Presente Obscuro - Rascunho

 "Essa história é um teste, uma experiência, uma tentativa de começo de história noir. Eu recomendo fortemente que você coloque jazz para tocar enquanto lê, tenho certeza que trará uma nova perspectiva. Boa leitura."

— Acerola


Presente Obscuro 

 

 Elysium 23/12 - 13:34 

 Natal. 

 A neve caindo, os presentes sendo empacotados, as gavetas de dinheiro das lojas de departamento se enchendo com as verdes notas molhadas com o suor de milhares de trabalhadores que querem ver suas filhas sorrirem com a boca desdentada ao rasgarem o papel e encontrarem uma nova boneca Stella exatamente igual a todas as outras, porém, com um novo vestido. 

 Durante o fim de ano, tudo para, é como se o mundo todo se curvasse a figura mítica e gordurosa do Papai Noel e seus duendes cheiradores de coca. 

 Do dia 24 até o ano novo nada é como o resto do ano. Lojas de brinquedos, padarias e a polícia tem o dobro de trabalho; já os hospitais e advogados, metade da eficiência. 

 Todos esperam deitar-se confortavelmente em uma cama quente na véspera de natal, e acordar no dia seguinte com os biscoitos magicamente devorados e os presentes misteriosamente colocados debaixo da árvore. Besteira. 

 Enquanto os cidadãos de bem dormem, o crime não descansa. Está por todos os lados, infestando as ruas como se a peste negra batesse na porta e dissesse “abre essa merda, eu estou de volta!” 

 A ineficiência da polícia obriga pessoas boas a colocarem a mão na massa, saírem nas ruas e encontrarem pessoalmente quem estuprou sua filha, porque só assim alguém vai fazer algo a respeito. 

 Eu não sou uma pessoa boa, não pretendo me fazer passar por uma. Sou apenas um cara diferente, distinto de toda essa escória que rasteja pelos becos transformando crianças em viciados e mulheres em viúvas. 

 Enquanto eu estiver aqui o crime tem motivos para não descansar. 

 

Elysium 23/12 - 17:48 

 Uma mulher falou comigo enquanto eu almoçava. Disse que mataram o filho dela porque se negou a colaborar com o crime organizado; mentira.  

 Nenhum jovem negro de 19 anos nessa cidade ousaria negar um pedido desses, sabem que é morte na certa. Eu acredito que mataram o filho dela, mas, talvez as motivações sejam outras. As lágrimas no rosto enrugado da mulher clareiam suas olheiras, não mentem, lágrimas nunca mentem, só que elas enganam.  

 Essa mulher acredita verdadeiramente que o filho dela é um santo, um mártir. 

 Não existem santos. 

 Até existem mártires. 

 Mas eles nunca são tão leais quanto parecem. 

 Decidi ajudar a mulher, cobrei metade do que geralmente peço; ela pagou adiantado, deve pensar que eu sou um anjo, esqueceu de conferir a falta das asas. 

 O nome do filho dela era Nicholas, apelido Nick. Alto, 1,87; negro; olhos castanhos; não tinha emprego, mas o cadáver encontrado sem cabeça usava tênis de marca, descuidado, exibido. 

 Tinha morrido num beco há duas quadras da rua principal, faz dois dias que os policiais limparam a área, não vale a pena perder tempo indo lá. 

 Joguei meu sanduiche de carne com queijo e rúcula fora, essa história acabou com a minha fome e o sanduiche era uma merda, é o que eu ganho por tentar lugares novos, o Chuck não me decepcionaria assim, mesmo com aquela droga gordurosa. 

 De qualquer forma, tenho que começar a reunir informações. 

 

Elysium 23/12 - 21:19 

Nancy estava sentada na minha frente, na cama de um quarto de hotel, sempre um hotel, nunca íamos as nossas casas, era mais seguro assim. 

 Existiam muitos informantes, mas nenhum era tão eficiente quanto a Nancy. 

 A verdade é que se pode dizer três fatos sobre as prostitutas: 

 1. Elas são incríveis no que fazem, são mesmo. Essas mulheres, gostando ou não do seu trabalho, são atletas do sexo, fazem isso noite e dia, sabem o que estão fazendo; não são como essas vadias de festa que abrem as pernas por um pouco de cocaína. Fazem isso para sobreviver, precisam ser as melhores, como um animal selvagem. 

 2. Nenhuma delas te ama. É claro que se você pedir, elas vão dizer isso, vão sussurrar no seu ouvido ou gritar como cabras, mas é tudo atuação. Atuar faz parte do trabalho delas, e, puta que paril, elas fazem essa merda bem melhor do que a vagabunda da Marilyn Monroe. Não importa se você pedir para elas fingirem ser sua professora, sua esposa ou sua filha; elas vão fazer, porém, no fundo, elas te desprezam. E tem razão. Essas merdas são nojentas. 

 3. Todas elas são fofoqueiras para caralho. Isso faz a maioria delas ótimas informantes, se você tiver a quantidade certa de dinheiro. Essas mulheres caminham pelas ruas o dia todo, vendo e ouvindo tudo o que acontece em cada canto dessa maldita cidade. Criminoso ou policial, elas fodem e conversam sobre seus segredos mais íntimos, e não só isso, elas contam tudo umas para as outras; todas elas sabem até mesmo quantos dedos o promotor de justiça gosta que sejam enfiados no cu dele enquanto goza, e, se um dia ele estiver disposto a colocar mais um, todas vão ficar sabendo também. 

 Mesmo assim, Nancy é especial. 

 Dizem que Nancy é retardada, eu discordo. 

 Parece que uma vez ela tirou menos de 70 num teste de QI, eu acho que ela só não gosta desse tipo de coisa. 

 Nancy é esperta, é ágil, escolhe bem as palavras e pensa antes de vomitar alguma merda suja. 

 Parece que a mãe da Nancy também era prostituta, a vagabunda tinha o apelido de “Aranha Leiteira” por que uma vez foi presa fudendo com 8 caras num beco. Atentado ao pudor não segura nem os desgraçados que mostram o pinto pra crianças no parquinho, quem dirá uma prostituta que já tinha chupado mais da metade da delegacia, incluindo algumas das policiais mulheres. 

 A Aranha, como a maioria das prostitutas era viciada em vinho barato, e, como uma parcela menor delas, usava diferentes tipos de drogas, principalmente durante a gestação, quando os hormônios estavam atacados. 

 Nancy só aprendeu a falar aos 9 anos e nunca frequentou a escola, era péssima em matemática, o que era conveniente quando os clientes não conferiam o troco. Mesmo assim, adorava ler, quando não estava fudendo por dinheiro, estava lendo; ela me disse uma vez que isso atraia a curiosidade e atenção dos homens, então eles se transformavam em clientes, mas eu sei que na verdade ela adorava aquele monte de páginas amareladas. 

 Havia uma coisa especial em Nancy além da sua inteligência e seu gosto por literatura clássica, algo que fazia dela uma informante melhor do que as outras prostitutas. 

 Por causa do abuso de substâncias de sua mãe, Nancy nasceu com vários problemas, era pálidas, frágil e magra como um cachorro de rua, sofria de escoliose e seu olho esquerdo era levemente estrábico, e, principalmente, Nancy não tinha ovários. Por causa disso, ela cobrava um pouco a mais, e, se o cliente tivesse os exames em dia, deixava que gozasse dentro. 

 Para a maioria dos homens isso era o suficiente para pagar o dobrou ou o triplo. A maioria das prostitutas sequer aceitava sexo sem camisinha, e, mesmo entre as que aceitava, nenhuma queria arriscar ter uma criança bastarda com um desconhecido que contrata prostitutas. Nenhuma exceto Nancy. 

 Os clientes que mais pagavam iam até ela, os mais perigosos, os mais conhecidos, os que causariam um alvoroço nos jornais se fossem vistos num lugar como aquele. 

 Como se não bastasse isso, Nancy era esperta, muito esperta; era atenta e focada. Não importava se estavam enfiando um caralho do tamanho de uma braça no seu canal vaginal ou se estavam apenas se masturbando de joelhos enquanto ela fingia desinteresse, Nancy sempre prestava atenção a cada detalhe. Cada rosto, cada expressão, cada fetiche, cada nome murmurado em meio ao sexo. 

 Ela era como uma enciclopédia, como a porra de um supercomputador com todo tipo de informação sobre a cidade, e, agora, estava sentada na minha frente, me encarando com curiosidade enquanto segurava uma edição amassada de “Um Estudo Em Vermelho”. 

 Sério Nancy? Sherlock Holmes? Essas merdas inventadas de detetives cavalheiros? Conan Doyle não sabia merda nenhuma da vida real, nunca viu os horrores que eu vi. 

— E então? O que vai ser? — Perguntou com um sorriso que torcia seus lábios pintados pelo batom vermelho. 

 — Preciso de você, Nancy. Dá sua ajuda. 

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