Prato Favorito

" Esse texto é só um tipo de experiência, feito para uma dinâmica de escrita e apresentação de textos, onde o tema era 'Cozinhar'. Espero que goste e aproveite, interpretando da forma que desejar. "


 Prato Favorito


Amar. 

 O que é amar? 

 Amar é morder, cortar, rasgar; perfurar com os caninos; fazer sangrar. Sangrar e lamber dos lábios o vermelho carmesim, quente e ferroso; quente como o fogo; fogo que queima, assa e conforta. 

 Mas conforta amar? 

 E quando não conforta, por que ainda amar? 

 O doce se espalha por toda a boca, mesmo o frio, na ponta da língua, satisfaz quando se tem, no doce, o vermelho do sangue. 

 Acabe-se o doce.  

 E então mais um. 

 E mais um. 

 E mais um. 

 Até que só reste o amargor. 

 Enrola-se a língua, contorcem-se os lábios, fecha-se a garganta, embrulha-se o estomago. 

 Amargo, amargo como amar. 

 Amar porque é amargo. 

 Amargar porque deve-se amar. 

 Sentar-se numa mesa, repartir o pão. Repartir o próprio corpo. Servir numa taça, taça de cristal, a vida. 

 Coloquei-me a frente do fogão. Arranquei seus braços e pernas, temperei com cominho, canela e exagerei no sal, exagerei para que ardesse. Fiz arder pois amava. 

 Passei com delicadeza a manteiga, por toda a superfície da panela. Tornei brilhoso o ferro prateado. Deixei que esquentasse, que o fogo trabalhasse, que tornasse em óleo a borbulhar antes de lentamente deitar ali a carne. A carne, um pedaço grande, bem servido, da parte traseira da coxa. Um bife marmoreado de gordura, com finas linhas brancas que desenhavam algo junto ao musculo vermelho, era Deus. 

 A carne chiou, como um pedaço de boi, porco ou galinha. Mas era um corte de cordeiro, o cordeiro sagrado, a pessoa amada. 

 Selei com especial atenção, para que não se criassem imperfeições, queimaduras além da conta, mas sempre apareciam. 

 Coloquei sobre o corte um alecrim. Era bom para as feridas, era bom para o sabor. 

 Terminado o prato feito dos membros de minha amada, eu servi. Servi a ela meu coração, sob um prato laqueado, escuro, fosco, como se desaparecesse em si mesmo. 

 Mordi, rasguei, cortei e perfurei com os caninos a carne de minha amada. Ela fez o mesmo com meu coração. 

 Esse era o amor. 

 Trouxe de volta, o amor, seus membros. Ainda mais jovens, ainda mais fortes, ainda mais bronzeados pela luz do sol que atravessava a janela dia e noite, que brilhava intensamente até mesmo de madrugada. 

 Limpamos o sangue do canto de nossas bocas com guardanapos em formato de cisne. 

 O dela tinha formato de cisne, o meu era uma rosa. 

 Entreguei para ela a rosa, rosa branca de pano, manchada com o vermelho de seu próprio sangue. Só podia ser assim. 

 Só podiam existir rosas enquanto ela sangrasse, e eu só podia oferecê-las enquanto meu coração estivesse com ela. Dentro dela, no seu estomago, mastigado e digerido, nutrindo, amando. 

 Cheirou a rosa, tinha o meu cheiro. 

 Seu sangue cheirava a mim, cheirava como eu. 

 Seu sangue era o meu sangue. 

 Dentro dela batiam nossos corações. 

 Dentro de mim se debatiam seus membros. Como se dançassem a música do diabo. 

 Abraçamos o diabo. Amamo-nos. 

 O fizemos com intensidade, com fogo, não do inferno, fogo divino. Em meio ao diabo, em meio ao sexo, nascia Deus. 

 Nós éramos Deus. 

 Deus era nós. 

 Gozavamos das artimanhas do diabo e desse amor lascivo nascia Deus. 

 Rezamos para nós mesmos em meio ao sangue e o sêmen. 

 Éramos Deus. 

 Quando ela oferecia seus membros, eu cozinhava com carinho, com cuidado. Quando ela só podia oferecer o fígado, eu me deleitava de igual maneira. 

 Não me importava o corte de seu corpo. 

 Maior era o prazer de cozinhar. 

 De vê-la aguardar pacientemente, até que terminasse de preparar a refeição. 

 E quando eu terminava, ela devorava com vivacidade meu coração, mesmo quando ele não batia. 

 E eu chorava. 

 Chorava de felicidade. 

 Ali estava Deus. 

 Em cada mordida, cada deglutição. 

 Deus estava em nós. 

 Enquanto estávamos juntos. 

 Enquanto cozinhávamos. 

 Enquanto amávamos. 

 Nos unimos, mesmo quando o sabor era amargo. 

 E nossa união nos trazia o doce melado da fruta. 

 Nosso amor, nossos corpos, o diabo, o mundo e Deus. 

 Tudo éramos nós. 

 Enquanto cozinhávamos. 

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