Montanha De Sophias - Experiências (Agri)Doces Em Série , Livro 3
Montanha De Sophias
Tic-tac. Talvez, para você, a imagem que se desenha atrás dos olhos, entre o cérebro e a face, na mente, seja a de uma bala, a qual, a depender do sabor, é gostosa ou sofrível. Talvez, essa onomatopeia signifique, para você, o avançar de um trem, movido por pesadas rodas de metal sobre pesados trilhos de metal, unidas por pesados parafusos de metal, carregando pesados vagões de metal, cheios de pesadas pessoas de metal. Ou talvez não. Talvez essas pessoas sejam feitas de carne e osso, talvez nem existam pessoas e o trem esteja vazio, dessa forma, é mais seguro caso ele venha a descarrilhar. Tic-tac. Talvez para você, assim como para a maioria das pessoas, signifique o som de um relógio; os ponteiros girando e girando, como as rodas de um trem, mas num mecanismo completamente diferente. Um relógio é um dispositivo complexo que tem como função indicar as horas. Seja meio-dia e trinta e quatro minutos, ou, nove e vinte e sete da noite (talvez os horários tenham sido escritos por extenso para evitar confusão ou falsas-pistas na questão a seguir), um relógio é sempre confiável, e sempre vai te dizer a posição do sol em relação a sua posição no planeta. Exceto, é claro, se for um relógio quebrado. Nesse caso, talvez você prefira comprar um novo. Tic-tac. Enquanto você refletia sobre trens, horário e onomatopeias o relógio fez tic-tac um número de vezes igual a quantidade de vezes que a palavra “talvez” aparece nesse parágrafo. Talvez você queira contar.
Sophia estava sentada na poltrona que ficava na biblioteca, usava um vestido belo e confortável, pois ambas as características eram necessárias, e, na cabeça, um grande laço.
Tic-tac. O relógio fazia. O tempo passava.
Não vai ler?
— Não consigo. — A menina disse.
Algum motivo em especial?
— Me sinto inquieta.
Inquieta? Por algum motivo em especial?
— Tudo precisa ter um motivo em especial? — Questionou colocando as mãos na cintura.
Na verdade, não...
— Exatamente. Não tem motivo nenhum, nada de especial. Enquanto estou parada aqui, o tempo está passando! Correndo! Voando! Como uma andorinha, como um jato, como um jato com desenhos de andorinha nas asas! — Pôs as palmas nas bochechas, como um famoso quadro.
Não acho que o tempo seja tão rápido.
— E por que não?
Se fosse, as pessoas perceberiam sua passagem. A maioria das pessoas sequer nota o tempo passando.
— Tem razão..., mas, eu noto! Veja, quatro segundos já se passaram enquanto eu falava! Agora sete!
Qual o problema? Por que contar os segundos?
— Me sinto um pouco ansiosa. — Abaixou a cabeça, tristonha.
Algum motivo em especial?
— Esse é seu novo bordão?
Não. Não é.
— De qualquer forma... Os adultos estão sempre me dizendo que o tempo está passando, e, que logo devo tomar decisões importantes, que vão definir todo o rumo da minha vida! — A menina parecia desesperada, ou melhor, estava desesperada, e isso estava evidente em sua face.
Então você está ansiosa com o futuro?
— Sendo sincera, muito!
Por que não dá uma espiada então?
— Uma espiada no futuro? — Sua expressão agora era de confusão.
Sim. É claro.
— Como eu poderia fazer isso?
O passado, o presente e o futuro, se tratam apenas do momento que você está vivenciando. Além do mais, o universo é mental. Qualquer experiência física é somente uma projeção mental. Experiências sobrenaturais, como uma viagem no tempo, são totalmente possíveis. Basta acelerar o relógio.
Esse é um relógio cuco, não é? A meia-noite um pássaro de madeira irá aparecer e piar de maneira estranha, porém, se você avançar o relógio previamente, pode ver o que vai acontecer antes que isso ocorra.
— Tem certeza de que isso é seguro? Eu li em alguns livros de ficção cientifica que mexer com o tempo é absurdamente perigoso.
E não mexer é absurdamente tedioso.
— Você está agindo como uma criança.
Vai tentar ou não?
— Vou.
Isso é ótimo.
— Por que você parece especialmente animado com isso?
Devo admitir que estou ansioso para ver como você vai ser.
— Como eu vou ser?
Sim, no futuro.
— Como eu serei daqui a alguns minutos?
De certa forma.
— Seja direto!
Você verá.
— Entendo... — Assentiu sem realmente entender.
Sophia segurou a saia do vestido e, calmamente, se levantou, com cuidado e recato, uma verdadeira dama. Caminhou até o grande relógio cuco posicionado no canto da enorme biblioteca, ao lado das estantes de madeira que iam do chão ao teto, e colocou seu dedo sobre o círculo numerado. Girou os ponteiros em torno do eixo, sem se preocupar com quantas vezes eles davam a volta sobre os traços que marcavam, de 5 em 5 minutos, as horas.
Nada aconteceu, aparentemente.
Sophia se virou e suspirou.
— E agora?... — Indagou.
— Alguma dúvida, criança? — Disse uma voz calma.
Quando levantou seus olhos e investigou a sala, a menina percebeu que, agora, ao invés de uma, havia 5 poltronas posicionadas em uma meia-lua, e, exceto a central, todas as outras quatro estavam ocupadas por mulheres, jovens ou maduras.
Da esquerda para a direita, uma parecia ter 7 anos, a outra parecia ter 14 anos, havia um assento vazio, e então, a próxima parecia ter 21 anos e a última parecia ter 35 anos. Tinham alturas diferentes, exceto as duas últimas, e todas tinham a mesma cor de cabelo de Sophia (exceto uma), a mesma cor de pele de Sophia e a mesma cor dos olhos que Sophia tinha.
— Quem são vocês? — Sophia indagou.
— Sophia.
— Sophia.
— Sophia.
— Sophia.
— Sophia.
Responderam em uníssono.
Os olhos de Sophia giraram nas órbitas, isso é, os olhos da Sophia que estava de pé.
— Quando vocês chegaram aqui?... — Questionou.
— Algumas de nós ainda nem chegaram, outras já se foram. De certa forma, só você está aqui etc. — Explicou a que parecia mais velha dentre todas, se ajeitando na poltrona. Era alta e usava um elegante blazer preto com saia branca, que, provavelmente, não eram tão confortáveis assim; o cabelo, curto e bem penteado, era brilhoso; a pele era lisa, sem qualquer imperfeição.
— Entendo... — Assentiu sem realmente entender.
— Imagino que esteja confusa, deixe-me ajudar. — A mais velha se levantou de sua poltrona, caminhou até Sophia e colocou a mão sobre seu ombro. Cheirava fortemente a baunilha. — Todas aqui são Sophias. Só que em diferentes momentos. Cada uma tem suas próprias opiniões e pensamentos, isso reflete quem elas são. As pessoas mudam com o tempo, por isso, elas podem parecer diferentes, mesmo tendo uma aparência semelhante etc. Você entendeu? — A mulher sorriu calorosamente.
— Enten- — Começou.
— Não precisa mentir, leve o tempo que precisar. — Interrompeu.
Sophia ficou em silêncio.
A adulta continuou.
— Você parece ansiosa com o futuro, então faz sentido ouvir o que as mais velhas têm a dizer. Porém, na minha opinião, vai conseguir refletir melhor sobre o futuro se entender o passado. — Fez uma pausa. — Eu recomendo que comece da esquerda e então siga para a direita. Dessa forma vai ser mais fácil etc. — Aconselhou.
— Faz sentido... Eu vou. — Sophia acenou a cabeça com determinação. Todas as palavras da mulher adulta eram incrivelmente convincentes e tinham um ar de corretas, como se ela soubesse exatamente o que seria melhor em qualquer situação que fosse, mesmo numa emergência catastrófica, como estar em um avião em queda.
— Estarei te esperando.
— Você... Qual seu nome?
— Como eu disse, Sophia.
— Não parece...
A mulher sorriu, dessa vez não era um sorriso maternal, mas um frio sorriso de satisfação maliciosa.
— Muitas coisas não são o que parecem. — Explicou — Contudo, se quiser evitar se confundir ou confundir o senhor leitor, pode me chamar de Sophia Ideal.
— Ideal?
— É melhor você ir até a primeira poltrona, crianças não são conhecidas por sua paciência etc. — Disse enquanto voltava ao seu lugar.
Sophia lentamente caminhou até a primeira poltrona. Era rosa e tinha entalhes que imitavam uma coroa de princesa, além disso, havia vários animais de pelúcia sentados (a maioria caídos), todos usando máscaras de carnaval, juntos a menina que aparentava 7 anos; cabiam muitos animais, pois ela era pequena demais para a poltrona, ou seria um trono?
Quanto mais próxima Sophia ficava da "poltrono", mais distante as outras pareciam, e, mais animada se tornava a expressão de expectativa da garotinha.
Sem saber exatamente o que dizer, Sophia se preparou, forçando a garganta, como as pessoas fazem antes de apresentações importantes. Porém, antes que dissesse qualquer palavra, foi empurrada... Não... Puxada. Foi empurropuxada.
Uma empurropuxada, caso você não saiba, se trata daquelas situações onde uma pessoa apressada quer tirar você do lugar onde está para tratar de algum assunto importante; por isso, ela te empurra, porém, incapaz de conter seu avanço, ela continua a trajetória sem te soltar, seja empurrando as suas costas para que você ande na direção desejada, ou, segurando seu braço, arrastando consigo (os espírito e a mente dela estão a sua frente, te puxando e o corpo te empurrando; ou ao contrário), sendo o segundo caso o de Sophia; que ficou de coração partido ao notar a expressão de tristeza da garotinha, com grandes olhos marejados, beicinho tremulando e sobrancelhas levantadas, por ver ela se afastar, ou melhor, ser afastada.
Quando a empurropuxada terminou Sophia estava frente a frente com Sophia, isso é, a Sophia de 14 anos, residente da segunda poltrona da esquerda para a direita.
A menina parada ali era quem tinha a aparência mais próxima a de Sophia, não somente pelos cabelos, olhos e pele iguais, mas também pela altura e constituição do corpo; visto que as meninas, geralmente, não crescem tanto dos 13 para os 14 anos. A diferença era mínima, e estava apenas nas roupas.
— Você deveria esperar sua vez. — Disse Sophia, a primeira Sophia.
— O tempo não espera. — Respondeu a outra.
— Acho que isso é verdade... Mesmo assim, quem é você? — Indagou.
— Sophia.
— Eu sei disso. Porém, você não tem um sobrenome, como a Sophia Ideal?
— É você quem escolhe o que vai ser. Eu sou do futuro, mais precisamente do futuro próximo. Tenho 14 anos, sou apenas seus próximos passos, não seu resultado a longo prazo. — Explicou. — Quem eu sou?
— Entendo... — Estava começando a entender, era o que acreditava. — Achei que vocês escolhiam os próprios nomes.
— Isso não faria sentido, nós ainda nem chegamos a ser.
Sophia colocou o dedo indicador, dobrado, no queixo e pensou por alguns segundos. Algo parecia errado.
— De qualquer forma... — Exclamou. — Se você sou eu daqui a 1 ano...
— Oito meses. — Corrigiu.
— Oito meses... — Repetiu, incomodada por receber uma correção tão boba como a da própria data de aniversário. — Você vai ser a Sophia De Daqui A Pouquinho.
— Muito longo.
— Sophia Do Futuro Inesperadamente Próximo?
— Mais longo ainda!
— Sophia De Apenas Oito Meses e Três Dias No Futuro O Que É Muito Menos Do Que Um Ano.
— Leve meu nome a sério!!! — Sophia De Daqui A Pouquinho ordenou, batendo o pé. Sophia, a de agora, cobriu a boca contendo uma gargalhada que quase escapou.
Ambas inspiraram profundamente, puxando o ar, e expirando logo em seguida.
A menina 8 meses e 3 dias mais nova reparou nas roupas da outra; também usava um vestido, porém, completamente diferente. Era um belo vestido, mas, ao invés de confortável (uma característica completamente necessária) era de um modelo um tanto justo, tingido de preto com algumas tiras de jeans, e passava um ar mais responsável e maduro do que a peça fofa e delicada de Sophia, tinha um par de brincos com belas pedras verdes e, principalmente, não usava um laço na cabeça.
— Que tal Sophia Sombria? — Ofereceu.
— É meio ameaçador. Contudo, vai servir. — Sophia Sombria concordou com um aceno de cabeça.
As duas olharam em volta, num silêncio constrangedor, e então, se encararam.
— Por que me puxou para cá?
— Empurropuxei.
— Você está ouvindo a narração?
— Fui eu quem inventou o termo "empurropuxada". — Exclamou com orgulho, colocando a mão direita sobre o peito.
— Isso não responde a minha pergunta...
Se você pode ouvir, ela também pode ouvir. Afinal, é só você no futuro. Na verdade-
— Exatamente. Eu posso ouvir, assim como você. Pois sou você. — Disse Sophia Sombria, numa interrupção que carecia da educação adequada.
— Entendo. — Assentiu Sophia. Dessa vez havia realmente entendido.
Você não deveria interromper as pessoas.
— Ouviu, Sophia? Não interrompa as pessoas. — Concluiu Sophia Sombria, distorcendo as falas do narrador e direcionando-as a alguém que não merecia um sermão.
— Certo... — Respondeu cabisbaixa, coitadinha.
Sophia.
— Sim?
— Sim?
As duas responderam.
Sophia, não Sophia Sombria.
— Tá, você quem sabe. — A menina sem um laço deu de ombros.
Lembre-se que essa ainda é a sua história. Sophia Sombria é você, mas você não é ela. Não se não quiser.
— Certo... — Sophia estava confusa, como as pessoas costumam ficar quando mexem com o tempo ou leem histórias sobre isso.
— Chega de conversa. O trabalho do narrador é contar a história, não se intrometer nela.
Em algum lugar pôde se ouvir um "hunf" de frustração.
De qualquer forma...
— Pode responder minha pergunta agora?
— Claro! — Balançou a cabeça. — Bem... Qual era mesmo sua pergunta?
— Por que me "empurropuxou" para longe daquela pequena Sophia?
— Isso é fácil de responder. Você parecia confusa, até que aquela moça te ajudou. — Apontou para Sophia Ideal, que estava tão distante que quase desaparecia da visão. — Agora você parece um pouco menos confusa, porém, pensei que novas dúvidas poderiam surgir, então eu poderia ajudar. Tenho a certeza de que qualquer aventura fica mais divertida com companhia.
— Você tem razão... — Admitiu. — Então vamos logo, o tempo está correndo.
— Você não imagina o quanto...
As duas então se viraram e caminharam em direção a pequena criança, isso é, a criança ainda menor que elas. Ambas sentindo um frio na barriga, por motivos completamente distintos.
A garotinha, antes chorosa, se tornou radiante ao ver as duas meninas se aproximarem, e começou a balançar o corpo de um lado para o outro em animação.
— Olá. — Disse Sophia.
— Olá! — Respondeu a pequena.
Sombria apenas acenou.
— Como você se chama?
— Como eu me chamo... — Parecia fazer grande esforço ao tentar lembrar.
— É você quem diz. — Sussurrou a menina vestida de preto.
— Ah. Claro. — Lembrou-se. — Bem... Você é pequena e fofa. Quando eu era pequena — Sophia quis dizer "menor". — Algumas pessoas me chamavam de Soso, é um apelido. Tudo bem para você?
— Eu me chamo Soso! — Soso respondeu alegremente, o que fez com que uma das meninas sorrisse e a outra revirasse os olhos. — É o nome que meus pais escolheram.
Era miúda, fazendo a poltrona (trono) parecer maior do que realmente era, estava rodeada pelos animais de pelúcia com máscaras de carnaval e vestia um singelo vestido branco com o desenho de uma grande flor rosa acima do abdômen, que a dava uma imagem de camponesa, não de princesa, e claro, não havia um laço na cabeça. No colo, um grosso livro de capa dura que, mesmo para um adulto, era grande demais.
— O que você está lendo? — Sophia era uma devoradora de livros e, talvez por isso, sempre gostava de saber o que as outras pessoas estavam lendo. Quando tinha a oportunidade perguntava, se não, dava seu melhor para expiar a capa ou uma página que pudesse revelar algo.
— Tractatus Logico-Philosophicus.
O que?!
Digo.
Esse se trata de um livro extremamente complicado, somente uma pequena parcela dos adultos já leu, e uma parcela ainda menor entendeu alguma coisa que seja. Além disso, a edição que ela segurava parecia ter bem mais páginas do que uma edição comum. "Talvez uma edição comentada?" Sophia pensou, e, sentindo-se impressionada, e um pouco humilhada, sorriu nervosamente.
— Eu já li esse... É um ótimo livro... — Mentira.
— Estou lendo para ser chamada de "inteligente".
— Ser chamada? Não ser de fato? — Questionou.
— Você gosta de livros, irmãzona?
Irmãzona?
O coração de Sophia saltitou. Já havia pensado inúmeras vezes em como seria se tivesse uma irmãzinha (ou um irmãozinho), tinha ponderado sobre as dificuldades e mudanças, sobre as perdas e os ganhos. Mesmo não tendo chegado a uma conclusão, é um fato que havia certa satisfação egocêntrica em cumprir um papel tão importante na vida de alguém. Também era um fato que Sophia era filha única, e foi o que Sombria fez questão de lembrar.
— Somos todas filhas únicas. — Disse.
— É verdade... — Soso admitiu cabisbaixa.
Sophia sentia que estava deixando a oportunidade escapar, como areia entre seus dedos, então decidiu agir.
— Uma irmã não precisa ser de sangue, não é? Além do mais, mesmo que fosse essa a questão, eu suponho que tenhamos o mesmo DNA.
— Tem razão!
— Isso é uma perca de tempo. — Os belos brincos verdes balançaram quando Sombria meneou a cabeça e bufou.
— Sendo eu a irmãzona... — Estufou o peito, tomada de orgulho. — Sim, eu amo livros. Já li todos da nossa biblioteca de casa! Exceto os da prateleira de matemática... — Sua energia pareceu ter se esgotado num instante. — As aulas são o suficiente para mim...
— Uau! Isso é incrível! — O brilho nos olhos de Soso trouxe a vida de volta para o corpo de Sophia, expulsando os males da matemática. (Não existe nenhum mal na matemática, e, você provavelmente vai obter melhores resultados se estudar devidamente. O que, para Sophia, era uma tarefa de extrema dificuldade.) — Eu quero ler todos os livros do mundo e ser elogiada por todos! — Exclamou.
— Isso é simplesmente impossí- — A mão de Sophia foi rapidamente colocada sobre a boca de Sombria, impedindo que ela terminasse a frase.
— Tenho a certeza de que vai conseguir. — Sorriu com os olhos fechados, o que ajudou a conter o grito de dor quando Sombria mordeu sua mão.
As duas mais velhas se encararam com julgamento, uma por calar a outra e outra pela resposta violenta. Contudo, conseguiram, somente através do olhar, acordar a paz novamente.
— Vou me esforçar!
— Por que esses animais estão de máscara? — Indagou Sophia, mudando de assunto.
— Para assumir papéis. — Soso explicou.
— Assumir papéis?
— São como as pessoas... — Murmurou Sombria, ela fazia muito isso.
— Animais não são o suficiente para brincar, as vezes eu preciso que um jacaré seja rei, que uma arara seja princesa, ou, que um morcego seja uma pessoa necessitada.
Sinto que já ouvi isso em algum lugar.
— Por quê sinto que sou, justamente, o único mamífero dessa história...
— Mamífero? — A pequena (menor) parecia confusa.
Talvez ela não tivesse lido esse livro.
— Eu estive pensando... — Sophia olhou para as outras poltronas distantes, tão distantes que quase não dava para ver as pessoas sentadas sobre elas (na verdade, apenas em metade delas). — Soso, o que você quer ser quando crescer?
— Hm... — Grunhiu pensativa. — ...Uma pintora! Eu adoro desenhar.
O coração de Sophia deu um pequeno salto. Então ela sorriu e disse:
— Tenho a certeza de que vai conseguir! — De alguma forma essas palavras a confortavam mais do que confortavam Soso.
Sombria abriu a boca, porém, antes que dissesse qualquer coisa, um olhar foi, novamente, o suficiente para resolver a situação, fazendo-a optar pelo silêncio.
— Vocês são amigas? — Indagou a pequena, isso é, a menor das meninas.
— De certa forma, sim.
— Posso ser amiga de vocês também?
— Claro que pode! — Sophia respondeu.
Sombria revirou os olhos.
— Obrigada! — Sorriu. — É a primeira vez que tenho amigas!
Sophia manteve um leve sorriso desenhado nos lábios, porém, algo nessas palavras trouxeram uma sensação de náusea e aperto no peito.
— Você não tem nenhum amigo? — Indagou com toda a delicadeza que pôde, e, mesmo assim, se sentiu um tanto grosseira.
— Eu tenho vocês! — Respondeu animada.
— Ela quis dizer, além de nós. — Explicou Sombria, um pouco impaciente.
— Ah... Não... — Fez uma pausa. — Eu li que os livros são a melhor companhia que se pode ter. Não é a mesma coisa, mas, eles são meus amigos.
Sophia ficou em silêncio.
— Se lembrou de algo? — A menina de preto não parecia nada feliz, todavia parecia satisfeita, não com a solidão das outras duas Sophias, mas com a certeza de que todas eram de fato Sophia.
— Sempre... — Murmurou a garota com um laço na cabeça.
— O que? — Indagaram, confusas.
Sophia já havia viajado (quase) completamente sozinha, atravessado florestas perigosas, enfrentado o medo, ficado cara a cara com bruxas e centauros, caçado hipopótamos, vencido até mesmo um cavaleiro de verdade, usando uma espada. Mesmo negando a floresta de seus próprios desejos, algo que ela ainda não conseguia lidar, Sophia tinha passado por muita coisa, e, mais do que ótimas histórias para contar, ela tinha aprendido algo.
— Sempre tem alguém cuidando de você. — Disse.
As duas meninas se despediram e partiram para a próxima poltrona, deixando Soso para trás. Ela parecia feliz e acenava de longe, balançando as mãos no ar.
Você foi muito bem.
— Obrigada... — Respondeu um pouco pensativa, receosa.
Algum problema?
— Não, é só que... É estranho olhar para o passado, é meio melancólico lembrar o quanto eu... O quanto ela estava sozinha.
Você disse a ela que não estava.
— Sim, eu disse. — Exclamou irritada. — Mas isso não muda o quanto ela sofreu e como, seja por não perceber ou não receber a ajuda necessária, ela se sentiu sozinha. Mesmo com alguém por perto, esse sentimento, a angústia, é real.
Sim, é.
— E não dá para mudar o passado...
Você ainda pode-
— Temos que prosseguir com a história antes que ela fique maçante. Os leitores gostam de ação dramática. Você não quer avaliações negativas, não é? — Interrompeu Sombria, como já estava se tornando comum.
— Avaliações negativas? — Inclinou a cabeça em dúvida, fazendo o laço balançar.
— Sim! Os leitores sempre dão opiniões sobre as histórias, eles dizem o que presta e o que não presta, até quantificam a qualidade em estrelas. — Explicou levantando o dedo indicador, tomando ares de inteligência.
— As pessoas colocam seus corações nas histórias que escrevem, se esforçam muito! Como alguém poderia dizer que não prestam ou reduzir isso a uma nota como 2,7/10 ou 3,01 estrelas? — Sophia estava indignada diante de um conceito que era, ao mesmo tempo, tão simples e tão complexo.
— Não tem que ser certo ou errado, tem que ser funcional. — Deu de ombros. — Histórias são feitas para serem lidas, e, se você quer ser lida, precisa de boas avaliações, divulgação e recomendações. Caso contrário, é só um pedaço de papel.
— Não diga algo tão cruel!
— Eu só estou te dizendo como as coisas são, dessa vez não fui eu que inventei o conceito de "mercado literário".
— Acho que nunca vou escrever uma história... — Sophia suspirou.
— Não conte com isso. — E riu.
A próxima poltrona estava vazia, afinal, ali era o lugar de Sombria, então, seguiram adiante.
Sophia não deixou de notar a aparência da poltrona solitária. Parecia com a da biblioteca, mas, ao invés de vermelha, era preta e, em ambos os lados, havia arabescos com flores, que a menina reconheceu como orquídeas, feitas de metal prateado. De certa forma, a aparência um tanto obscura combinava com o nome que tinha escolhido para ela.
Ajeitando seu laço, Sophia sorriu.
Seguindo adiante, a poltrona que estava vazia desde o início era a boa e velha poltrona vermelha da biblioteca, consideravelmente usada, porém, em bom estado. Novamente não pararam a marcha, mas Sophia parou para pensar.
Se o tempo era uma linha, a dita linha-do-tempo, e, na primeira poltrona, estava sentada a mais nova, enquanto na última estava sentada a mais velha, algo parecia fora de lugar. Talvez o tempo seja circular como algumas teorias propõem? Mesmo nessa hipótese, era óbvio que havia certa linearidade dentro da tão absurdamente extensa biblioteca afetada pelo tempo. Então por que o assento de Sombria vinha antes que o de Sophia?
Era possível deduzir que cada pessoa naquela sala era de fato uma PESSOA, mesmo que em diferentes pontos do tempo, seja ele circular ou linear. Qual seria o motivo para apenas duas delas terem seus lugares trocados, ou talvez, invertidos?
Sophia pensou na possibilidade de haver algo especial em si, quem sabe estivesse na poltrona central simplesmente porquê foi ela quem girou os ponteiros do relógio? Essa teoria, porém, soava um tanto egocêntrica demais. Tentou imaginar se poderia existir algo de especial em Sombria. Contudo, exceto por suas particularidades inerentes a qualquer ser humano, como estilo e linguajar, não havia nada de realmente diferente entre as duas.
Ponderou as questões mentalmente, porém, mesmo a ideia de que as poltronas estavam organizadas por idade, por mais intuitiva que fosse, não passava de uma teoria. Uma questão que não valia a pena ser respondida, portanto, não valia a pena ser perguntada.
A caminhada continuou por longos minutos.
As duas finalmente chegaram a quarta poltrona, talvez a mais enigmática. O estofado era roxo com bordados de rosas vermelhas, no topo do encosto e aos lados havia enormes e ameaçadores espinhos de metal, afiados demais para meros enfeites. Sentada na poltrona, uma mulher jovem, de tamanho normal e beleza excepcional, trajava um vestido completamente preto que exibia completamente as pernas, e pesadas botas masculinas pretas. Tinha a mesma cor de pele que Sophia e a mesma cor dos olhos que Sophia tinha, porém, seu cabelo era roxo, como as outras, não tinha um laço, mas, tinha na cabeça um grande chapéu preto de bruxa com um enfeite prateado de morcego.
— Se não puder ser o remédio, seja o veneno. Caso contrário, será apenas água. — Os olhos estavam tão sérios quanto o de um general, e os cabelos tingidos balançaram ao ser a primeira das três a dizer alguma coisa. E, se me permitem opinar: que coisa!
— Qual o sentido dessa frase? — Sombria fez o que chamamos de "pergunta retórica", termo que significa que uma pessoa não quer uma resposta, ela quer que você reflita sobre o assunto.
— Uaaaaauu!!!!! — Sophia gritou, com os olhos brilhando como estrelas, e usando muitos pontos de exclamação!!!!!
— É sério isso? — A esse ponto, você já sabe quem deu um leve tapa na própria testa e revirou os olhos.
— Eai?! — Disse a mulher, orgulhosa de sua primeira aparição. Misturar tipos de pontos provavelmente a tornaria uma personagem mais intrigante.
— Olá. — Sophia acenou.
— Oi. — Disse a menina ao lado, com desânimo.
— Quem é você? — Indagou a com o laço na cabeça.
— Para dizer a verdade, é você quem sabe. — Respondeu com um sorriso.
— Tem razão... — Sophia levou o indicador dobrado ao queixo, pensativa.
— Que tal algo legal? — Ofereceu a bruxa, pelo menos o chapéu indicava que fosse uma. — Nomes definem uma parte de nós, mas, construímos nosso próprio destino!
— Uaaaau!!! — Exclamou Sophia em resposta a carismática e enervante mulher!!!
— Qual é a das frases de efeito? — Dessa vez a pergunta de Sombria era sincera.
Porém não recebeu uma resposta.
A moça sentada sorriu e deu uma piscadela para Sophia, que, animada, apenas continuou a conversa.
— Você tem um belo chapéu. É uma bruxa?
— Em treinamento. Digo, apesar de estar quase formada, ainda não sou uma bruxa completa.
— Você pode fazer magia?
— É claro que sim. Só que, infelizmente, não tenho permissão de evocar feitiços sem a supervisão da minha professora, exceto se for extremamente necessário. — Explicou.
— Sophia-Quase-Bruxa é um pouco longo... — Murmurou.
— E ridículo. — Concluiu Sombria.
— Você não precisa se esforçar tanto para isso, é sério. Nomes não são tão importantes, isso não vai mudar quem eu sou. — Continuou. — Além disso você parece uma garota criativa, não deixe a pressão te esmagar.
— Isso... — Sophia estava emocionada, completamente maravilhada. A mulher de cabelos roxos havia a acolhido de forma tão reconfortante sem perder, nem por um segundo, sua postura apoteoticamente descolada. Ainda por cima, ela havia feito isso usando do mais sofisticado e bem aplicado estoicismo; termo que aqui significa: o ato de parecer maneiro ao dizer que não se importa, demonstrando ser verdadeiramente sábia. Realmente se tratava de uma bruxa, apesar de não formada.
— Isso o que? — Sombria estava incomodada com a pausa, era um tanto ansiosa, além de sínica, desbocada e... — Continue narrando. — e outras coisas mais.
— Isso foi tão maneiro! — Sophia ergueu o punho com determinação, estava completamente deslumbrada com a presença da mulher.
— Não foi nada... — Agradeceu com falsa-modéstia.
— Irmãzona Sophia! — Declarou, balançando a cabeça em afirmação, fazendo o laço chacoalhar.
A Irmãzona Sophia riu.
— Não era você a "irmãzona"? — Questionou Sombria, demonstrando mais interesse do que pretendia.
— Eu posso ser a irmãzona e a irmãzinha, só depende do ponto de vista. — Deu de ombros.
— Então você é a irmã do meio...
— O que? Não! Os irmãos do meio são, quase sempre, os mais infelizes. Eles recebem menos amor, menos atenção, menos presentes e vivem sempre a sombra dos outros. — Sophia reclamou veementemente, como se seu protesto pudesse, de alguma forma, mudar a lamentável situação de todos os infelizes irmãos do meio de todo o mundo. Infelizmente não podia.
— Isso é verdade. — Concordou Irmãzona Sophia.
— De uma forma ou de outra, é o que você é. — Sombria proclamou.
— Tão injusto... — Ajeitou o laço e fungou chorosamente.
— O homem é o lobo do homem. — Exclamou a quase-bruxa.
Sombria deu de ombros.
— Você é tão inteligente Irmãzona... É incrível. Sua beleza é excepcional, mas, ao mesmo tempo, você é tão forte. Eu queria ser como você... — Sophia suspirou.
— Sabe, é mais fácil do que parece. A beleza, a força e até a inteligência existem dentro de você, só é preciso acessar. — Explicou.
— Não acho que eu possa fazer isso, veja, meu assento é tão comum. — Apontou para a poltrona central, vazia.
— Seu assento?
— Sim.
— Quem disse que aquele lugar é seu?
— Eu supus...
— Os humanos tendem a fazer suposições, as suposições tendem a estar erradas. — Cruzou os braços, tomando ares de seriedade.
As reações de Sombria, nesse ponto, nem se faziam necessárias de nota.
— Se o lugar não é meu, de quem é? — Sophia perguntou.
— Isso é uma história complicada... Complicada e assustadora.
— Por que só não diz logo? — Questionou Sombria, apressada.
— Uma história desse tipo mudaria drasticamente o ritmo e o clima da narrativa. Mudanças abruptas geralmente não agradam o público.
— Precisamos arriscar! — Exclamou Sophia.
— Não digam que não avisei...
Uma história dentro de uma história é um recurso muito antigo, usado em diversos tipos de narrativas. Você deve conhecer Hamlet, a segunda mais famosa peça de Shakespeare. Caso você não saiba qual a peça mais famosa de Shakespeare, a resposta seria: Romeu e Julieta. Assim como em Romeu e Julieta, em Hamlet temos um protagonista jovem, temos também uma forte paixão entre dois jovens e uma jovem que se suicida. Ah, a juventude...
Você deve estar pensando: "Esse narrador não vai me dizer que Romeu e Julieta e Hamlet são a mesma coisa? Eu COM CERTEZA assisti a uma apresentação das duas peças, e COM CERTEZA li uma cópia, traduzida para minha língua, dos manuscritos das duas peças, e, COM CERTEZA me lembro muito bem das duas serem completamente diferentes, se não me engano." E, para dizer a verdade, eu não poderia discutir com alguém tão profundamente letrado na obra de William Shakespeare, contudo, assim como uma mãe pode errar o nome da própria filha, assim como um cientista pode calcular errado a fórmula que ele mesmo descobriu, qualquer pessoa, humana o suficiente, pode errar ou se esquecer. Por isso, vou lembrá-lo da principal diferença entre Romeu e Julieta e Hamlet: Uma peça dentro da peça.
Enquanto em Hamlet o personagem principal faz uma bela peça para agradar o seu novo rei, novo pai e antigo tio, em Romeu e Julieta não temos esse tipo de metanarrativa.
Você deve estar pensando: "As diferenças COM CERTEZA são muito maiores, mais complexas e filosoficamente profundas, no que diz respeito a trama de ambas as peças." Contudo, ninguém mais está disposto a ouvir você. Pessoas que sempre tem tanta CERTEZA, são maçantes.
Uma história dentro de uma história é uma ótima maneira de construir tensão, aprofundar o cenário e controlar o ritmo da narrativa, e, assim como em Hamlet, essa historieta possui uma historieta dentro dela.
A maioria dos contos possuí um título, e, os contos de terror e horror, no geral, tem títulos marcantes, que constroem a história antes mesmo de começar, ou melhor, são seu mergulho inicial em direção ao medo e ao obscuro. Essa narrativa, naturalmente, tem um também.
O Sorrateiro Uivo Interior Compenetrado, Insondável, Doloroso, Inaudível e Obstinado DE SOPHIA.
Havia uma garotinha, era pequena, fofa e esperta. Tinha 13 anos e 4 meses. Usava um vestido que não era belo nem confortável. Na verdade, o vestido havia sido belo e confortável outrora, porém, no momento dessa história, estava sujo e rasgado, usado sem descanso por loooooongos dias. Essa menina tinha a mesma cor de cabelo que Sophia, a mesma cor de pele que Sophia e a mesma cor dos olhos que Sophia tinha. Seu nome era quase o mesmo que o de Sophia, mas, com uma pequena diferença. Essa era a Pobre Sophia, uma frágil garotinha que vivia sozinha.
Pobre Sophia... Ela, como todas as meninas, enfrentava dificuldades. Quando a Pobre Sophia tentava mostrar seus trabalhosos desenhos aos país, eles não se voltavam a ela; quando a Pobre Sophia se deparava com uma prova de matemática, o mundo todo a sua volta desmoronava; ao deitar-se para dormir, a Pobre Sophia não pregava os olhos; a Pobre Sophia não recebia cartas de ninguém, nem tinha alguém para quem pudesse enviar as suas, por isso, não perdia tempo escrevendo.
Sentindo-se sozinha, passava muito tempo na biblioteca, mesmo sem nunca ler nenhum livro. Gostava de sentar-se sobre a confortável poltrona, abraçar os joelhos e chorar.
— Ela não tinha ninguém? — Sophia, com os olhos marejados, perguntou.
— Tinha sim. Mas a Pobre Sophia não olhava para as coisas boas, passava a maior parte do tempo revivendo as ruins. — Esclareceu a Irmãzona.
— Não é como se houvesse tantas coisas boas assim... — Murmurou Sombria.
— Vamos continuar.
A Pobre Sophia tinha alguém que cuidava dela, ou tentava. A Esforçada Ayla gostava e elogiava os desenhos da Pobre Sophia, ensinava como funciona a fatoração de polinômios, e receitas de chás que faziam donzelas dormirem sem sonhar. A Esforçada Ayla porém, mesmo se desdobrando ao máximo que podia, não era boa escrevendo cartas.
"Se ninguém me escreve longas cartas, então não tenho porquê estudar matemática ou beber chá sem açúcar!" Dizia a Pobre Sophia.
A Esforçada Ayla fazia o seu melhor para que a Pobre Sophia se sentisse querida, mesmo que um pouco. Mas "esforçada" e "capaz" são palavras com significados distintos.
"Se uma só pessoa elogia meus desenhos e tantas outras os ignoram, então de nada vale pintar!" Repetia para si mesma.
Para a Pobre Sophia, a opinião da maioria das pessoas era mais importante e vital do que a de uma evidente minoria, principalmente se fosse uma pessoa só.
— Essa é uma forma equivocada de pensar! — Exclamou Sophia.
— Sim, é. — A Irmãzona concordou.
— Nem tanto... — Sombria abaixou a cabeça.
— Vamos prosseguir.
De tanto passar tempo na biblioteca abraçada aos joelhos, a Pobre Sophia decidiu ler alguns livros.
As obras em nada careciam de qualidade, porém, quando presenciava as empreitadas emocionantes dos aventureiros, os amores ardentes das princesas ou a profunda devoção voltada aos grandes reis, tudo o que sentia era inveja.
"Por que só eu não posso ter tudo isso?" Questionava enfurecidamente.
A Pobre Sophia, por muito tempo permaneceu sozinha na biblioteca, e, segundo sua forma de ver o mundo, não havia ninguém que cuidasse dela.
Um dia, porém, cansada, decidiu que não leria mais nenhum livro.
E assim o fez.
Não podia mais ler livro algum.
Fim.
— Nenhum livro?... — A pergunta se arrastou pela garganta de Sophia, como se não quisesse sair.
Quando palavras parecem significar mais do que apenas seu sentido literal as sílabas se amedrontam.
— Sim, foi a escolha que ela fez.
— Por que alguém faria isso?
— Acho que depois de algum tempo você deixa de gostar de livros. — Respondeu despreocupadamente a Irmãzona.
— Essa história é uma metáfora. A Pobre Sophia perdeu mais do que o gosto pela leitura. — Sombria rosnou irritada.
— Exato. Mas o que tiramos disso? — Irmãzona sorriu.
— O que deveríamos tirar?... — Indagou Sophia desanimada.
— Sua forma de pensar é a peça mais importante do seu cérebro. — A Irmãzona apontou para a própria cabeça de modo teatral, era uma de suas frases de efeito, por mais que, dessa vez, não tivesse tido grande impacto.
Todas ficaram em silêncio. A verdade é que nem Sophia e nem Sombria gostariam de concordar com a frase de efeito, não porque havia algo de errado nela (exceto pelo fato de o cérebro não ser formado de peças), mas porquê a história de terror realmente tinha deixado as meninas assustadas, e ninguém fica feliz ou animado quando se está com medo.
Sophia era uma menininha corajosa e esforçada, que também já havia vivenciado algumas aventuras e lido muitos livros. Comparada a maior parte das menininhas, ela sabia bastante. Em uma de suas agridoces aventuras, aprendeu que não deveria pensar no passado com pesar. Além do mais, isso provavelmente se aplicava a um passado que, do ponto de vista dela, não aconteceu. Então ajeitou o laço que, devido a seu desânimo estava caído, como as orelhas de um cachorro, e disse:
— Se olharmos demais para o passado, vamos deixar o futuro escapar.
Sombria suspirou, também não queria concordar com isso, mas, dessa vez também não tinha argumentos.
Irmãzona se animou e, orgulhosa, apontou para Sophia dizendo:
— Quando sair da tempestade, não será o mesmo que entrou.
Essas palavras e a determinação que a menina tinha reunido apertaram as mãos e, num caloroso abraço, se uniram, e então, como coincidentemente acontece com personagens presentes em histórias de qualquer cultura que seja, subiram aos céus e tornaram-se estrelas; o que significava que a determinação e energia de Sophia voltaram. Seus olhos então brilharam de admiração pela tão incrivelmente descolada e estilosa bruxa.
— Irmãzona, como você sabe de tanta coisa? — Perguntou.
— Eu não sei de tudo. Só sei o que sei. — Disse no que parecia uma explicação, mas...
— Você só leu isso em algum lugar! — Protestou Sombria.
— Ler é a melhor forma de aprender. — Sophia rebateu.
— Não. — Se corrigiu. — Digo, sim. Mas, essa frase! Ela só copiou de um livro! — Bateu o pé irritada.
— Uma referência?
— Sim!
De fato, era uma referência como tantas outras.
— Qual o problema com referências? — Sophia cruzou os braços, estávamos entrando num assunto sério para ela que havia nascido a partir de outra personagem um tanto parecida, provavelmente sua mãe.
— Nesse caso, não seria uma cópia? — Sombria respondeu receosa, como quem caminha por uma ponte de corda sobre um rio de crocodilos.
— Eu acredito se tratar de uma situação completamente distinta, e, seja lá a qual bela personagem de óculos pertença essa frase, ela é bem diferente da Irmãzona. — Prosseguiu. — Além disso. Mesmo que a frase esteja escrita da forma mais parecida quanto possível, a Irmãzona provavelmente gosta muito desse livro, afinal chegou ao ponto de lembrar perfeitamente e ainda dizer isso num momento desses! — Retomou o ar. — Qual o problema de usarmos pequenos pedaços das coisas que amamos para demonstrar o quanto elas foram importantes em nossas vidas?
— Nenhum... Apenas construa algo novo a partir disso, caso contrário vai ser apenas plágio... — Sombria deu um passo para trás. Não era o que, inicialmente, ela tinha em mente. Porém preferiu optar pelo aviso amigável dessa vez, uma fuga perfeita.
— Sim, você está certa. Obrigada por sua preocupação com a Irmãzona, eu já estava achando que vocês não se davam bem. — Sophia suspirou aliviada.
— Não foi nada... — A outra menina suspirou ainda mais aliviada. Novamente tinham se entendido, mas dessa vez usando muitas palavras.
— Como eu estava dizendo... — Exclamou a Irmãzona, que, na verdade, não estava dizendo nada. — Eu não sei de quase nada, só aprendi algumas coisas durante minha ainda não tão longa vida.
— Com livros?
— Se não puder ser o remédio, seja o veneno. Caso contrário, será apenas água. — Foi a primeira vez que essa frase se repetiu em todo esse texto, e isso ainda aconteceria uma vez mais, poderia ser considerado um bordão?
— Eu pensei ter entendido da primeira vez, contudo, temo ter me equivocado. — Explicou Sophia. — O que isso tem a ver com livros?
— É preciso mudar o mundo, deixar sua marca. Quem está sempre em movimento não tem muito tempo para livros.
— Então você aprendeu com seus amigos de viagem?
— HAHAHA-HAHAHAHAHAH... HAHA... Ha. — A aprendiz de bruxa gargalhou muito alto e num ritmo estranho, soava como o primeiro ensaio de uma peça da sua escola, onde todos leem o roteiro, mas um de seus colegas parece especialmente desinteressado, então pronúncia as palavras como se hou-ve-ssem tra-ços en-tre e-las, e, no final, todos recebem uma bronca por "não estar levando o trabalho a sério", então você percebe como gostava mais da sua antiga professora, que dava doces e que se mudou para o polo norte com o objetivo de ensinar a língua de sinais para os pinguins, possibilitando que os pinguins de penas pretas e bicos amarelos (as patas também) pudessem finalmente conversar com os pinguins de penas vermelhas e patas amarelas (os bicos também), acabando de vez com a guerra dos 2007 anos (4 anos e meio para humanos, supondo que você seja um).
— Hm... — Sophia ponderou se deveria mesmo fazer a pergunta na ponta de sua língua, tinha medo de soar grosseira e invasiva, ou pior, entrar em um assunto que a deixasse "especialmente determinada em defender seu ponto", como Sombria tinha feito com ela. Mesmo assim, para quebrar o silêncio que se seguiu, perguntou. — Qual a graça?
— Eu não tenho nenhum amigo. Não preciso deles. — Deu de ombros.
— Fracassada... — Sombria murmurou para que ninguém escutasse.
— Nenhum? E a sua professora de magia?
— Magia ou matemática, professores são agentes da opressão.
— Eu não acho que isso seja verdade...
— Você é do tipo "Oh capitão, meu capitão"?
— O que isso significa?
— Filmes são mais fáceis de deglutir do que livros.
— Podemos voltar para o ponto principal? — Sophia insistiu, apertando os olhos.
— O que você quer saber?
— Por que você não tem nenhum amigo? O futuro deveria ser repleto deles! — Era, supostamente, a menor entre as três, porém estava mais indignada do que as outras duas jamais poderiam ficar, mesmo somadas.
Nesse momento aconteceu um fenômeno conhecido como "scenthiência", que se trata daquelas situações em que a conversa ainda não está finalizada, mas todos os participantes estão trocando olhares em silêncio, de forma muito desconfortável.
Talvez você diga: "Eu tenho certeza de que essa palavra não existe." Nesse caso, eu te diria: "Por favor, pare de interromper."
— Qualquer pessoa que não aceite meu estilo de vida e minhas opiniões não serve para estar ao meu lado. — Exclamou a Irmãzona, livrando-se da scenthiência. — Eu sei me cuidar sozinha. Na verdade, fico até melhor assim. — Prosseguiu. — As pessoas machucam umas as outras. Traem, mentem, abandonam, encontram novas namoradas em menos de dois meses.
Um novo ciclo de scenthiência começou, e, pelo tempo que se suspendeu, Sophia refletiu.
"A Irmãzona é uma bruxa, mesmo que em treinamento, ela também diz coisas legais que soam muito inteligentes, mesmo quando não fazem total sentido. Ela é imponente e livre." Nesse momento, um pequeno pônei se desenhou em sua mente, ele tinha pelos castanhos e uma cauda escura. O que fazia ao perseguir uma borboleta enquanto montado por uma princesa gnomo (gnomos tem o tamanho ideal para pôneis) é algo que Sophia não gostaria que falássemos sobre, pois logo afastou esse pensamento. Por vezes nos distraímos com pensamentos desnecessários e distantes, não importa se estamos ponderando questões difíceis ou lendo um longo parágrafo de uma história, esse tipo de coisa acontece. "Eu gostaria de ser como ela." Concluiu.
Observou a mulher cautelosamente, seu cabelo violeta era, de longe, sua característica mais chamativa. Algumas pessoas diriam ser estranho, mas, para Sophia, era muito estiloso. O grande chapéu de bruxa evocava sentimentos semelhantes, porém, possuía ainda mais imponência. Se o cabelo demonstrava liberdade e confiança, o enorme chapéu (havia aumentado de tamanho ou alguém estava causando confusão apenas para evitar a repetição de adjetivos?) era a demonstração de que ali existia força para tal. Além disso, a bruxa, segundo os estudiosos, é um símbolo do feminino. Com isso em mente, fazia sentido observar a forma como as roupas da Irmãzona ressaltavam sua silhueta e expunham consideravelmente sua pele; não que essas fossem características femininas, porém evidenciavam as características verdadeiramente femininas do conjunto. Apesar disso, havia o par de botas masculinas; uma parte pequena, mas existente ali. Forças opostas que se completavam e coexistiam. Sophia se lembrou que também tinha pequenas características masculinas: Quando ninguém estava olhando, cutucava o nariz, e também, preferia os livros de cavalaria aos de romance.
"A Irmãzona diz que não tem nenhum amigo, que está melhor assim, além do mais, não está disposta a mudar isso." Tentou buscar alguma resposta no olhar de Sombria, como em outrora. Essa, porém, parecia distraída com a poltrona anterior, a da Sophia-Que-Não-Lia-Mais. Pobre Sophia...
"Ela parece ter passado por uma grande decepção, da qual não consegue se curar. Eu, contudo, continuo disposta a fazer novas amizades mesmo depois que outras crianças roubam meu caderno e arrancam suas folhas, até quando me chamam de 'Sopinha Bobinha' e me fazem chorar." Teve vontade de chorar só de lembrar. "Não quero ser como a Irmãzona."
— Irm- — Sophia iria dizer algo, nem ela sabia o quê, porém foi interrompida quando a mulher se levantou e declarou.
— Você é quem escreve seu próprio futuro.
"Ela é muito maneira." Pensou.
Irmãzona Sophia amarrou uma pequena pulseira de artesanato no pulso direito de Sophia, não era de confecção muito boa, e tinha uma pequena pedra da lua e uma única pena branca com a ponta preta amarradas. A garota tentou questionar o motivo, e a resposta foi algo como "você vai saber logo", o que em circunstâncias normais não seria uma resposta satisfatória, porém, se tratava do presente de uma bruxa quase formada e tinha uma aparência xamânica; supondo se tratar de magia, fazia total sentido uma resposta evasiva, para que não se revelassem os segredos do oculto. Assim se despediram e as duas meninas seguiram seu caminho até a próxima, e última, poltrona.
A viagem dessa vez parecia mais longa, provavelmente porque a diferença de idade aparente entre Irmãzona Sophia e Sophia Ideal era a maior até agora, praticamente o dobro das anteriores para ser mais exato sem ser exatamente exato.
Cada pessoa tem um jeito de enfrentar longas viagens. Talvez você seja o tipo de pessoa que escuta música confortavelmente, talvez seja o tipo que lê um bom livro, o que seria muito difícil de fazer caminhando, ou, quem sabe, faça diversas afirmações que você "COM CERTEZA" diz serem verídicas, como já demonstrou gostar de fazer. Sophia e Sombria, porém, não sabiam nem mesmo assoviar, não podiam ler enquanto caminhavam e se tinham uma certeza, era a de que não tinham certeza alguma. Mesmo assim, ainda existia algo que podia ser feito. Assim como a sua tia diabética que nunca te visita, mas que você acabou sentando perto durante uma viagem de família, e então ela passa todas as 8 horas falando sobre os feitos não tão impressionantes da filha dela enquanto devora um doce que com certeza não deveria estar comendo, elas podiam conversar.
— O que achou da Irmãzona? — A de laço começou. Tinha mais em comum com uma tia distante, Sombria estava mais para uma sobrinha rebelde, uma causa perdida, a decepção da família.
— Eu ouvi isso! — Apertou o punho com raiva, não, com ódio.
— Ele só está brincando. — Sophia riu, o riso de um anjo educado e devidamente comportado que não tinha a boca suja.
— Eu vou te mostrar o que é sujo... — Não existiam palavras em nossa língua que pudessem expressar o impulso de violência que Sombria sentia neste momento.
— Melhor pararmos com essa brincadeira... — Era um bom conselho.
— De qualquer forma. — A garota com um belo par de brincos respirou fundo para aplacar sua fúria. — Ela era estranha, mas um pouco admirável.
— Admirável?
— Você não achou?
— Não foi isso o que eu quis dizer... Eu só quero saber o que você pensa.
— Eu admiro que ela consiga viver completamente sozinha, porém, não acho que o faça pelos motivos corretos. Parecia só uma bebezona fazendo birra. — Deu de ombros.
— Entendo... — Assentiu sem realmente entender. — Então você acha que viver completamente sozinha é algo bom?
— Não acho nada. Contudo, eu sei que COM CERTEZA... — Parecia um certo alguém falando. — Não se deve depender dos outros.
— Qual o problema em depender dos outros?
— Te torna fraco. Você quer ser fraca?
— Acho que não...
— Você COM CERTEZA não quer.
Sophia.
— Sim?
— Sim?
Disseram ao mesmo tempo.
A de laço.
— Sim? — Repetiu, dessa vez sem eco.
— Vai ficar com essa é? — Sombria franziu o cenho, que significa o espaço entre as sobrancelhas.
Não se esqueça que essa é a sua história.
— Certo...
A jornada continuou, afinal, como foi dito anteriormente, era um longo caminho. Havia tempo para mais uma conversa.
Você percebeu algo fora do lugar?
— Fora do lugar? — Sophia questionou.
Alguma coisa de errado com essa história.
— Muitas coisas parecem incertas, mas erradas? Eu acho que não.
Você gosta de histórias de detetive?
— Sim, eu adoro.
A maioria dos livros de investigação segue uma estrutura um pouco parecida. Existem livros de mistério onde é impossível desvendar a verdade simplesmente porque a resposta não estava presente em momento nenhum do texto. Os bons livros de mistério, porém, permitem que o leitor participe da história, descobrindo a verdade por conta própria antes da grande revelação.
— Isso faz total sentido! — Juntou as mãos e sorriu, um pouco nostálgica. — As melhores histórias de detetive são aquelas que nos fazem pensar "estava na minha frente o tempo todo! Como eu pude não perceber?"
Se pensarmos bem, essa história é uma investigação sobre o tempo.
— De modo geral, pode se dizer que sim. — Concordou balançando a cabeça. — Mas o que isso quer dizer?
Que talvez você queira tirar um tempo para pensar.
Essa é uma história um tanto complexa, que exige muita concentração. Com isso em mente, você está lendo confortavelmente na sua casa. Você está deitado, e então respira fundo e toma um pouco de ar antes de se levantar, pois isso requer esforço.
Você caminha até a cozinha e serve um copo de água, então bebe tudo em 3 grandes goles.
Está tudo bem em quebrar os parágrafos e respirar com calma.
Você respira fundo.
Você relembra os acontecimentos da história até agora e os enumera, chega num resultado igual a 6x5.
Pondera qual personagem é a sua favorita e quais os motivos para isso.
A resposta é óbvia "a Sophia de agora". Foi com ela que passou mais tempo, e não tem nada de errado nisso, afinal, de certa forma, todas são a mesma pessoa.
Você retorna para o lugar onde estava e se deita novamente.
Era óbvio, essa história é tão simples.
Você já sabe o final da história, contudo, decide continuar lendo em busca da onda de satisfação que se projetará sobre seu corpo quando a leitura comprovar sua teoria tão exata, e também porquê você não gosta de deixar as coisas pela metade.
Respirando fundo mais uma vez, você prossegue na leitura.
— Sinto que algo anormal aconteceu. — Disse Sophia.
— O que você esperava mexendo com o tempo? — Sombria fez outra pergunta retórica, dominava essa arte.
— Tem razão... Só que foi estranho. Como uma parede sendo quebrada. — Explicou.
— Com uma metáfora dessas, a estranha é você.
Sophia apenas abaixou a cabeça e ficou em silêncio. Ao sentirmos dor podemos gritar; se sentimos tristeza podemos chorar; quando sentimos raiva podemos quebrar objetos sem muito valor, tomando cuidado para não nos machucarmos. A incompreensão, porém, não é tão simples de lidar. Incompreensão, por definição, é quando alguém se demonstra incapaz de entender o que você gostaria de expressar, e, ao mesmo tempo, você não consegue descrever de forma satisfatória e explicativa. Não havia nada a fazer, insistir só causaria mais discórdia. Uma vez que a incompreensão se faz presente, só resta o silêncio.
No momento em que Sophia decidiu se calar, faltava menos de 1/4 do caminho. Contudo, esse percurso pareceu o mais longo de toda a viagem. Uma semelhança entre todas as viagens, sejam elas curtas, longas, animadas ou silenciosas, é que todas elas têm um fim. Dessa forma, logo as meninas chegaram.
A poltrona da Sophia mais velha, a Sophia Ideal, a quinta poltrona da esquerda para a direita, primeira poltrona da direita para a esquerda, era, de certa forma, a mais decepcionante. Sua estrutura era como a das outras, porém não existiam entalhes, arabescos, uma história de terror por trás, ou espinhos, se tratava apenas de uma poltrona comum, de um azul-marinho que lembrava uma gravata.
— Vocês têm hora marcada etc? — Quando Ideal retirou uma agenda da bolsa e começou a verificar as anotações a cadeira se moveu alguns centímetros na direção das duas. Sombria foi perspicaz em notar, e apontou para Sophia: o assento tinha rodinhas para que a pessoa que estivesse sobre ele pudesse ir o tempo todo de um lado para o outro dentro uma sala cheia de artigos de papelaria.
— Nós não temos. — Respondeu Sophia, meio desconcertada, sequer tinha visto qualquer relógio desde que a biblioteca se transformou na aparentemente infinita sala do tempo. O tempo provavelmente não estava funcionando a partir de cronos, e sim de kairós; o que significa que os acontecimentos da história eram mais importantes do que sua duração ou o quão rápido você lê uma página.
— Nem tínhamos como saber disso. — Reclamou Sombria, dessa vez com total razão.
— Desculpem. Eu abri uma exceção porque a criança... Uma de vocês crianças, parecia perdida. — Pigarreou. — Agora, porém, só atendo com hora marcada etc.
— Acho que a Irmãzona não era tão ruim assim... — Sombria murmurou, novamente tinha razão.
— Podemos marcar um horário então? — Sophia estava empenhada em propor uma solução.
— Claro, para quando?
— Agora...? — Definitivamente era mais uma pergunta do que uma resposta.
— Hm... — Analisou minuciosamente a agenda. — Claro, tenho um horário para exatamente agora, nesse segundo, no presente momento etc.
Sophia sorriu satisfeita.
— Existe presente aqui se o futuro e o passado estão no mesmo lugar? — A pergunta de Sombria era muito perspicaz, contudo, para respondê-la seria necessária uma explicação físico-quântica grande o suficiente para preencher outro livro com o dobro de páginas desse. Por isso, para esconder a incapacidade de realizar um feito tão complicado, todos fingiram não escutar, o que era menos constrangedor do que admitir que não sabiam.
— Olá Sophia Ideal. Eu sou a Sophia e essa é a Sophia Sombria. — Segurou a barra do vestido e fez uma mesura.
— É um prazer. — Retirou da bolsa e entregou para as duas um cartão retangular de papel completamente branco com letras pretas no centro, elas diziam "Sophia Ideal" e logo abaixo, com letras menores "Sua melhor versão". — Sou a Sophia Ideal etc.
— Melhor versão de quem? — Questionou Sombria.
— Bem, querida Sophia-Incompleta... — Disse colocando a mão no ombro de Sophia, que tinha certeza absoluta de que não havia nenhuma parte faltando no seu corpo. — Você conheceu sua outra versão do futuro, e pôde ver com seus próprios olhinhos, um fracasso completo e total etc. — Tal ofensa deixou a menina irritada como só questões autorais poderiam deixar, contudo, a naturalidade com que a mulher diminua outras pessoas era tamanha, ao ponto que as palavras simplesmente não vieram. — Eu, SUA versão I-D-E-A-L, vou guiá-la pelo caminho correto, para que você se torne alguém exatamente como eu. Uma pessoa séria, rígida e verdadeiramente capaz, uma mulher de negócios ocupada e com muito dinheiro etc.
— Er... Não sei não... — A resposta quase não saiu.
— Que tal conversarmos um pouco mais antes de qualquer coisa? — Sombria arqueou as sobrancelhas, o que significa que levantou a direita enquanto abaixava a esquerda.
— Claro, imagino que você, Senhorita Incompleta, tenha dúvidas etc. — Mesmo com um grande laço, característica típica de uma protagonista, Sophia sentiu que estava se tornando um personagem secundário.
— Certo... Perguntas... — Normalmente teria várias, porém, mesmo sua natureza curiosa estava sendo suprimida (ou seria oprimida?). — Você tem muitos amigos?
— Acho que existem assuntos mais importantes. — A garota com os belos brincos verdes queria gritar de frustração.
— Amigos? Oh, claro. Pessoas com quem você passa tempo, conversa, saí etc. — Cruzou os braços acima do abdômen, era o que fazia quando pensava. Colocar o dedo no queixo era considerado uma coisa sem classe. — Nenhum. Esse tipo de relações, não contratuais e que não geram nenhum lucro, são uma perca insopitável de tempo e dinheiro.
— O que você faz para se divertir ou passar o tempo? — Sombria indagou.
— Se divertir ou passar o tempo? — Foi a primeira vez que a mais velha não a ignorou durante toda a conversa. — Nem mesmo diga essas palavras fúteis. Trabalho é o mais importante, trabalho e dinheiro.
— Isso não me parece certo... — Os ombros de Sophia estavam encolhidos e sua cabeça abaixada.
— Certo? — Sophia Ideal deu uma risada amarga. — Não existe nada mais certo do que isso. Os adultos sabem das coisas, e quando eles dizem que você deve levantar e fazer dinheiro, eles têm razão.
— Eles... — Suspirou, fazendo o laço murchar como uma flor.
— Faz anos que não falo com minha mãe... Nossa. Nossa mãe. Temos a mesma mãe afinal. Por isso você deve saber, o que ela sempre diz, o que idealiza para você.
— Que devo ser bem-sucedida... Ou ficar rica...
— Exatamente. — Continuou. — Para os adultos, felicidade ou amizade são coisas sem importância. E não tem nada tão ideal quanto corresponder as expectativas. Sim. Ideal. No sentido mais claro da palavra.
— Isso... — Sophia não sabia o que dizer. Sua mãe provavelmente estaria orgulhosa do trabalho tão bem pago da mulher ideal.
Nem mesmo Sombria, sempre tão cheia de animosidade, tinha algo a dizer.
— Você ainda está incompleta, mas não se preocupe, logo vai ser exatamente como eu. Vamos começar estudando matemática, é vital para contabilizar o dinheiro. — O sorriso antes gentil e caloroso agora parecia assustador e fazia gelar a espinha, causando arrepios.
Algo dentro de Sophia acendeu, como um círculo mágico corretamente executado, tomado de brilho incandescente quando a realidade se distorce em fantasia.
O bracelete, presente da Irmãzona, vibrou.
Uma magia simples, tão simples que poderia ser realizada por qualquer um. Magia que mesmo alguém sem formação ou capacidades magicas latentes possuiria uma centelha dentro de si; a Rebeldia.
— Não é isso o que EU quero. — Quando Sophia proferiu essas palavras, como quem recita um antigo texto secreto há muito perdido, como quem profetiza em enoquiano, as folhas da agenda de Sophia Ideal começaram a, lentamente, se desfazer em poeira prateada.
— Mas... — Engoliu em seco, enquanto tentava prender de volta ao encadernado os micro fragmentos que flutuavam. — E quanto aos planos que fizeram para nós? Você poderia ser ideal!
Tudo estava tomado pelo brilho pálido dos pequenos fragmentos que flutuavam como estrelas ao alcance das mãos.
A expressão de Sophia Ideal (ideal de quem?) era uma mistura de medo e raiva profundos. Imagine a sensação de dedicar toda sua vida a uma única causa e ainda ser obrigada a ouvir que tudo o que você teve que passar não significou nada, ainda por cima da boca de uma criança. É verdade contudo que Sophia não era apenas uma criança; era princesa, companheira de viagem, rebelde sem causa e contadora; era alguém que se perdeu, mas também alguém que percorreu todo o caminho; leitora, irônica, solitária, aprendiz de bruxa e trabalhadora frustrada; tudo isso e muito, muito mais, e, principalmente, era escritora da própria história.
— Essa é minha história. — Sorriu e estendeu a mão para a mulher. — Me desculpe por passar tanto tempo seguindo os ideais dos outros. Todo o seu esforço não foi em vão.
— Então de que serve tudo isso? — A mais velha gritou enquanto uma torrente de lágrimas escorria por suas bochechas.
— Você não vê? — Indagou determinada. — Os desejos de outras pessoas não trouxeram satisfação alguma, não irão trazer.
— Esse não era o NOSSO ideal?
Sophia suspirou profundamente e depois sorriu. As vezes o óbvio exige coragem para ser dito.
— Nunca foi.
Sombria, que estava apenas ouvindo, cruzou os braços e balançou a cabeça com um sorriso.
— O que acontece agora...? — A mulher com a bolsa lentamente levantou a mão destra, para apertar a de Sophia.
— Não tem como saber. Não dá para prever o futuro.
— Eu não quero... Ficar só... — A mão lentamente se afastou.
Foi como se tudo congelasse por um segundo, tempo e espaço completamente frios e estáticos.
— Nós não vamos ficar sozinhas. — Dando um passo à frente, Sophia segurou tanto a mão quanto o braço da outra. — Eu prometo.
O futuro se desfez, não, se transformou, na frente das duas meninas. O bracelete da rebeldia, junto com Sophia "Ideal", sua bolsa e sua poltrona-de-escritório desapareceram em poeira prateada, abrindo caminho para um novo futuro, um caminho que levava de volta para a biblioteca e para a boa e velha poltrona vermelha de Sophia, pois o futuro começa no agora.
Sophia e Sombria se entreolharam, e, num olhar, se entenderam. Então caminharam juntas para o que se pode chamar de final da história.
Ao chegarem na biblioteca algo parecia errado, era a mesma biblioteca, mas estava suja e deteriorada. As paredes e o teto tinham buracos, rachaduras e infiltrações, a camada de poeira no chão era tão grossa e grudenta que poderia ser considerada um segundo piso, posto sobre o antigo numa reforma bizarra. Os livros e a poltrona, porém, pareciam perfeitamente limpos, na verdade, mais limpos do que realmente estavam quando essa aventura começou, alguém teria que ativamente ter realizado uma limpeza meticulosa e recente nas prateleiras para que estivessem naquele estado.
— Como é que você diz? "A jornada te transformou"? — Indagou Sombria com ironia.
Sophia pensou um pouco antes de responder. Onde a outra queria chegar?
— Quando sair da tempestade, não será o mesmo que entrou. — Recitou como a uma poesia.
— Você vai começar a usar essas frases de efeito? — Deu de ombros. — Cuidado com os direitos autorais.
Ajeitando o laço, a menina colocou a língua para fora, numa espécie de comemoração pelo impacto de sua fala.
— Vai dizer que não aprendeu nada? — Provocou.
— Que rebeldia e caos resolvem qualquer problema.
— Não diga coisas que podem culminar numa guerra civil!
— Como era o bordão dela?
— "Se não puder ser o remédio, seja o veneno; caso contrário, será apenas água." — Sophia dobrou o dedo e colocou sobre o queixo, tomando cuidado para não esquecer nem mesmo uma vírgula.
— Se não puder ser água, seja o veneno. Apenas não seja, em hipótese nenhuma, o remédio. — Os brincos balançaram quando acenou a cabeça, afirmando sua versão.
— Isso está completamente distorcido! — Gritou Sophia.
— Está? — Sombria riu sem disfarçar.
— Claro que está! Mas... — Colocou as duas mãos na cabeça, numa expressão de horror e desespero. — Talvez alguém realmente tenha entendido completamente errado o sentido dessa jornada. E se, em algum lugar, uma pessoa pensar que se revoltar contra toda e qualquer ordem é a mensagem dessa história? E se, por causa disso eu me tornar responsável pelo fim de um relacionamento, ou de vários relacionamentos, ou, talvez, pelo início da próxima grande guerra mundial?
— Isso faria de você, de nós, pessoas importantes.
— Se esse for o preço, eu prefiro cair no esquecimento...
Sophia suspirou, a garota com belos brincos apenas riu.
Iniciaram uma investigação na sala. Era exatamente como a biblioteca de casa, exceto que tudo estava decadente, tudo exceto os livros e a poltrona, que pareciam em estado mais que perfeito, como o pretérito.
Enquanto ajeitava seu laço, Sophia analisava a poltrona, e, brincando com seus brincos nas pontas dos dedos, Sombria observava uma das prateleiras de livros.
Porém...
Essa história não havia acabado?
Por que continuava a se estender como se ainda houvesse um mistério a ser resolvido?
Ou melhor.
Qual era o mistério dessa sala.
O mistério NESSA sala.
As duas meninas sequer chegaram a trocar olhares dessa vez, compreenderam tudo de imediato.
Uma delas, porém, era mais rápida, talvez mais esperta, eu, particularmente, diria maliciosa.
Sombria empurrou Sophia contra a poltrona. Quando a menina com o laço caiu sobre o estofado, tentou se virar, e, antes que se levantasse, a garota com belos brincos verdes saltou sobre ela, prendendo suas pernas entre os joelhos e mantendo suas mãos acima da cabeça ao segurar os pulsos com força suficiente para deixar marcas; fazendo com que permanecesse sentada.
— Então é assim que acaba... — Sombria olhava de cima, com certo desprezo.
— Não precisa ser assim. — Sophia tentou inutilmente se libertar. Por vezes, o peso das escolhas que deixamos para trás é muito maior do que podemos lidar.
"Passado?" Você deve estar se perguntando.
— Esse lugar. Você vê, não vê? — A menina, mesmo forte o suficiente para prender a outra, tremia em desespero, frente as próprias indagações. — É uma superposição.
"O que é uma superposição?" E "Por que eu faço tantas perguntas?" Provavelmente são questionamentos que estão passando pela sua mente nesse momento. De forma simples, uma superposição se trata do momento em que algo é e não é ao mesmo tempo. Uma situação em que diferentes realidades e respostas se sobrepõe. Por exemplo, se você colocar um gato numa caixa fechada, e junto a ele um pouco de veneno, não tem como saber se após 5 minutos ele está vivo ou não, exceto ao abrir a caixa. Durante o espaço de tempo em que a caixa não foi aberta, o gato está vivo e está morto ao mesmo tempo, pois as duas coisas são verdade e também são mentira. Essa explicação complexa e aparentemente sem muito sentido talvez seja entediante para você, ou, pelo contrário, pode ser instigante. Se você está compenetrado e vai continuar essa história até o fim, ou se vai abandoná-la aqui e agora, esquecendo desses personagens em 3 dias, ou quem sabe até menos, são afirmações falsas e verdadeiras ao mesmo tempo. Até que você de fato faça uma dessas coisas.
Se aceita uma recomendação, pare por aqui.
Se você é do tipo que só obedece a ordens, pare por aqui.
Essa, provavelmente, não é a primeira aventura de Sophia que você presencia. Vivenciar os medos e as memórias de alguém são experiências agridoces, mas, que definitivamente nos aproximam. Ouvir Sophia falar e rir, ver Sophia caminhar e escrever, são coisas que constroem e moldam uma imagem um tanto sólida e clara de alguém.
Talvez você tenha desenhado na sua mente uma Sophia miúda e bem-educada; imagem fofa, que não está errada.
Ou, quem sabe, o esboço na sua cabeça seja de uma Sophia esperta e determinada; uma imagem bela, e que também não é uma mentira.
Seria a Sophia rabiscada no seu cérebro um tanto frágil e sensível? Isso também não seria um equívoco.
Contudo, não é simples conhecer a si mesmo, por isso, não é simples conhecer completamente os outros.
Se você preza pela Sophia que você CONHECE, a Sophia pintada em sua mente, que quando um problema aparece já é possível saber que irá assentir mesmo sem realmente entender, então ignore qualquer superposição e pare imediatamente de ler. Procure outra história, uma com uma protagonista verdadeiramente perfeita e um narrador verdadeiramente confiável. Existem muitos livros por aí que não irão te decepcionar, nesse sentido.
Se pretende continuar, então é melhor que tenha um pouco de gentileza, consigo mesmo e com os outros.
— É preciso escolher como viver, não é? — Sophia suspirou.
— Sim... É preciso.
— E aceitar a verdade.
— Aceitar.
— É simples.
— Simples? — Sombria franziu as sobrancelhas e rangeu os dentes, com raiva de uma resposta tão frívola.
— Sim, é simples. — A menina com o laço forçou os braços para se soltar, as mãos da outra pareceram ceder lentamente. — Você é uma sombra.
— Mesmo assim eu quero viver, ser quem eu sou. Quem nós somos. — A menina com os brincos pressionou Sophia contra a poltrona novamente, colocando mais força, mais violência, como um animal selvagem.
— Quem nós somos... Como eu pude não perceber antes. — Sophia riu, um riso amargo e irônico, o que não era habitual. — Sua poltrona vinha antes da de Pobre Sophia, e ela tinha a mesma idade que eu. Isso não foi por acaso, você é uma Sophia do passado. — Com esforço, voltou a empurrar Sombria. — Não é mais velha que eu, nem mesmo um dia. E, também, sequer poderia ser chamada de mais nova. A diferença entre nós é de apenas alguns segundos. Você é cada decisão abandonada, cada impulso reprimido, é a Sophia que existe dentro de mim, mas que eu escolho não ser, por isso não se importou em mentir sobre sua idade. Uma sombra da minha alma. — Por um momento o aperto parou, porém em seguida foi empurrada com brutalidade e tossiu quando as costas bateram contra o estofado.
— Idai? Ein? — Já não havia mais espuma para ser amassada, Sophia já podia sentir a estrutura de madeira do assento contra si. Mesmo assim, Sombria continuava a empurra-la desesperadamente. — Posso ser uma sombra, mas não quero desaparecer! Se você não quer ser quem você realmente é por dentro, então eu farei essa escolha. Vou arrancar essa máscara!
— Sombria... — Sophia sorriu, um sorriso fraco de quem estava um pouco dolorida.
— O QUE? — Gritou.
— Você não entendeu nada... — Então a dor parou, Sombria parou.
— O que eu não entendi?
— Eu não fui legal com a Soso porque estava fingindo ser alguém que não sou; não aceitei sua companhia por vergonha de negar; não elogiei a Irmãzona para disfarçar seus defeitos e nem fiz uma promessa para a Sophia Ideal sem intenção de cumpri-la.
— Então por quê? Eram todos fracassos. Falhas sem salvação.
— Talvez elas fossem..., mas se aceitei todas, é por quê são parte de mim, fracassando ou não. Se escolhi ser gentil com todo mundo, isso não é uma mentira. Também é parte de mim, e, mesmo que eu escolha não agir de acordo com esses impulsos... Você, Sombria, também é parte de mim.
Os braços de Sophia envolveram o corpo da menina. Por um momento pareceu que iriam atravessar, como acontece quando se tenta tocar uma sombra, mas, agarraram firmemente, era como tocar o próprio rosto em frente a um espelho.
— Uma parte que você odeia...
— Apesar disso, apesar de tudo, ainda sou eu.
Então tudo o que havia era poeira prateada. Sombria não estava mais ali, seus brincos foram a última coisa a se desfazer no ar.
"O que acontece agora?" Você deve estar questionando.
— Estou cansada... Tirarei uma soneca. — Sophia respondeu e bocejou, cobrindo a boca com a mão, como se deve fazer sempre.
Sentou-se de lado, com os dois pés em cima da poltrona e usando as mãos como travesseiro sob as bochechas. Estava encolhida, lembrava um gato dormindo, até o abdômen e o peito subiam e desciam como se fosse um.
Sophia demoraria algumas horas para acordar, e, quando abrisse os olhos, veria a sua biblioteca, a biblioteca de agora, cujo os livros não foram perfeitamente limpos e as paredes ainda estavam em bom estado.
Se faria uma limpeza minuciosa, se deixaria a biblioteca sem cuidados até um ponto crítico, ou mesmo se faria outra coisa totalmente diferente, era uma escolha que poderia ser feita com calma, no seu próprio tempo.
O futuro pode esperar um pequeno cochilo.
Fim

VERY GOOD CONGRATULATIONS
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