A Carne Que Habito - Capítulo 1: Pd4
Pd4
A figura pálida me acompanhava desde muito antes do nosso fatídico encontro, eu sabia. Quando finalmente apareceu em minha frente senti uma nostalgia infundada, como num reencontro parental, meus olhos marejaram, pois tinha certeza que a conhecia.
Aconteceu enquanto eu caminhava pela orla de um pequeno, porém longo, riacho cercado de altos pinheiros que perfuravam o céu e interrompiam a passagem de uma parte dos raios de sol, formando imagens indescritíveis com as sombras que se projetavam sobre o solo úmido. O encontro só ocorreu pois sobrevivi a batalha na planície de Durthenhein, ao massacre que ela se tornou.
Há 7 meses e meio eu servia a Ordem Da Bromélia, um bando de imprestáveis esnobes, filhos de nobres, que não foram capazes de demonstrar as devidas aptidões de esgrima, inteligência ou nobreza para serem aceitos numa ordem de verdade. Da minha parte, acredite, os motivos eram outros; 4 anos atrás fui finalmente deserdado pelo senhor meu pai, após escolher me dedicar aos estudos religiosos e anunciar minha ida para um mosteiro. Naquela época já podia ver o vulto branco pelos corredores. O senhor meu pai era vindo das terras do norte, educado segundo os pagãos, a senhora minha mãe, porém, nasceu numa casa celestina, e mesmo tendo se convertido aos deuses do norte após o casamento, nunca deixou de me contar as histórias que conhecia sobre o violento, vingativo e ao mesmo tempo benevolente, Celeste, que, segundo os celestinos é o único e verdadeiro deus. Tais histórias penetraram meu imaginário e, com o tempo, infestaram toda minha mente. Os deuses nortenhos evocavam tempestades e transformavam água em vinho; Celeste esculpia montanhas e dava vida às florestas. O senhor meu pai sentiu-se profundamente ofendido com minha decisão, considerando uma afronta. Então, diante de seus amados súditos e de seus adorados deuses pagãos, anunciou a morte de seu filho. Desta forma meus privilégios como segundo herdeiro de uma casa nobre com relativa importância no norte desapareceram num piscar de olhos. Decidido, parti para o leste, carregando apenas uma trouxa com um pedaço de queijo, dois pães, uma linguiça e um pequeno colar de rubi que minha irmã entregou-me escondida, como lembrança dela, de minha mãe e meu irmão mais velho. O que meu pai não sabia era que meu objetivo não se tratava apenas da teologia, mas sim da teurgia.
Minha alma necessitava saciar a sede de conhecimento que parasitava todo o meu corpo, para isso, mais do que entender Celeste, precisava conhecê-lo, encarar de frente o próprio deus, nem que isso custasse a invocação de todos os seus anjos e demônios pelo caminho.
Fui aceito como monge no mosteiro de Saint Brígida, um lugar pouco confortável, de regulamentos rígidos, como esperado. Desde minha entrada em Saint Brígida até minha saída de lá passaram-se três anos e meio, tempo em que dediquei todos os meus dias a leitura das escrituras do Grande Livro e fiz algumas dezenas de cópias de suas páginas e dos ensaios de pensadores passados e contemporâneos, alguns com idéias ousadas, a maioria maçantes. Havia me tornado subprior alguns meses antes de monsieur, o abade, me expulsar. Fazia exatamente uma semana que ele havia descoberto a natureza de meus estudos teurgicos e de minhas recentes tentativas falhas de convocar demônios às escondidas. Mesmo sem nenhum resultado, tais práticas “heréticas” me condenaram a receber diariamente 3 chibatadas pela manhã, 6 pela tarde e 9 ao cair da noite. O que culminou em minha expulsão definitiva, porém, foi a descoberta de meu “relacionamento depravado e demoníaco” com um jovem monge chamado Lúcio. Nossa amizade de natureza profundamente sexual tornou-se um escândalo que culminou na condenação de Lúcio à forca; fim que a fraca influência do nome de minha antiga família me livrou, restando ao monsieur ordenar-me o ostracismo, a sombra pálida novamente me rondava.
Parti de Saint Brígida, e mesmo que o escândalo não tivesse se alastrado, boatos de um jovem envolvido em rituais hereges dentro do mosteiro atravessavam o continente amarrados as patas de pombos-correio que voavam como andorinhas. Pensei em mentir, ao menos omitir, contudo, minha aparência era indiscutivelmente a de um monge perdido; cabelos raspados, vestes de estopa e dedos marcados por horas de escrita.
Sem opção, tentei adentrar uma ordem de cavaleiros, e é tão claro quanto o dia que somente uma ordem sem nenhum critério e com membros igualmente iletrados em esgrima me aceitaria, essa era a Ordem Da Bromélia.
Por sete meses me dediquei à arte da espada, evidenciando minha falta de predisposição para tal. Buscando evadir-me de problemas, me contive e não pratiquei nenhum dos ritos teurgicos nos primeiros 6 meses, contentando-se com um ou outro livro de aparência dúbia. No último mês, porém, senti-me seguro o suficiente para dobrar meus colegas e voltei a praticar, moderadamente, a invocação de demônios. Infelizmente, logo fomos convocados a auxiliar na guerra que estava em curso.
A “guerra” nada mais era do que uma estúpida briga por território entre dois grandes nobres que dominavam províncias próximas, ao sudoeste da Lethormandia. Quando o rei negou-se a dar uma solução, e permitiu que resolvessem a disputa entre si, travar uma guerra deixou de tratar-se apenas de expansão territorial, tornou-se uma imprescindível demonstração de força e honra.
A Ordem Da Bromélia adentrou a disputa próxima ao fim. Após alguns embates, ambos os governantes perceberam o quão custosa era uma guerra, seja em homens ou em prata. Decidindo por fim travar uma última batalha sobre a planície de Durthenhein, um enorme campo aberto e verdejante, salpicado de margaridas e dentes-de-leão que balançavam com o vento.
Serviamos então ao ostensivamente gordo e gorduroso Don Douruant IX, um velho soberba que falava com a boca cheia e exigia que fossem tocadas músicas típicas dos bordeis em sua côrte. Entendia profundamente sobre vinhos e razoavelmente sobre caça, sobre batalhas, porém, ridicularia.
Marchamos até a planície ao meio-dia, em conjunto com um pequeno exército de 150 homens, sendo dezessete da Ordem Da Bromélia e vinte e seis pertencentes à Ordem Do Faisão Laranja, o restante era composto por soldados comuns.
Quando vi o exército inimigo lembrei-me de um sonho que tive na noite anterior a batalha. Nele eu seguia por uma estrada de pedra, cercada por arbustos de espinhos secos e retorcidos que por vezes invandiam o caminho, tornando a travessia profundamente tortuosa. Depois de muito andar, cheguei a uma cachoeira que desaguava num lago tão cristalino que refletia minha face. Minhas pernas e braços estavam castigados pelas pedras e espinhos, minha garganta seca ardia. Antes que pudesse me aproximar e beber, a queda d’água se abriu como uma porta, e dela saiu Celeste, no sonho eu intuia que o era; tinha a aparência de um homem velho com uma grande barba branca e mãos fortes, tomadas de anéis de ouro e de prata com jóias de todos os tipos, os anéis, eu sabia, foram de todos os metais, mas Celeste transmutava perfeitamente qualquer um deles em ouro ou prata; segurava sobre a palma direita uma jóia rubra de luz pulsante e apontava para cima, na esquerda, uma tábua de esmeralda talhada com escritos de uma língua perdida e apontava para baixo, havia na testa enrugada um círculo sagrado, em seu interior um triângulo de água (voltado para baixo) cujas pontas chegavam até as extremidades, nos espaços que o triangulo dividia, três hexagramas, sendo que, aquele voltado para o norte (em cima, sobre a base do triângulo) era pouco maior que os outros, dentro da forma tríplice uma serpente se enrolava formando uma espiral de sete voltas, e por todo seu corpo, exceto a cabeça, escritos numa língua sagrada de caligrafia pontiaguda, a serprente circundava outro circulo, e dentro dele um triângulo de fogo (para cima) com um símbolo formado por três traços afunilados no centro, esse símbolo eu reconheci como o do “ether”, que também podia ser lido como “vida”, “vibração” ou “todo”. Celeste, contudo, nada disse. Convocou do lago um anjo, e este foi quem falou. Do anjo eu nada podia distinguir, era completamente tomado por luz branca, que queimava minhas córneas, mas as pálpebras não se fechavam, não ousariam tentar.
— A fúria dos homens recairá sobre ti, e será no mundo mais um dos pecados terrenos. Como a água da cascata, que ao cair no rio não se diferencia das outras águas.
Acordei na madrugada, minhas roupas estavam frias e molhadas. Com dificuldade abri a janela, e a luz da lua foi o suficiente para que eu encontrasse uma vela e a acendesse, desta forma pude tomar nota do sonho. Incapaz de dormir, refleti por algumas horas sobre os símbolos da manifestação onírica.
Tinha a certeza de que se tratava da presença do próprio Celeste, que enviou um anjo mensageiro em meus sonhos, assim como eu poderia enviar a outrem, uma vez que dominasse as artes teúrgicas. Isso me trouxe alegria, e também temor. A fúria é a razão do fogo e o riacho (humanidade) a água; a luz do anjo queimava, porém foi do lago que surgiu. O fogo (triângulo com a ponta para cima) estava dentro da água (triângulo com a ponta para baixo), assim como o símbolo na testa do próprio Celeste. Enviou a mim seu anjo de luz (de fogo) do lago que me refletia. Deveria ser como a água, evocar a água. Eventualmente adormeci sobre a mesa.
Quando estávamos na planície de Durthenhein e o chifre foi soprado, permitindo aos dois exércitos jogarem-se um contra o outro, também corri em direção a batalha, e então eu vi. Estava parada em meio às lâminas e os soldados, como se ninguém pudesse notar sua presença etérea. Uma figura de pele pálida como um cadáver, vestindo apenas um grande manto fino e branco, completamente manchado de sangue, com seus dentes afiados sorriu para mim.
Meu coração, já disparado, tornou-se ainda mais descompassado, senti minhas têmporas gelarem, não ousei me aproximar.
Foi então que lembrei-me do sonho. O fogo (a guerra) estava por todos os lados, cercando-me como uma raposa prestes a receber a seta derradeira. Necessitava evocar a água; “O que está em cima é como o que está em baixo.” Dita o axioma. Buscar o equilíbrio, a união de fogo (triângulo para cima) e água (triângulo para baixo) seria a resposta (hexagrama), então soube que deveria recuar.
Como um covarde, de face voltada à terra, lágrimas nos olhos e ombros caídos, corri. Fugi como um cão, enquanto a garganta dos soldados de ambos os exércitos atrás de mim eram cortadas.
Ao me virar, a última visão que tive foi a de mais tropas inimigas avançando pelas laterais, somavam o triplo das nossas. Era uma armadilha.
Não ousei voltar-me uma vez mais para encarar a morte iminente de meus colegas. Seus gritos desesperados, contudo, não escaparam aos meus ouvidos. Acompanhado por essa melodia macabra, parti.
Indo em direção ao nordeste, cheguei até uma floresta, a travessia já havia durado um dia e uma noite de fome quando encontrei o rio. É bem sabido por todo aventureiro que: um rio, não importa onde deságue, sempre acomodara civilização em suas margens.
O que eu encontrei, sorrindo para mim, não fora um pescador, uma cabana, nem mesmo donzelas se banhando, foi a morte.
A mesma figura descorada, coberta pelo manto sangrento, sentada sobre uma pedra afundada na areia, a sua frente, sobre um pedregulho pouco plano e maior, um tabuleiro de madeira com peças de xadrez laqueadas.
— Há muito te persigo, e de mim tens escapado. Hoje, enfim, estás cercado pela liberdade de correr pela mata sem a lugar nenhum chegar. — Cantou.
— Quem és tu, ó espírito? Fui eu quem te invoquei?
— Sou a sombra que espreita cada pulsar, o silêncio da vibração universal, o começo de tudo pelo verme que devora a carne. Sou a morte.
Engoli em seco, sentindo o mundo girar e a mente anuviar.
— É este o meu fim? — Indaguei.
— Tens jogado com forças e seres que não compreende, essa será sua ruína. Teu fim, porém, pode ser adiado. Proponho uma única e definitiva partida de xadrez; se vencer, estará livre de minha foice, perdendo, contudo, te levarei em seguida.
— Brinca assim com todos os pobres coitados a quem persegue?
— Trata-se de uma oportunidade rara. Faça sua escolha, Magno Börn.
— Apenas “Magno”, não tenho mais direito a este nome.
— Como quiseres. — A criatura riu, sabia o que estava fazendo ao me provocar, e eu, um tolo, caí em sua armadilha.
— Joguemos.
Sentei-me sobre um pequeno tronco quebrado, coberto de musgo, que estava próximo, e observei o tabuleiro onde não estavam dispostas somente as pequenas esculturas, cobertas por laca reluzente, mas também minha própria vida.
— Deves começar. — Ordenou.
Segurei a peça branca com a firmeza e delicadeza que uma mãe segura o recém nascido e fiz meu movimento de abertura.
Peão para D4.
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