a estrela mais brilhante do céu; essa mulher fez o mesmo com aquela a sua direita e então saiu do círculo. Assim se sucedeu até que cada um tivesse sido beijado e deixasse o círculo, sendo que a dama coroada foi a última, selando seus lábios com o de uma jovem de cabelos ruivos e sardas que não aparentava mais do que 15 anos.

 Os detalhes sobre a jovem, devo pontuar, não me foram relevantes até aquele momento. Frente a beleza deslumbrante e imoladora da sacerdotisa madura ela não passara de um borrão cinzento, nada mais do que um pouco de tinta esfregada às pressas das bordas de uma obra de arte ímpar. Contudo, quando as faces se afastaram, existiu ali uma espécie de conversa muda expressa na troca de olhares, algo maternal.

 Começaram a recolher as coisas e apagar o círculo. Na medida que minhas emoções esfriavam, a fome acendia; a dor insuportável me fez contorcer, colocando o antebraço sobre o estômago como se pudesse tomá-lo no colo e amamentá-lo com leite de cabra num bico besuntado com mel. O movimento involuntário fez com que o arbusto que me servira de véu até então, chacoalhasse. Na floresta emudecida, um pequeno sussurro torna-se um estrondo.

 Desta forma, tendo como última visão um dos homens se armando com a adaga limpa, enfeitada com uma pedra de jade, que estava sobre o altar, corri.

 Desesperadamente, humilhantemente e novamente, eu corri. Como um cão. Como não mais que um homem.


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