Pérolas Para Quem?
" Esse é um conto que visa refletir e representar certos conceitos e sentimentos atrelados as nossas vidas cotidianas. Deixarei ao final do conto algumas breves observações a respeito disso, mas, seria melhor se o leitor tirasse suas próprias conclusões. "
— Acerola
Pérolas Para Quem?
A casa tinha algo diferente, imponente, especial. Todos os dias, quando eu ia a feira, passava em frente à casa e ela ficava sempre ali, em frente a mim. Me encarava com suas paredes feitas de concreto duro e respirava profundamente com suas janelas de vidro frio. Tinha um jardim, isso eu também tinha, mas o dela era mais belo, havia lírios ali, no meu apenas tomates e calêndulas, que as crianças arrancavam para brincar de bem-me-quer.
Eu também arrancava uma calêndula vez ou outra, arrancava as pétalas perguntando para a flor sua previsão sobre o bem-querer. As crianças pareciam sempre encontrar respostas, eu não. A calêndula nunca me dizia nada, pois eu nunca perguntava por ninguém; não me importava se me queriam bem ou mal. Não sei o porquê então eu perturbava as flores.
Naquele dia eu fui a feira, mamãe pediu que comprasse peixe. Eu não gostava de peixe, mas os pescadores, em seus barcos, cobravam mais barato que os açougueiros em seus balcões. Então eu comia.
No caminho avistei a casa, ela me avistou de volta. Cumprimentei com um aceno de cabeça, para ser educada. Ela, porém, permaneceu imóvel.
Continuei meu caminho, e, ofendida com sua grosseria, olhei para trás.
Estava parada no mesmo local.
Na feira, as frutas pareciam deliciosas, as lichias, especialmente suculentas. Lichias eram minha fruta favorita, seu sabor contudo, não as fazia mais nutritivas que o peixe.
Gostava de lichias suculentas, como gostava de peixe assado.
Mamãe só me deu dinheiro para a sardinha, o pescador só tinha cavalinha. Precisei pechinchar.
O peixe, enrolado em jornal, não fedia tanto quanto o conjunto da feira, mesmo assim dei uma volta.
Os brincos eram bonitos, e não serviam para minhas orelhas.
Os anéis eram brilhantes, e meus dedos grossos demais.
As lichias eram saborosas, e meus lábios muito finos.
No dia seguinte voltei a feira, ignorei a casa, quem sabe assim aprenderia.
Um homem me abordou na feira, estava bêbado e disse coisas obscenas.
Para ele, meus peitos eram grandes, meu cabelo sujo era lascivo, como um convite. A bebida envenena a mente dos homens, e também das mulheres.
Me desvencilhei do homem e parti.
Não passeei depois das compras aquele dia.
Quando retornei, insegura, pela estrada, a casa estava lá, me observando, inexpressiva.
O lugar onde eu morava era uma pequena cabana de madeira com um jardim nos fundos, que, de tempos em tempos dava tomates e brotavam calêndulas fadadas a serem arrancadas. Dormíamos no chão, todos lado a lado; Mamãe, meu irmão e eu. Nosso pai nunca dormia em casa, e quando dormia, era durante o dia. Nós não dormíamos durante o dia, meu irmão sim, ainda era uma criança, porém, eu e mamãe nunca. Quando eu estava na feira, ela descansava, quando eu voltava, fazíamos chapéus de palha para um velho mercador que pagava por unidade, e então os vendia longe dali.
Enquanto mamãe cozinhava eu podia descansar. Pensava na casa de concreto, pensava nas lichias e no meu cabelo sujo. Fui até uma gaveta e surrupiei um pequeno espelho de bolso. Fui até o banheiro, era pequeno e apertado, e, mesmo sabendo que não havia ninguém, e nem mesmo caberia alguém ali, conferi atenciosamente, girando a cabeça e o corpo. Estava sozinha, então abri o espelho de bolso. Vi meu rosto. Era o meu rosto? Apesar de marcado pelo sol, o rosto não era assombroso, tinha belos cílios e lábios bem desenhados, apesar de rachados; o nariz era feio, grande e infestado de pequenos cravos; sobrancelhas grossas, bagunçadas, e o cabelo era sujo, mal penteado, não parecia lascivo. Aquilo era meu? Como poderia ter certeza? Talvez uma raposa estivesse me pregando uma peça, pensei, e o rosto franziu. Retirei as roupas, deixei que caíssem sobre o chão, passeei com o espelho, observando cada parte daquele corpo desnudo. As pernas eram grossas, como a de um homem, e pareciam muito mais longas no espelho; o abdômen branco e as costelas sobressalentes destoavam em tonalidade dos braços e pescoço bronzeados. Os seios eram firmes, proeminentes, delicados; eram os seios de uma mulher, havia algo de especialmente belo e intrigante nisso. O que o espelho refletia? Quem deveria ser eu? A constituição sinuosa do corpo refletido ali? Os seios redondos ou os dedos calejados? Os olhos curiosos, marejados, ou as pernas fortes?
Comi o arroz, e um pouco do peixe, em silêncio, e fui me deitar. Deitei-me, mas não adormeci, não pude. Pensava na feira, nas lichias, na casa. Por que parecia que só se voltava a mim nos momentos de humilhação? O interior de suas paredes de concreto era mais quente? E se era, por que o frio atravessava as frestas da minha cabana de madeira? Alguém morava lá? Quem? Por que não eu? Então adormeci sem perceber.
No dia seguinte fui a feira. No caminho ela estava lá, impassível.
Comprei batatas, não havia dinheiro para peixe.
Quando eu voltava pela estrada, continuava lá, porém, agora me encarava com desprezo.
Fui tomada por uma raiva incontrolável.
— Quem é você para olhar assim para mim! — Gritei enfurecida.
Uma sombra apareceu na janela e me abaixei envergonhada. O dono poderia sair querendo saber quem estava gritando com sua amada casa.
O que de fato aconteceu foi: a sombra realmente me percebeu, contudo, ao invés de me perseguir, se escondeu, como um animal selvagem.
A casa ainda me observava. Apertei o saco de batatas e andei na sua direção, de fininho, seria apenas uma espiadinha, fruto de uma curiosidade inocente. A casa nada disse.
Me aproximei como uma ladra, sorrateira, soturna, fingindo que o sol da tarde não me iluminava e denunciava a posição.
Quando enfim cheguei ao batente de madeira, a casa de concreto me olhava como jamais olhou; todas suas janelas voltadas a mim. Sentia e julgava minha aproximação. Seu telhado subia e descia, numa respiração ofegante, ansiosa. Ou esse era meu peito? Minha respiração e a da casa se misturavam, como um único sopro.
Entregando-se completamente ao meu crime, a emoção de tornar-me uma criminosa, coloquei o rosto na janela e ela estava lá.
Pequena, pele branca como a neve que cobria a grama no inverno, cabelos dourados e finos, semelhantes a fios de ouro, o corpo diminuto era tão magro, como se morasse na cabana de madeira e não numa casa de concreto. Estava em pé, envolta pelo quarto perfeitamente arrumado. Havia um grande guarda-roupas de madeira, paredes brancas e uma cama grande demais para seu corpo modesto, forrada com babados cor-de-rosa. Sobre a cama um grande prato preenchido de lichias.
— Eu posso ajudá-la? — A voz era suave e seu sotaque denunciava que não nascera aqui.
— Não, me desculpe. — Respondi envergonhada.
— Você quer entrar? Quer comer comigo? — Talvez ela tenha percebido o movimento de meus lábios e olhos em relação ao prato na cama.
— Eu... Posso mesmo? — Indaguei desconfiada.
— Claro. — Respondeu sorridente.
Pousei a mão sobre o batente e forcei meu corpo para cima, até que uma perna passasse, e então a outra. A estrutura de todas as coisas se reorganizou, era como se eu tivesse atravessado um espelho e o espelho me acertado com uma pedra e me estilhaçado. Nada era igual, a casa agora estava na minha frente e me fitava com olhos azuis e não mais janelas. Sentou-se na cama e me chamou com a mão. Eu fui. Era confortável, macia, o colchão afundava e com ele uma parte da minha consciência.
— Eu não conheço você, porém estive sempre olhando para você. — Eu disse.
— Todos estão sempre olhando para mim, mas eu não posso sair daqui. — Choramingou.
— E por que não?
— Eu tenho uma condição que me prende, uma faca de dois gumes. Aqui eu vivo em paz, sozinha, tenho lichias. Por favor coma.
Não havia compreendido completamente, contudo estava salivando, como um cão, um animal. Agarrei uma lichia com calma, performando uma delicadeza que a fome quase arrancara; tremendo, engasgando, chorando sem que lagrimas fossem derramadas. Descasquei com a ponta dos dedos, marcadas pelo trabalho, e me envergonhei pelos calos, as mãos da menina a minha frente eram finas e delicadas, bem cuidadas, luminosas. Levei a fruta aos labios, como quem beija um amante, e então mordi, perfurei, rasguei e suguei o suco como se um sopro de vida preenchesse meu corpo, que estremeceu. As lagrimas começaram a brotar, eu contive. O sabor era doce, profundo, um deleite. Comi uma, e então mais uma, e mais uma. Devorei as lichias até que só restasse a casca e os caroços sobre o prato. Ela apenas me observou em silêncio.
— Obrigada. — Agradeci.
— Não se preocupe, elas eram para você.
— Para mim? Mas por quê?
— Por que não seriam?
— Eu não tenho dinheiro para comprá-las. Nem deveria estar aqui.
— Não se preocupe. — Disse num sussurro.
O prato tombou no chão quando o corpo dela caiu sobre o meu. Inspirava profundamente enquanto passeava a língua sobre meu pescoço, me fazendo arrepiar. Suspirei e segurei seu pulso, então ela se desvencilhou e entrelaçou nossos dedos. Seu rosto subia, sua boca se aproximava da minha e a pequena distancia se tornou nada quando a língua invadiu, enrolando-se na minha e passeando. Não, não estava passeando, estava conferindo, era como se já conhecesse e fosse dona de toda minha boca. O que isso significava? Questionei e os pensamentos fugiam enquanto minhas roupas eram retiradas. A vergonha fez meu rosto ferver, porém não lutei, deixei que fizesse o que pretendia, e me agarrei aos meus devaneios. Então era ela a casa? As ponderações foram varridas para longe quando sua boca se fechou sobre o meu seio. A sensação molhada dos lábios era agradável, suspirei fundo e então gritei quando seus dentes cravaram, atravessando a pele, fazendo o sangue brotar e escorrer. Encarei-a com meus olhos marejados, embaçados. Ela abandonou a ferida e desceu seu rosto até meu abdômen. Havia me machucado apenas para ver sangrar? Não beberia do seio o sangue ferroso e espesso que por ela vertia? Por causa dela, por culpa dela, por ela. Encolerizei-me e, irritada, me preparei para protestar. Sem que eu nada pudesse dizer, seus dedos deslizaram pela minha intimidade, fazendo-me perder as forças e gemer. Enquanto eu contraia os dedos dos pés e com as mãos puxava os lençóis, a menina abria caminho sem hesitação, voltava e então se introduzia com mais vivacidade. Meus gemidos escapavam, meus olhos não se abriam, meu interior ardia em chamas e o sabor doce das lichias permanecia em minha boca, misturado a sua saliva. Por que eram tão parecidos? Quando minhas costas arquearam e minhas pernas começaram a se dobrar por conta própria, seus dedos pararam. Retirou-se de dentro de mim como quem arranca uma fruta do pé e eu suspirei e grunhi em frustração, como se algo importante tivesse me sido roubado. A casa riu, a menina riu, de maneira sonora, como quem observa uma criança, e então, se deitou ao meu lado na cama. Segurou meu antebraço com as mãos delicadas e puxou para a parte interna de sua coxa. Enquanto ela acariciava meu pulso, levantou a saia de maneira indecente e guiou minha mão até onde gostaria que ela estivesse. — Faça em mim. — Sua voz imperativa soprou e eu estremeci. Sabia o que ela queria, e mesmo sem a certeza de que poderia fazer, prossegui. Passei meu dedo sobre a intimidade dela, estava úmida de modo que ficaram completamente molhados, tomados pelo fluido viscoso que vazava dali. — Faça. — Repetiu. Suspirei, e então, fiz. Introduzi com delicadeza o anelar e o médio, senti seu interior apertar e pulsar, lembrei-me de meus calos e senti vergonha. Pensei em parar desta forma, contudo seus quadris se mexeram de forma necessitada, como se implorando para que eu fosse mais fundo, que explorasse o desconhecido, e, tomada pela emoção, continuei. Busquei imitar seus movimentos, empurrando e puxando os dedos de maneira ritmada enquanto observava suas reações. Ela apertava e revirava os olhos, soltava gemidos manhosos e ofegava fortemente; seus seios pouco avantajados subiam e desciam com a respiração e seu corpo reagia a cada movimento meu. Quando o som de seus gemidos aumentou, sua intimidade apertou fortemente, suas pernas se contraíram e as costas arquearam. Tentei retirar meus dedos, ela porém segurou meus braços com as mãos, me prendendo. Sem reação, apenas continuei, e, depois de um satisfeito grito final, ela me soltou. Quando retirei os dedos, havia entre eles uma pérola. — É sua. — Ela disse. Fechando minha mão e entregando a joia que havia gerado e parido, como uma mãe a uma criança. — Está ficando tarde. Você deve ir. — Assenti e pulei a janela. Antes de partir, olhei para trás, a casa estava lá e não olhava para mim.
Cheguei em casa sem fome, estava satisfeita. Ao me deitar, pensamentos inundavam minha mente, mas estava tão cansada que adormeci sem tentar refletir sobre eles. Dormi abraçada a pérola, e sonhei com os eventos daquela tarde.
Na manhã seguinte, acordei e fui a feira, comprar apenas farinha. Não havia dinheiro para o peixe nem para as batatas.
Passei pela casa, notei que não havia mais lírios ali, e seu olhar parecia carregado de julgamento. Abaixei a cabeça e segui para a feira, comprei a farinha e não tive interesse em passear.
Na volta, a casa estava lá, me observando da mesma forma. Respirei fundo e fui até ela.
A janela estava fechada, porém destrancada, então empurrei, e quando se abriu, para a minha surpresa, nada havia lá.
Completamente vazia.
Sem a menina, sem a cama, sem lichias.
Atravessei a janela e conferi cada cômodo. Todos vazios. Sem sinal de nada, nem ninguém.
Cabisbaixa, retornei para casa, e, naquele dia, não consegui ajudar mamãe a trabalhar. Retornei a casa todos os dias nas próximas semanas, e a resposta imutável era sempre a mesma: nada. Os dias passavam e a lembrança se tornava mais intensa, a menina, seus dedos, sua intimidade, sua cama, as lichias, cada detalhe perfeitamente desenhado, tão claro que me cegava de todo o resto. A sensação de vazio se tornava cada vez mais forte e agonizante. Num ímpeto febril, caminhei até a feira, e, eufórica e disfarçadamente, roubei uma lichia. Corri para a casa, me sentei no chão do quarto desabitado e com satisfação devorei a fruta. Por um momento, senti-me como naquele dia. Nas tardes que se seguiram, mesmo que eu tentasse evitar, o desespero retornava, então passei a roubar frutas todos os dias, e, eu sempre as devorava dentro da casa abandonada de concreto. Havia me tornado uma ladra, pois só assim podia sobreviver. Meu irmão, em certo momento, viu a pérola em minhas mãos. Perguntou por que eu não a vendia para que pudéssemos comprar um pouco de carne, ou, ao menos sardinha, para que não morrêssemos de fome. — Isso é tudo o que eu tenho. — Respondi.
Abracei a pérola e adormeci com dor, com a barriga vazia. A casa agora me olhava com desprezo, sem aceitar que fora ela quem me fizera assim.
Fim.
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