Suicide Messiah

  "Essa é uma história que começou faz muito tempo e demorou para ser finalizada, além disso, você pode encontrar esses personagens novamente em outros contos já publicados. Uma parte dessa história também foi adaptada em um roteiro, o que é história para outro dia (quanta 'história'). Sobre a história em si, eu espero que você possa se divertir com esses personagens como eu me diverti. Uma pequena dica de leitura: se a intensidade do final parecer muito abrupta, recomendo uma segunda leitura. Tehe~" 

— Acerola

Suicide Messiah

Ou

O Sentido da Não Vida


 Segurei a lata de extrato de tomate com força.

 Bip-bip.

 Pela milésima vez no dia, pela milésima vez em menos de duas horas.

 O extrato estava em promoção, mesmo os clientes que só queriam uma lata de Coca-Cola, ou aqueles que preferiam Pepsi, se sentiam tentados a levar um extrato de tomate por 1,99. Admito que era um bom preço, mas não ousaria levar um desses para casa; não porque existia algum risco, porém já havia passado o código de barras de tantos deles que só de pensar em tomates eu sentia o estomago embrulhar e...

 Bip-bip

 O barulho interrompeu meus pensamentos. Mais quatro latas de extrato e dois pacotes de macarrão tipo espaguete, um refrigerante de dois litros com nome estranho e um pacote de milho de pipoca.

 Bip-bip

 O barulho infernal não parava, jamais pararia, a cada item que tivesse seu código de barras exibido em frente ao leitor ele repetia interminavelmente o som.

 Bip-bip. 
Bip-bip.

 Eu gostaria de socar esse maldito leitor e destrui-lo num só golpe. Claro que eu não faria isso. Não apenas porque precisava do emprego, também não poderia destruir um objeto quase inteiramente de metal num único soco, não sou idiota.

Bip-bip.

— Tenha uma boa noite. — Eu disse e sorri enquanto colocava a lata de extrato de tomate na sacola. Nunca mais comeria extrato de tomate, ou melhor, nem molho de tomate, nem salada de tomate, nada; adeus macarronada.

 O homem não respondeu; manteve sua cara fechada e foi embora.

 Mais itens foram colocados sobre o balcão do caixa; uma lata de cerveja de marca barata e uma pequena barra de chocolate com amendoim e caramelo.

 — Eu quero um maço de cigarros. — Exclamou uma voz feminina.

 — Nós não temos isso aqui... — Expliquei e então me engasguei com a nuvem de fumaça que atingiu minhas narinas e boca.

 — Vocês deveriam. — Disse como se fosse óbvio.

 Levantei os olhos e encarei a pessoa parada na minha frente. Era uma jovem de longos cabelos pretos, usava maquiagem leve, que deixava suas bochechas ruborizadas, um vestido preto com estampas de flores azuis e... Um grande e redondo chapéu de vinil vermelho?

Isso era destoante demais!

 — Você não pode fumar aqui. — Falei em tom de censura e olhei em volta, percebendo que ela era a última pessoa na fila.

 — E por que não? — Parecia sem expressão.

 — É um local fechado, além disso tem substâncias inflamáveis no corredor de produtos de limpeza. — Suspirei cansado.

 — Tá.

 Ficamos parados em silêncio por alguns segundos.

 — Você não vai jogar fora?

 — Eu deveria?

 — Esquece. Vou passar logo suas compras.

 — Você não pode me deixar ir embora sem fazer isso? — Perguntou no mesmo tom neutro de toda a conversa.

 — Por que eu faria isso?

 — Se você passar e eu sair sem pagar você vai levar uma bronca, certo?

 — Certo...

 — Então é melhor não passar. — Seu rosto indicava que era algo óbvio.

 — Então você pretendia sair sem pagar desde o início?!!! — Sussurrei num quase-grito de indignação. Essa garota sequer considerou a possibilidade de que deixá-la ir embora sem passar os produtos seria igualmente problemático?

 — Tehe~ — Ela deu um pequeno soco no topo da própria cabeça e colocou a língua para fora, como uma personagem de desenho animado.

 — Nada de “tehe~”! Eu estou trabalhando o dia inteiro e você diz na minha cara que é uma ladra e espera que eu seja seu cumplice? E qual é desse chapéu esquisito? Você é o que? Uma personagem de Haruki Murakami?

 — O que você quer dizer com isso? Que nós vamos fazer sexo através de um sonho?

 — Não transforme minha referência literária em algo obsceno!

 — Então não existe uma conexão, você está apenas dizendo que faz sexo comigo em seus sonhos?

 — Eu não disse nem metade dessas palavras, muito menos nesses termos!

 — Está dizendo que vai sonhar que está fazendo sexo comigo esta noite?

 — Pare, senhorita!

 — “Pare senhorita, eu não consigo resistir aos pensamentos ilícitos de sonhar que estarei fazendo sexo com você esta noite.”

 — Isso não é verdade!

 — “Na verdade, senhorita, eu não tenho desejo nenhum pelo seu corpo jovem e imaturo, mesmo sendo uma mulher adulta os seus seios nem podem ser chamados de ‘tetas’, mesmo assim eu poderia sonhar que estou fazendo sexo com você esta noite, afinal, eu também gosto de barangas feias como você.”

 — Certo, eu desisto. Pode levar. — Apoiei a cabeça sobre o balcão, segurando a vontade de chorar.

 — Adeus.

 — Me deixe passar antes. — Peguei a cerveja e a barra de chocolate e passei no leitor.

 Bip-bip 
Bip-bip

— Você não vai levar bronca? — Pela primeira vez demonstrou alguma expressão, ao arquear as sobrancelhas.

 — Não, eu vou pagar por essas coisas. — Dei de ombros e comecei o processo de fechamento de caixa.

 — Pagamento pelo sonho que...

 — Nada de sonho! — Falei irritado e ela foi embora rindo, mas não antes de soprar outra nuvem de fumaça cinzenta sobre mim.

 Continuei meu trabalho por mais algum tempo, na verdade, a finalização dele. Ir embora era sempre um alívio, como em qualquer emprego, mas nesse, não o suficiente, saber que voltaria já me dava considerável ansiedade e desanimo. Não existia nada mais ingrato e melancólico do que ser um caixa de mercado; um emprego que representava toda a falta de perspectiva que um ser humano podia ter (ou não ter). Muitas pessoas dirão que “todo trabalho é digno”, já eu, diria que digno é poder não trabalhar.

 Trabalhar... Meu pai dizia que o homem precisa trabalhar, que o trabalho engrandece o homem, contudo, odiava e xingava o seu todos os dias quando chegava; que hipócrita. Eu acredito que o que ele queria não era que eu me tornasse grandioso através do trabalho, apenas que eu sofresse como ele, pois ele tinha inveja das pessoas que não trabalhavam, e eu, apesar de agora entender seu sentimento, discordo de sua crueldade descabida. Existem dois tipos de pessoas: As que querem que tudo melhore e as que querem que tudo piore. Ambas podem soar parecidas, pois buscam um tipo de equilíbrio de tudo. Numa guerra, não tem diferença entre você e o seu vizinho; ambos vão morrer numa trincheira cheia de fezes até o topo. Para muitas pessoas, essa situação é muito mais aceitável do que ver seu vizinho ficar extremamente rico, porém continuar pobre, mesmo que vivo, com uma casa e sem tantas fezes. O desejo por igualdade é cruel, e sempre será assim, igualdade e piedade não são sinônimos. As pessoas que querem que tudo melhore são apenas idiotas que sonham com utopias distantes, sua filosofia parece correta, mas a vida não se dá por filosofia, e sim por ações. Eu, por outro lado, sou diferente dessas pessoas, de todas as pessoas. Não ligo para equilíbrio ou justiça, eu apenas desejo estar confortável, seja o único ou não. Você deve pensar que muitos outros cidadãos-de-bem pensam assim, e está certo, porém essas são pessoas que, uma vez que falham em encontrar conforto, lutam para não ficar para trás; eu, porém, percebo a forma e as cores do mundo, entendo que não me encaixo e não posso lutar. Odiar é o que me resta enquanto caminho, mas diferente dos idiotas que matam uns aos outros pela falsa justiça, eu aceito minha condição de inferior e incapaz, assim sendo, enquanto eles lutam, eu fujo. Meu pai vai continuar trabalhando, eu vou me matar em duas semanas.

 — E aí, Garoto do Caixa. Sonhando acordado? — Ela sorriu, segurando sua cerveja e com os olhos quase cobertos pelo chapéu de vinil.


 Saí andando sem dizer nada e ela me acompanhou pela rua levemente iluminada pelas lâmpadas dos postes. Eu não me incomodava com sua presença, apenas mantinha certa distância da fumaça do cigarro, tinha o hábito inconsciente de engolir e se engasgar com ela, e não poderia andar por uma hora tapando a respiração.

 — Por que está me seguindo? — Questionei.

 — Você escolheu isso.

 — Por conta da cerveja?

 — É mais complexo do que isso!

 — Por quê?

 — Se você não tivesse pagado por mim, eu poderia estar sendo perseguida e presa agora, ou até pior, aquele segurança parecia meio pervertido. Ele ficou olhando para a minha bunda quando eu saí!

 — Não ficou não.

 — Como você pode saber?

 — Ele é gay.

 A menina ficou em silêncio por alguns segundos, fazendo um grunhido estranho, como se estivesse se esforçando muito para pensar em algo.

 — Tá. Tanto faz. Mas isso não significa que ele seja boa pessoa, nem que os policiais que viessem me buscar seriam também!

 — Idai?

 — Bem... Você salvou minha vida. Segundo os chineses, se você salva a vida de alguém, você se torna responsável por ela. Ou seriam os coreanos?

 — Não faça um comentário tão passível de más interpretações.

 — Eu não entendi...

 — Esquece. O que importa é que eu não quero ser responsável pela sua vida; nem pela de ninguém.

 — O que queremos e o que devemos são coisas muito diferentes na maioria das vezes.

 — E como VOCÊ sabe o que eu deveria fazer?

 — Não sou eu que sei, é simplesmente a verdade. Como se estivesse escrita numa carta, eu sou apenas a entregadora.

 — Isso é uma opinião errônea.

 — É uma verdade objetiva.

 — Sequer chega a uma opinião plausível!

 — Não precisa agir de maneira tão filosófica; eu já te acho inteligente.

 — Eu não preciso que você diga isso, eu sei o quanto eu sou inteligente. Obrigado.

 — Oh~ Quanta grosseria. Então parece que você é assim por trás daquele sorriso radiante de caixa de supermercado... — Colocou o dedo no lábio inferior, como se pensasse sobre algo muito importante.

 — Sorriso radiante?

 — Sim. Você pode não perceber, mas não para de sorrir enquanto faz seu trabalho e deseja uma “ótima tarde” a todos os clientes. Mas no fim, parece que existia um Mr. Hyde por trás do magnânimo Dr. Jekyll.

 — Você está mentindo! Eu consigo ver a risada escapando pelos cantos da sua boca. Além do mais, quem você é nessa história, então?

 — Gabriel Utterson, é claro. O anjo que foi até Maria avisá-la sobre o nascimento de Jesus Cristo. Amém. — E juntou as mãos, abaixando a cabeça em reverência.

 — Você está confundindo totalmente livros que sequer se parecem! Além do mais, anjos não tem sobrenome, e, se Deus existe, ele não deve estar nada feliz com você comparando seus anjos com advogados!

 — Mas não seria essa a função deles no “julgamento final”?

 — Tenho quase certeza que não.

 — Isso é uma opinião errônea.

 — Não tente virar o jogo assim tão fácil!!!

 — Tehe~ — E mordeu a língua.

 — Não pense que vai fugir com um “tehe~”!

 Então caminhamos em silêncio por mais alguns minutos.

 — Aqui eu me despeço. Sua casa está próxima, certo?

 — Como você sabe disso?

 — Isso realmente importa? — E fechou os olhos com um sorriso sereno, iluminado agora pela luz pálida do luar.

 — Na verdade importa muito...

 — A gente vai se encontrar de novo, e você vai entender. Tudo o que o pequeno Werther precisa é uma experiência fáustica.

 — O que isso significa?

 — Não seja tão apressado. Aqui, se mostrar isso ele vai te levar.

 — Quem?

 — O seu Pistorius.

 — Estamos buscando Abraxas?

 — Você deve buscar seu Max Demian.

 — Pelo que parece, eu sou Emil Sinclair. Mas e você?

 — Na verdade...

 — “Não importa muito”?

 — Exatamente. Agora pega. — Colocou a mão dentro do decote, eu rapidamente desviei o olhar em respeito, então ela tirou um pequeno objeto em formato de lua minguante, segurou meu pulso e depositou sobre a minha palma, era como uma pedra, e depois de olhar mais de perto, percebi que parecia mais um fóssil, algum tipo de verme gigante (é cabível dizer gigante, já que não se veem vermes desse tamanho), uns 13 centímetros, que cabiam na mão graças a curvatura. Arqueei as sobrancelhas sem entender, ela soltou minha mão, sorriu, virou de costas e partiu. — Adeus. Ou seria até logo?

 Eu fiquei ali parado, acenando lentamente enquanto olhava a garota desaparecer pela rua mal iluminada, buscando entender o que exatamente havia se passado.

 Logo em seguida fui para casa e adormeci sem nem tomar banho, simplesmente caí sobre a cama e fiquei deitado por horas e horas, sem sonhar e sem, imagino eu, nem roncar. Apenas dormindo, como se estivesse morto, por 15 horas.

 No dia seguinte acordei já atrasado para o trabalho. Esfreguei a cabeça e xinguei algo ou alguém qualquer, pela simples necessidade de expressar a raiva. Me arrumei e então vi o verme sobre a cama, não sabia o que significava, contudo, sabia de quem ela estava falando.

 Parti para o trabalho e tratei de não esquecer o amuleto enquanto pensava intensamente no lugar que deveria ir assim que saísse, quem eu deveria encontrar.

 O porquê eu fiquei tão obstinado a ir atrás da garota?

 É uma boa pergunta, e, normalmente, essa é a hora em que os protagonistas de livros dizem “não sei”, exceto os do romantismo, esses escreveriam um enorme paragrafo de duas páginas e meia falando sobre sua beleza, depois outro parágrafo, agora de quatro páginas e dois terços, falando sobre o sentimento que seu cheiro trazia (eu apenas me lembrava do cheiro do cigarro), e então, mais duas páginas sobre coisas aleatórias que viessem a cabeça. Eu, porém, sei exatamente o motivo, e a verdade é que eu queria persegui-lá simplesmente porque não tinha nada melhor para fazer, nada que eu quisesse realmente fazer. Faltando uma semana e 3 dias para o meu suicídio bem planejado e bem-marcado no calendário com o disfarce de “encontro”, era a primeira vez em muito tempo, mais especificamente 7 meses, 3 semanas e 5 dias que eu não tinha uma conversa de verdade com alguém, e uma quantidade de muito maior de tempo no qual eu não dormia mais do que 4 horas por noite, tão maior que eu não me lembro exatamente o quanto. Eu não tinha nada a perder, e nem exatamente a ganhar, mas essa era a última coisa que eu queria fazer, eu iria fazer. Encontra-la mais uma vez, e então morrer.


 1 dia e 8 horas se passaram.

O carro seguia em frente, os pneus giravam sobre o asfalto quente, o balanço era confortável, ignorando alguns buracos. Através da janela as árvores iam ficando para trás, eu não sabia a qual velocidade seguíamos, eu diria que uns 80km/h, mas não ousei virar a cabeça e conferir no medidor. No rádio tocava uma música clássica, que até então eu não sabia, porém viria a descobrir que era a Nona Sinfonia de Beethoven.

 — Não dorme agora, estamos chegando. — Disse o homem no volante.

 Apenas acenei com a cabeça, não importa se ele viu ou não a resposta.

 Terno preto, camisa branca, gravata vermelha com um broche de uma espécie de urso-leão-alado de anime; cabelos negros e bem penteados, com gel para garantir o formato; o relógio em seu pulso não funcionava mais, porém não se atrevia a sair sem ele. “um homem sério sempre tem um relógio de pulso”, repetia quando perguntado o sentido daquilo. Gregor era um empresário sério, ou ao menos dizia ser. Eu me pergunto que tipo de empresário sério resolve viajar 5 horas de carro com um jovem desempregado numa terça-feira no meio de abril.

 — O que viemos fazer aqui? — Suspirei pesadamente enquanto abria a porta do carro agora estacionado.

 — Trabalho.

 — Que tipo?

 — O de sempre.

 — Que papo é esse de “o de sempre”? A gente só trabalhou junto uma vez.

 — Não. Você trabalhou. Eu já tenho trabalho demais, não posso ficar resolvendo problemas de jovens-com-uma-quantidade-exorbitante-de-tempo-livre como você.

 — Me chama logo de vagabundo que vai doer menos! — Apertei os olhos como se fosse chorar. Não chorei. Ele não ligou.

 — Isso seria uma ofensa aos vagabundos. — Manteve os olhos numa pasta cheia de papéis, procurando algum específico.

 — A gente veio aqui para você me ofender? — Cruzei os braços.

 — Não tenho tempo para isso, infelizmente. — Explicou com calma e frieza absurdas.

 — “Infelizmente”?

 — De qualquer forma; como se sente?

 — Normal. Acho que um pouco letárgico pela viagem.

 — Nada de estranho? — Encontrou o que procurava e finalmente me encarou.

 — O que eu deveria estar sentindo? — Indaguei.

 — Eu tenho coisas para resolver, comece a investigar.

 — Sem resposta?

 Gregor apenas se virou e partiu, sumindo numa esquina próxima. Eu me perguntava o que deveria investigar, parado no lugar. Então um gato visivelmente velho, de pelos alaranjados, começou a se esfregar na minha perna. Sorri e acariciei sua cabeça. Quando me abaixei para isso, percebi que havia uma grande quantidade de gatos naquela rua, talvez 13 ou 14, sem contar o que pressionava a cabeça contra a minha mão, exigindo mais carinho.

 Sussurrei uma desculpa para o pequeno felino e parti. Caminhando pela calçada a pouca quantidade de pessoas me incomodava; mesmo sendo uma cidade pequena, ainda me pareciam ter menos pessoas do que casas. Me sentia estranho, mas alguns sorrisos e cumprimentos dos cidadãos que passavam me fizeram sentir mais confortável em investigar por aí.

 A cada rua que eu virava uma nova matilha de gatos estava presente. Alguns fugiam ao me ver, outros olhavam atentos e alguns, mais curiosos, vinham até mim, o que me fazia sorrir. Parecia que a cidade toda era a enorme casa de uma velha solteirona.

 Após longos minutos de andança me deparei com uma peixaria e uma corrente elétrica disparou no meu cérebro; ainda não tinha encontrado nada relevante fora a enorme quantidade de gatos, porém, era isso o que me ajudaria. O plano já nasceu pronto no fundo do meu cérebro; ou melhor, foi concebido, seria parido agora.

 — Boa tarde. — A senhora da peixaria exclamou assim que eu adentrei a loja e então, com um cutelo, arrancou a cabeça de um peixe sobre a mesa, ela não dobrava os dedos e nem fazia cálculos, também parecia muito mais satisfeita com seu emprego do que eu jamais fui, reparei.

 — Boa tarde. — Sorri meio sem jeito.

 — Veio visitar alguém? — Perguntou enquanto analisava o corte que havia feito, semi-perfeito.

 — Ah, não. Apenas acompanhar um amigo que veio a trabalho. — Expliquei.

 — Ele é cozinheiro? — Voltou o olhar para mim.

 — Acho que não. — Eu realmente não tinha como saber, talvez tivesse sido em algum momento da vida, ele era bem metódico.

 — Então por que está aqui?

 — Essa cidade está cheia de gatos de rua, pensei em alimentar alguns.

 — Oh, a Constanze fazia isso sempre. Que Deus a tenha. — E fechou os olhos de forma solene.

 — Perdão. Ela se foi recentemente? — Inquiri, tentando não parecer animado por ter encontrado algo.

 — Sim, apenas três dias.

 — Meus pêsames. Posso saber do que ela morreu? — A peixeira me olhou desconfiada e eu cocei a nuca, sentindo que havia cometido um grande erro.

 — Ela se matou.

 Naquele momento meu corpo congelou, senti um forte aperto no peito e inspirei profundamente. Aquilo era incômodo por si só, mas ela, ainda por cima, não aparentava nenhum pesar enquanto falava. A expressão solene ao falar da amiga rapidamente se transformou num leve sorriso ao explicar a causa.

 Senti vontade de vomitar, porém segurei.

 — Sinto muito...

 — Tudo bem. Ela pelo menos manteve o rosto reconhecível. A Carlota, na semana passada, teve que ser caixão fechado. — Meneou a cabeça e riu como se estivesse contando uma piada.

 — Duas mortes em poucos dias... — Pensei alto enquanto olhava para o chão.

 — Duas? Ah não, querido. Foram 15 na semana passada.

 — Quinze pessoas morreram em menos de duas semanas?...

 — “Morreram” é coisa de quem sofre acidente. Se mataram, escolheram isso. — Dessa vez parecia estar me dando um sermão.

 Levei a mão até a boca e contive a ânsia de vomito mais uma vez.

 — Duas sardinhas apenas, por favor... — Pedi levantando os dedos, indicando a quantidade.

 — Claro. — Sorriu, enrolou duas sardinhas em papel e me entregou

 — Obrigado. — Agradeci enquanto mantinha os olhos no chão.

 — Volte sempre.

 Saí da loja e comecei a desenrolar o peixe. Notei que: apesar de ser uma peixaria, a quantidade de gatos em frente era bem baixa, apenas três, sendo que havia muito mais ao fim da rua.

 Coloquei o peixe no chão, evitando me distrair com coisas inúteis, meu dedo indicador tocou uma das escamas enquanto posicionava o papel. Muito gatos começaram a se aproximar rapidamente, e um gato branco com manchas pretas... ou seria preto com manchas brancas?... e olhos verdes, lambeu meus dedos que haviam se sujado com a umidade da sardinha. Fiz um carinho na cabeça dele com a palma e saí enquanto se alimentavam.

 Por mais que não tivesse nada muito conclusivo, imaginei que os fatos que eu tinha eram importantes o suficiente para falar com Gregor, então passei a procurá-lo, resmungando alguns xingamentos enquanto lembrava que ele não havia me dito onde estaria.

 No meio do caminho; se é que se pode chamar uma caminhada sem rumo de “caminho”, avistei uma casa que parecia abandonada, as paredes e portão destruídos, janelas em cacos, fungos e mato para todos os lados. Decidi entrar.

 Ao empurrar o portão para conseguir passar, um pedaço de ferro retorcido e afiado cortou meu dedo indicador, que logo levei até a boca. Desde criança as pessoas tendem a levar pequenos machucados até a boca, na esperança que melhorem mais rapidamente, eu não abandonei esse costume. 

 Investiguei a casa por algum tempo enquanto chupava meu dedo. Não havia nada, tudo tinha sido roubado, retirado, vendido ou qualquer coisa assim. Era apenas uma estrutura prestes a desabar na primeira brisa que coincidentemente passasse por ali.

 Frustrado eu saí por um buraco no muro, contrário ao portão que entrei. Caminhei por mais algum tempo e encontrei Gregor encostado no carro, fumando um fedorento cigarro.

 — Você não vai acreditar... — Exclamei, colocando a mão na testa e suspirando.

 — No que? — Ele parecia completamente desinteressado, como se me julgasse incapaz de conseguir uma informação relevante.

 — Tem alguma coisa acontecendo aqui.

 — É. Eu sei. Já descobri tudo.

 — Você já descobriu o porquê as pessoas estão se matando?

 — Se matando?

 — Sim. 15 pessoas em nove dias.

 — Quanta gente...

 — O que você descobriu então?

 — Tem um vampiro nessa cidade.

 “Isso é pior do que eu pensava.” Dissemos em uníssono.


 Gregor ficou pensativo por alguns minutos, eu fingi ser igualmente capaz de pensar numa solução. 

 A verdade?

 Não fazia ideia de como lidar com um vampiro. Nem mesmo acreditava em coisas sobrenaturais até oito meses atrás.

 Quando eu tive um problema sobrenatural, Gregor me ajudou.

 Um homem de negócios visivelmente ocupado e cansado, mas que, por algum motivo, tinha grande conhecimento sobre o oculto.

 Ele não parecia um exorcista ou monge, só um assalariado comum. Mesmo assim, sabia mais do que a maioria das pessoas. Ter ele ao meu lado, mesmo nessa situação assustadora, me deixava aliviado, ao menos o suficiente para tentar compreender melhor a situação.

 — Como você descobriu que tem um vampiro aqui? — Perguntei.

 — Eles deixam alguns sinais. Pode parecer bobo, porém, os vampiros realmente sofrem de todas as fraquezas dos filmes e livros. Na verdade, é provável que muitas dessas obras tenham sido feitas por pessoas que conheciam a existência dessas criaturas e acabaram disseminando isso, mesmo que a maioria pense que seja só ficção. Van Helsing e Jonathan Harker podem não ter existido, porém, Bram Stoker já deve ter lidado ou conhecido alguém que lidou com um vampiro de verdade em algum momento da vida.

 — Entendo... Eu acho...

 — Acha? — Indagou insatisfeito.

 — Como essas informações te fizeram ter a certeza de que tem um vampiro aqui? — Ignorei a pergunta pelo bem do meu pobre ego.

 — Em primeiro lugar: tinham muitas portas abertas, mesmo para uma cidade pequena isso é despreocupação demais. Além disso, o rio mais próximo fica a mais de 1 quilômetro da cidade. Todas as cruzes da igreja foram arrancadas, não sobrou uma única; também tinham morcegos dormindo no sino. A quantidade de ratos e aranhas é suficiente para esse lugar ser colocado em quarentena, e, principalmente, não tinha molho de alho na churrascaria.

 — Principalmente? Isso é muito menos importante do que uma igreja vandalizada ou uma quantidade alarmante de animais peçonhentos e transmissores de doenças! Além do mais, o molho pode só ter acabado, eu nunca ouvi falar de vampiros que comam churrasco.

 — Não comem.

 — Claro que não comem...

 — Eles são meticulosos, cuidam de cada detalhe, por isso é preciso prestar atenção nas pequenas coisas. — Explicou.

 Respirei fundo e coloquei o dedo indicador dobrado sobre o queixo, pensando por alguns segundos.

 — Faz sentido... — Falei enfim. — Pensando bem, você reparou em muitas coisas bem especificas. Parece até que você já sabia que se tratava de um vampiro antes mesmo de vir para cá. Isso tem a ver com o amuleto?

 — Não exatamente. O amuleto é uma lembrancinha típica de uma loja de presentes dessa cidade, por isso eu sabia que, quando ela te deu isso, queria que você viesse até aqui.

 — Será que aquela garota sabia sobre o vampiro?

 — Sim, sabia. — Gregor deu uma longa tragada no cigarro e então soltou a fumaça num suspiro.

 — Acha que ela foi pega por ele?

 — Pior.

 — Acha que ele já a matou?

 — Pior.

 — O que poderia ser pior?

 — Ela É o vampiro. — Sua expressão desinteressada e cansada só tornava a situação pior.

 — Olha Gregor, eu entendo o que você está pensando. Sei que também não tenho motivos para defender ela, porém, se a garota fosse uma vampira que comanda toda essa cidade, por que iria viajar tanto tempo só para me trazer até aqui? Isso me soa mais como um pedido de socorro. — Argumentei.

 — Ela é o vampiro.

 — Como pode dizer isso com tanta certeza? Você pode estar certo sobre ter um vampiro aqui, só que não pode ter certeza de que seja ela.

 — Eu posso.

 — Pode? Como?

 — Garoto... — Fez uma pausa. — Tirando a falta do molho de alho, eu não tinha reparado em nenhum dos outros sinais, na verdade, só aceitei vir até aqui porque eu gosto muito do molho de alho daquela churrascaria. Eu não procurei vampiro nenhum. Eu não percebi nenhuma dessas coisas sozinho. Eu me encontrei com ela.

 — Encontrou com ela? Onde?

 — Não importa. — Disse soprando a fumaça branca.

 — Claro que importa! Me fala o que aconteceu!

 Segurei Gregor pelo paletó aberto, como se ele fosse tentar fugir, mas nem se mexeu.

 — Ela veio até mim porque se sentiu ameaçada. Se apresentou como vampira desde o primeiro momento; não que fosse muito necessário, era visível o que ela é.

 — E o que ela disse?

 — Queria que eu deixasse você ser devorado.

 — E você deixou?

 — Claro que não.

 — Se ela queria me devorar, por que precisaria da sua permissão?

 — Existem coisas que devemos somente aceitar como são.

 — Isso não diz nada!

 — De qualquer forma, mesmo sob minha proteção, você faz o que quiser.

 — Como assim?

 — Se quiser ser devorado pode ir.

 — O que? Por que eu faria isso?!

 — Vai saber... Os jovens são complicados. — Coçou a nuca e suspirou.

 — Então é só eu dizer que não quero e vai ficar tudo bem?

 — Exatamente.

 — E as pessoas daqui?

 — São outra história.

 — Elas vão continuar morrendo?

 — Não dá para saber.

 — Claro que dá...

 — Isso é problema para depois. O assunto agora é você.

 — Onde ela está?

 — Quem?

 — A vampira.

 — Vai ser devorado?

 — Não. Mas eu quero falar com ela, quero entender o que está acontecendo nessa cidade e fazer algo por essas pessoas.

 — Quer que eu te leve até lá?

 — Quero.

 — Tudo bem. Mas pense bem no que vai fazer. Se encontrar com ela é uma escolha sua, isso significa que eu não posso intervir, nem mesmo se ela pular no seu pescoço e beber seu sangue como se fosse Coca-Cola zero açúcar.

 — Tudo bem. — Respondi determinado. — Essa nem é tão boa quanto a original.


 Toda minha coragem advinha de grande curiosidade e emoção, sangue quente, e, enquanto caminhávamos, ele esfriava, aumentando a ansiedade. Talvez eu estivesse realmente caminhando em direção a morte, e por quê? Planejava me suicidar, mas... ser assassinado por uma vampira não estava nos meus planos. Como a maioria dos suicidas, não estava pronto para a morte, só seria capaz de aceitá-la definitivamente num momento definido por mim mesmo. Ainda existiam instintos de sobrevivência no meu corpo.

 A lua estava minguante e brilhante, andar por aquela cidade, agora com outro olhar, era assustador. As ruas tomadas de gatos não estavam apenas desabitadas por humanos, eles haviam sido arrancados da realidade, assassinados, devorados pela mulher que eu persegui até aqui.

 O que me trouxe até aqui?

 Mera curiosidade? Uma noção sem sentido de que, antes de morrer, era preciso concluir um objetivo, mesmo que pequeno? Obediência cega a ordem indireta da garota de cabelos negros?

 Não sei a resposta.

 Gregor provavelmente não sabia também. Não podia me ajudar nesse caso.

 Enfim chegamos, um velho galpão abandonado, a porta de metal estava enferrujada e as paredes com infiltração. As janelas eram altas demais para tentarmos espiar antes de entrarmos. Só havia uma coisa a ser feita.

 Colocamos os dedos entre as frestas e puxamos com toda a nossa força o grande portão de rolo. Nenhum de nós era especialmente forte e a ferrugem não ajudava, porém, com um pouco de esforço ele cedeu e abriu de uma vez só.

 — Vocês sabem que tinha uma porta nos fundos né?

 Essa voz.

 Os cabelos pretos jogados, estava deitada sobre um sofá extremamente velho e desgastado, com algumas manchas que eu não saberia dizer se eram de vinho ou sangue, no chão ao lado, o chapéu de vinil. Seus olhos passavam confiança e seu sorriso, divertimento, como se tivesse certeza de que viriamos até aqui. Usava um pijama ciano, fino, com uma camiseta solta e um short curto que revelava as coxas. Toda a curvatura de seu corpo era visível, perfeitamente visível, além disso era bela. Mantive meu olhar em seu rosto, torcendo para que o meu não estivesse vermelho.

 — Olá vampira. — Eu disse.

 — Olá humano. — Respondeu.

 Humano.

 No singular.

 Gregor estava em silêncio, os dois com certeza notaram a presença um do outro, contudo, agiam como se não estivessem ali.

 — O que tudo isso significa? — Indaguei.

 — Tudo o que?

 — Por que me trouxe até aqui? Como sabia que Gregor entenderia o fóssil?

 Eu tirei o verme de pedra do bolso e mostrei.

 — Eu só vou responder uma dessas perguntas, senhor investigador.

 — Pare de brincadeiras.

 — Eu não estou brincando.

 A vampira que estava deitada então se sentou, cruzando as pernas e me encarando sem desmanchar seu sorriso, fiz o meu melhor para não olhar para nada que não fossem seus olhos.

 — Responda. — Insisti.

 — O vermezinho tem um significado que pode ser útil no futuro. Como dizem...? Um “foreshadow”. — Deu de ombros. — Se não quiser, pode entregar para o seu amigo Sábio.

 — Você me fez vir aqui para não dizer nada?

 — Não. Digo... Não é bem assim. Normalmente não se pergunta esse tipo de coisa sobre presentes. Como disse, se não quiser, pode até jogar fora.

 — Você matou todas aquelas pessoas?

 — Elas é quem se mataram, você não conversou com ninguém? Todos nessa cidade podem te confirmar. Foram suicídios.

 — Isso é coincidência demais. — Suspirei. —  Quero acreditar em você, mas algo me diz que você tem culpa.

 — Eu nunca disse que não tinha. Contudo, sua pergunta foi se eu tinha matado aquelas pessoas, e eu não fiz isso.

 — Então qual sua relação com todas essas mortes?

 — A morte dessas pessoas é mais importante do que o motivo de estar aqui?

 — Nós vamos chegar nisso.

 — Então eu apenas respondo as perguntas, como num julgamento? Você sabe o final de O Estrangeiro?

 — Sim eu sei.

 — É assim que você quer terminar essa história? Com seu amigo ali arrancando meu coração e acabando de vez comigo?

 — Ele nã—

 — Viu só? Você não sabe de nada. Talvez devesse ouvir um pouco mais, antes de falar tanto. — A voz dela parecia um pouco tremula e irritada.

 — Certo...

 — Desculpa. — Choramingou.

 — Desculpa? — Eu perdi alguma coisa?

 — Eu não tenho o direito de criticá-lo dessa forma.

 — Está tudo bem, eu acho... — Está mesmo?

 — Vou explicar tudo, com uma condição.

 — Condição? — É agora.

 — Independente do que você ouvir e escolher, quando essa noite acabar, você vai deixar eu te devorar.

 — Me devorar?! O que exatamente isso significa?!

 Aquele chororô era para me manipular a aceitar uma coisa tão absurda?

 — Significa exatamente isso, é literal. Irei, com a sua permissão, rasgar sua carne e beber o seu sangue numa refeição nutritiva. — Os caninos agora pareciam mais proeminentes do que antes. Não que tivessem mudado, porém agora chamavam mais atenção.

 — Eu praticamente só me alimento de macarrão instantâneo e refrigerante, não tem nada de nutritivo em mim.

 — Então saborosa?

 — O sabor seria completamente artificializado!

 — Não tem problema, quero capturar a essência. Quero o sabor que só existe em você, e... Não existe em mim.

 — Você por acaso é Jean-Baptiste Grenouille?!

 — Minha obsessão está mais próxima a do Capitão Ahab. — Corrigiu.

 — Isso não melhora as coisas como você acha que melhora!

 A vampira riu, uma gargalhada profunda e sincera. Sua expressão leve suavizou minha raiva, me fazendo soltar uma pequena risada também.

 É isso.

 Essa sensação...

 Sua ironia ácida, suas referências literárias, essas coisas me fizeram esquecer por um momento a enorme tragédia que acomete toda essa cidade. Esquecer que aquilo na minha frente era um ser sobrenatural, uma criatura hematófaga.

 Ou era só uma garota?

 — Bem... Vamos ao que importa. — Coçou a garganta, se preparando para um discurso importante. — Você sabe o que é Toxoplasmose Gondii?

 — Para ser sincero, não. Eu poderia supor, mas duvido que acertasse.

 — O toxoplasma gondii é um protozoário, um parasita, que normalmente se hospeda em felinos. A maioria dos gatos não sofrem com seus sintomas, já os humanos...

 — Então você...

 — Sim, eu trouxe gatos infectados, e depois só precisei trazer gatos saudáveis que foram infectados com o tempo. Os gatos se reproduziram e o parasita também.

 — Isso é horrível! — Exclamei. — Mas não existe uma doença que faz as pessoas se suicidarem, eu já teria ouvido falar disso.

 — Claro. A toxoplasmose goldii não faz as pessoas se matarem, contudo, tem efeitos fortíssimos no sistema nervoso. Além do mais, eu usei um tipo especial. Podemos chamar de Toxoplasmose Gold, isso é, o toxoplasma dourado.

 — Qual exatamente a diferença?

 — O toxoplasma goldii é um parasita comum, uma existência mundana e natural. Só que você já sabe sobre a existência de coisas que vão além da naturalidade. Se existem seres exatamente igual a humanos, porém com alguns hábitos e capacidades diferentes, o que impediria de existir também um protozoário sobrenatural semelhante a um protozoário comum?

 Essa conversa era absurda demais, contudo, não havia refutação. Se era um fato que existiam pássaros normais e pássaros mitológicos; chihuahuas comuns e cérebros do inferno; humanos e vampiros, também fazia total sentido que existissem parasitas sobrenaturais.

 O que aconteceria se houvesse uma grande pandemia?

 Um pequeno vírus concentrado em algumas pessoas se espalhando pelo mundo todo sem uma cura... Não. Isso jamais aconteceria.

Se acontecesse uma pandemia sobrenatural, os exorcistas passariam a receber mais do que os médicos?

 — Entendo. — Afirmei. — Mas qual a diferença?

 — Esse é o ponto. O Toxoplasma Gold também afeta o sistema nervoso, só que de uma forma diferente. — A menina inverteu as pernas cruzadas enquanto falava. — Ao invés de causar febre, problemas de visão e outras coisas, ele inibe a percepção, ou, você poderia dizer a noção.

 — Inibe a noção? O que isso deveria significar?

 — A princípio; diminui seu senso de risco e consequência. Um ser humano comum não subiria em um lugar perigoso, pois sabe que pode cair e se ferir mortalmente. Alguém que não tem noção de risco e consequência tentaria qualquer coisa que viesse a cabeça, desconheceria o medo.

 — Uma pessoa que caísse de um lugar alto não seria contabilizada como suicídio, exceto se ela SE JOGASSE.

 — Bom... É aí que a coisa fica interessante. — Interessante? — Fiz isso para aumentar o número de acidentes, pois, quando se trata de humanos, sou uma vampira gourmet.

 — Gourmet? — Parecia uma piada ruim.

 — Sim. Eu não mato pessoas; me alimento somente de pessoas que morreram por acidente. Só matei uma única pessoa em toda minha vida. — A garota levantou o dedo indicador antes de continuar. — Não faço isso por causa de qualquer tipo de ética, eu apenas prefiro. — A necessidade dessas palavras me fez questionar sua veracidade.

 Uma lógica completamente amoral. Não, não totalmente. A moral estava distorcida e diluída no meio de tantas mortes e parasitas. Com ou sem código de ética, ela só comeria pessoas que sofreram um acidente, não mataria ninguém. Se isso é verdade, querer aumentar o número de acidentes, ainda mais num lugar pacato, faz todo sentido. Não seria fácil invadir cemitérios ou necrotérios numa cidade grande, e um lugar como esse não tem muitos acidentes normalmente, afinal o número de habitantes é bem baixo. Considerando que, como nas lendas, o vampiro não pode se alimentar de outras coisas, essa era a única forma de sobreviver. Não importa de que perspectiva se olhe, se é considerado justo ou não, ela estava apenas lutando pela sua sobrevivência, sem nem mesmo ter alguém em quem confiar.

 — Então você usou os gatos infectados pela toxoplasmose gold para aumentar o número de acidentes na cidade? Isso ainda não explica os suicídios.

 — Você nem mesmo imagina o que pode ter acontecido? As coisas saíram do controle. — Disse levantando as sobrancelhas e descruzando as pernas, se apoiando para a frente. — Uma das pessoas afetadas já sofria com muitos conflitos internos, e talvez externos também. O ponto é que quando essa pessoa perdeu sua “noção”, seus instintos de sobrevivência, foi muito fácil para ela dar um fim a aquela dor. — Suspirou. — Os humanos são influenciáveis, então, quando uma pessoa se suicidou, outras ficaram mais sensíveis a isso, e quanto mais pessoas se matavam, mais isso se tornava comum, chegando ao ponto de que qualquer frustração do dia a dia era o suficiente para que uma pessoa infectada pelo toxoplasma dourado tirasse sua vida sem ponderar as consequências ou sentir medo.

 — Ir mal numa prova ou bater o dedinho seria o suficiente para alguém assim fazer uma escolha tão difícil...

 — Foi assim que as coisas terminaram do modo como estão.

 Um acidente? Poderia se dizer que uma enorme reação em cadeia aconteceu por causa de uma única pessoa, porém, não dá para negar a influência do vírus dourado nisso. A menina não queria que tantas pessoas morressem, mas ainda estava nos planos dela que isso acontecesse com pelo menos algumas. Matar (ou fazer morrer) pela própria sobrevivência é certo ou errado? Isso poderia ser considerado legitima defesa? Aquelas pessoas não a atacaram, contudo, se soubessem se tratar de uma vampira, uma criatura não-humana, teriam feito isso sem pensar duas vezes também. Essa era a vida, ou não-vida, que um vampiro estava destinado. Sempre solitária.

 — Mesmo assim... O que isso tem a ver comigo? Por que eu?

 — Eu consigo sentir. Você não deveria estar vivo, mas superou a morte. Imagino que com a ajuda do seu amigo com péssimo gosto para cigarro ali. Porém, de uma forma ou de outra, foi você. Seu sangue, sua vida, é especial. Para uma gourmet como eu, isso é algo a se considerar. Por isso meu interesse foi despertado assim que o vi.

 — Especial... Eu... — Palavras que eu nunca pensei que escutaria em toda minha vida, palavras que, nem mesmo para mim mesmo, eu seria capaz de dizer. Mas estavam erradas. — Não tem nada de especial em mim.

 — Você pode dizer isso e esconder seu ego atrás dessa autodepreciação e falsa-modéstia. Contudo, as cartas estão postas, e seu amigo ali pode confirmar isso. Ou melhor, não importa a opinião dele. — Se levantou e segurou meus ombros. — Para mim você incrivelmente especial.

 Eu corei, dessa vez sem dúvidas.

 — Obrigado? — Uma pergunta?

 — Não precisa agradecer. Apenas cumpra sua promessa. — Ela me soltou, mas continuou próxima. — Se eu te devorar, o velho vai me matar. Só que eu não me importo. Desde que eu possa ter essa última refeição, estarei bem em morrer. Já não espero nada dessa “não vida” há muito tempo. — “Não vida” estava realmente correto.

 — Está desistindo da vida? — Indaguei.

 — Você também, não é? — Arqueou as sobrancelhas. — Te observei por algum tempo. Na verdade, nem acreditei quando tive certeza. Uma última refeição perfeita, disposta a morrer, e um ocultista capaz de me matar. Tudo de uma vez só. Depois de tantos anos... Tirei a sorte grande. Posso finalmente me livrar deste sofrimento. — Seus olhos brilharam e a garota colocou as mãos no meu rosto. — E você... Sinto muito. Sinto muito que não encontre outro caminho, só que eu também não tenho outra opção. Então obrigada. Obrigada por me permitir descansar, obrigada por ser a última pessoa com quem compartilhei a mesa, e obrigada por morrer ao meu lado.

 A boca se abriu e as presas afiadas atravessaram minha pele, fazendo o sangue fluir para fora do meu pescoço. Soltei um grunhido de dor enquanto ela deglutia o fluido escarlate.

 Ambos caímos no chão.

— Ei... — Falei sem forças. Não houve resposta, não parou de beber. — Apenas... me diga uma coisa...

 Sua boca se abriu sem se afastar, havia parado.

 — O que?

 — Qual... O seu no-nome? — Tossi dolorosamente.

 Ficamos em silêncio por alguns segundos, o sangue escorrendo para o chão. Era um desperdício pequeno, mas ainda era desperdício.

 — Emma. — Respondeu.

 — Como de Jane Austen ou Flaubert?

 Emma lentamente tirou seu rosto do meu pescoço, até que me olhasse nos olhos.

 Sua boca estava suja de sangue como se fosse uma criança com molho de tomate. Molho de tomate? A esse ponto? Essa é uma bela última visão, mas eu tinha que pensar justo nisso?

 No fim... Era só isso que a vida tinha a me oferecer?

 Molho de tomate, catarro e lágrimas?

 Espera.

 Lágrimas?

 Emma estava chorando.

 — Flaubert... — Respondeu em meio a soluços.

 Seus olhos eram torrentes, quando chegavam as bochechas as lágrimas salgadas se tornavam rubras, se misturando com o sangue-de-tomate, e pingavam sobre as maçãs do meu rosto.

 Lágrimas quentes e vermelhas escorrendo pela minha face.

 As lágrimas de Emma se tornavam minhas, eram também minhas, pois eram como as minhas.

 Não eram lágrimas de alguém que estava se despedindo.

 Não havia ali lágrimas de soldado, preparadas para morrer a qualquer momento.

 Eram lágrimas de terror.

 Emma estava com medo.

 Assim como eu, ela queria realizar um último feito e então morrer, pois não via sentido na própria vida. Mas agora, juntos. Nós dois chorávamos com medo da morte.

 Não queríamos morrer.

 Queríamos um sentido.

 — Emma... Se você quiser morrer, eu morrerei por você. — Juntei todas as forças que tinha, meus pulmões ardiam e meu coração saltava. — Mas se quiser viver, eu viverei por você! — Gritei, gritei para que o mundo todo escutasse, mesmo que, no fim, só as três pessoas naquele galpão pudessem ouvir.

 — Por favor... Eu não quero morrer. — Respondeu. Fez uma escolha e gemeu, chorando com tudo o que tinha.

 A partir de hoje... Não. Desde aquele momento no caixa do supermercado, a vida de Emma era minha responsabilidade. Contudo, eu não estava preocupado. Estava feliz.

 — Nós vamos... — Tossi. — Comer algo gostoso juntos.

 Então a abracei, mesmo sem muita força para tal.

 — Qual... — Soluçou. — Qual o seu nome?

 Soltei uma risada amarga, eu nem mesmo havia dito algo tão simples.

 — Andrei. — Respondi.

 Pude ouvir o som de Gregor acendendo um cigarro e soprando fumaça demoradamente. Talvez essa fosse sua forma de dizer que acabou.

 Para ser sincero, não havia realmente acabado, ainda havia pessoas infectadas na cidade e precisaríamos lidar com esse problema logo. Quem sabe num próximo conto.

 — Andrei... — Emma repetiu.

 — Sim, Emma?

 Os sentimentos são, dentre todos os aspectos da existência humana, de longe, o mais complicado. Existem milhares de teorias, cientificas ou não, que tentam explicar o motivo das pessoas agirem como agem, sentirem o que sentem e dizerem o que dizem. Até o momento dessa história, todas são incompletas, incapazes de expressar toda a complexidade humana em um livro ou numa biblioteca inteira. A verdade é que não sabemos por que fazemos algumas coisas, e acho que Emma também não saberia explicar o porquê fez aquilo, mesmo assim, não posso dizer que não gostei.

 Segurou novamente meu rosto com as duas mãos e me encarou nos olhos. Minha visão estava um pouco embaçada, mesmo assim era o suficiente.

 — Eu te amo, Andrei.

 E me beijou.

Fim?

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Toca De Humanos - Experiências (Agri)Doces Em Série , Livro 1

Pérolas Para Quem?

Todos Os Homens Do Mundo