O Ódio De Clarice - Contos De Um Pobre Homem #4
" Essa história acompanha e se aprofunda no mesmo narrador dos contos anteriores, enquanto reflete um pouco sobre alguns tópicos que podem ser do seu interesse. Talvez você já tenha passado por uma situação semelhante a de um dos personagens da história, talvez você saiba o que é estar na posição de cada um deles, mas, cada experiência é individual, e esta, é a de alguém. "
— Acerola
O Ódio De Clarice.
Ódio é uma atividade trabalhosa que exige grande emprego de tempo e energia. Para gostarmos de alguém precisamos conhecê-lo, mesmo que pouco; para amar alguém é preciso aceitá-lo, mesmo que doa; para nos desagradarmos de alguém só precisamos lembrar da sua existência e escolher um motivo a seu critério. O ódio, porém, é mais complexo. Para odiarmos alguém, precisamos não somente conhecê-lo, como também aceitar (a contragosto) sua (pessoalmente) dolorosa existência, além disso, devemos escolher motivos que sejam palpáveis, mesmo que não aos olhos dos outros, mas sempre aos nossos.
Odiar nos custa grande quantidade de energia; pois, o ódio, quando genuíno, não se dá por satisfeito no afastamento, e sim na proximidade constante e crescente, que traz consigo uma espécie de tensão recorrente, típica dos sentimentos ardentes; como a paixão.
Minha amada Beatrice repudiaria a comparação anterior. Ela diria que não existe nada de semelhante no ódio e na paixão, e que, as diferenças de sentimentos tão contrastantes seriam gritantes. Beatrice jamais provia uma explicação sobre tal assunto. Apenas dizia ser óbvio, e caso eu fosse incapaz de enxergar isso (o que admito: eu era) deveria procurar por conta própria.
Nunca encontrei.
Todavia, caro leitor, se para mim a paixão e o ódio se parecem, existe, é claro, um motivo para tal.
Durante toda minha vida eu amei Beatrice de forma incomensurável.
Beatrice é, portanto, toda a minha vida; isso é, muito mais importante que qualquer outra coisa.
Existiram, porém, épocas sombrias, onde eu não podia desfrutar de sua companhia, e outras onde acreditei que nunca mais teria essa oportunidade. Por sorte (ou azar) a única vez em que estive certo sobre essa questão foi no dia em que ela morreu. Em todas as outras vezes ela retornou para mim. Como era amável.
Durante a juventude um desses desprazerosos momentos aconteceu. Beatrice se mudou para muito longe e meu coração chorava sua falta que imaginava jamais ser reconciliada.
Nessa época eu estava no colegial, cursava o segundo ano. Minhas notas sempre foram boas, mas havia caído consideravelmente desde a ida de minha amada, porém, não o suficiente para que eu tivesse que me preocupar com reprovações imediatas.
Os professores me abordavam e perguntavam o que havia de errado, os motivos do meu mau aproveitamento escolar.
Eu, é claro, respondia que só estava cansado.
Eles, em sua impotência, se sentiam obrigados a aceitar essas palavras, deixando para atrás suas declarações de preocupação.
Era uma tarde de terça-feira. Os raios de sol atravessavam as janelas da sala com vivacidade, dando uma iluminação dourada, típica do verão, a todo o ambiente.
Clarice veio até mim e bateu na mesa com sua delicada mão, de unhas feitas, pintadas com um tímido rosa claro.
Clarice era uma menina completamente normal, não era especialmente alta nem baixa, não tinha nenhum tipo de característica marcante e não usava roupas chamativas. Sua pele branca e cabelos loiros não eram desagradáveis, mas não carregavam nenhum tipo de brilho especial.
— Se você não liga para nada, o problema é seu. Mas tem muita gente que liga, então pare de atrapalhar! — Ela estava tão irritada que começava a ficar vermelha.
— O que eu fiz? — Indaguei.
— O que você NÃO fez!
— Acho que não tomei café da manhã hoje.
— Eu não me importo.
— Então o que está fazendo aqui?
— Tínhamos um trabalho em grupo e você não fez sua parte.
— Eu me esqueci. — Expliquei.
— Isso não é uma desculpa. Sete pessoas vão perder a nota por sua causa!
— O que eu posso fazer?
— Se desculpar!
— Você poderia ter feito a parte que faltava...
— Era a SUA parte!
— Eu não pedi isso.
— Pediu sim!
Eu realmente havia pedido a parte em questão, justamente por ser a pesquisa menos trabalhosa.
— Oh! É verdade...
— “Oh! É verdade.” — Clarice disse com uma voz esganiçada, tentando me provocar. — É claro, seu idiota!
— Está tudo bem. Eu vou pedir para o professor dar mais alguns dias.
— Eu duvido que isso funcione. Nós tivemos mais de um mês para fazer isso.
— Você quer apostar?
— Certo. Se você conseguir, eu faço o que quiser. Se não conseguir, você vai pedir desculpas na frente da sala, enquanto admite ser um fracassado virgem e solitário.
— De onde vieram essas conclusões cruéis?!
— Apesar de tudo, é só a verdade.
— Você não tem como saber se essas coisas são verdade!
— Elas não são?
— Não importa!
— Você vai lá ou não?
— Estou indo.
A conversa com o professor foi simples. Disse que fiquei doente, que tentei colocar mais esforço do que vinha colocando e a falta de costume consumiu meu corpo. Se ele acreditou ou não, não importava; ele nos deu mais 3 dias.
Quando contei para Clarice ela não acreditou de primeira, argumentei que não tinha motivos para fazer o trabalho em três dias se ele não fosse valer mais nada e ela deu o braço a torcer, dizendo que eu não conseguiria terminar sozinho, marcamos de ir à casa dela no dia seguinte após a aula.
Eu fui.
Ela disse que não deveríamos ir juntos pelo caminho.
Não fomos.
Cheguei e bati na porta.
Ela abriu.
Usava uma camisa branca com uma estampa que, em minha memória, fica mais embaçada à medida que tento me lembrar, e uma saia rosa que muitos diriam ser curta, eu diria ser comum. Ela também usava uma espécie de tiara rosa-clara, sem nada de especial. Se já havia se trocado significava que havia corrido na frente ou conhecia um atalho; para que não fossemos juntos eu tomei um caminho um tanto mais longo, mas cerca de dois ou três minutos seriam o suficiente? Seu cabelo estava penteado, ela nem parecia a mesma, e eu, só conseguia pensar nos caminhos das ruas.
— Você não vai falar nada da minha roupa?
— Como assim?
— Esquece...
— Tudo bem.
— Virgem.
Fiquei confuso, mas entramos e fomos para o quarto.
Toda a casa dela era bem arrumada. Apesar de ser uma casa comum, tudo estava perfeitamente limpo e simétrico; era meio assustador de certa forma. O quarto também parecia incrivelmente comum, não havia pôsteres ou revistas, nem mesmo bichinhos de pelúcia. Eu viria a descobrir mais tarde que todas essas coisas estavam escondidas.
Clarice se sentou na cadeira em frente à mesa e eu me sentei sobre a cama; era fofa e o colchão afundava muito mais que o que eu estava acostumado. Todas as mulheres dormiam sobre espumas tão moles?
— Por que você queria me mostrar a sua roupa?
— Eu não queria mostrar ela para você. Queria que você a visse...
— Eu estou confuso. Qual a diferença?
— Você é estupido.
— Por que você fica me ofendendo o tempo todo?
— Por que você fica fazendo perguntas o tempo todo?
— Você é confusa.
— Você é um idiota. Eu odeio você!
— Eu não ligo. Não me importo. Não dou a mínima.
— Idiota!
Ela veio até mim e tentou acertar meu rosto com o punho direito fechado; um soco. Eu aparei com meu antebraço enquanto abaixava a cabeça, mas ela chutou minha canela. Dei um passo para trás, sentindo a dor lancinante. Clarice continuou, dessa vez o soco acertou meu rosto. Incapaz de dizer uma palavra, eu grunhi de dor e então agarrei o braço dela e com a minha mão direita soquei sua costela, pouco abaixo da axila. A garota gemeu de dor, mas não recuou, continuou a me atacar.
A luta que se seguiu não merece ser narrada.
Clarice era muito mais fraca, e isso era visível em seus finos braços, o que a obrigou a utilizar mordidas e arranhões, que não eram suficientes para vencer um oponente como eu.
Ali estava um estudante colegial, quase um adulto, espancando com facilidade e sem piedade uma jovem moça.
Esse estudante era eu.
Eu não me orgulho disso.
Em dado momento ela simplesmente parou e começou a chorar. Eu, por minha vez, fiquei paralisado e sem reação, observando-a se apoiar na cama e enfiar a cara no colchão enquanto soluçava.
— O-o que foi? — Perguntei desconcertado; fingindo não saber o motivo.
— EU TE ODEIO!
Clarice gritou e veio em minha direção como um animal em fúria.
Eu poderia ter me defendido, eu poderia tê-la espancado novamente, mas, seu choro me fazia sentir menos culpado do que deveria, porém, mais culpado do que gostaria; o suficiente para que eu não reagisse.
Quando ela me empurrou segurei seus braços.
Caí sobre a cama;
Clarice sobre mim.
Sobre Clarice algo inexplicável.
Enquanto eu imobilizava suas mãos, evitando mais arranhões do que os que já sangravam em meu rosto e braços, a garota me encarava com raiva... não. Raiva nenhuma seria tão profunda quando o que aquele olhar expressava. O que Clarice sentia era ódio. Ódio ardente e mortal. Não o simples ódio de alguém que foi espancado, mas o ódio colérico de quem está disposto a matar e morrer.
Naquele momento eu me perguntei;
Ela sempre fora tão bela?
Ainda hoje não sei dizer se eu beijei Clarice ou se Clarice me beijou. Mas o que sei é que foi selvagem e molhado, voraz; como um ataque de crocodilo.
Nossos lábios se pressionavam com força, a ponto de doer; nossas línguas lutavam numa rebeldia sem causa, se entrelaçando com vivacidade; nossos dentes chegavam a se chocar algumas vezes em meio a tamanha violência; e nossos corpos se esfregavam sem pudores, como é típico da juventude. Eu apertava seu corpo até deixar marcas, ela me arranhava até que o sangue fluísse para fora do corpo.
Mordi o lábio de Clarice e quando o vermelho brilhante passou a escorrer pelo queixo eu lambi.
O gosto de ferro só me excitava mais, a dor fazia o mesmo com ela.
Eu era um predador, ela uma caçadora.
Como um tigre e a mira de um rifle, se buscando na relva alta.
O primeiro a pisar em falso se tornaria o jantar do outro.
Já basta.
Foi uma tarde intensa.
Isso é tudo.
Após tudo isso, passei a conversar mais com Clarice.
Nas primeiras semanas ela ainda dizia constantemente me odiar, mas quando começamos a namorar isso parou; admito que senti falta.
Os cinco meses de namoro foram maravilhosos, contudo, muito cansativos. Brigávamos todos os dias, sem falta; e só abríamos exceção quando Clarice chorava por seus problemas em casa.
Eu não a espanquei mais, ou pelo menos tentei, pois quando fazíamos sexo ela implorava por isso; eu não ousava negar.
Após os longos meses de namoro recebia a notícia de que Beatrice voltaria para a cidade, então fui sincero com Clarice. Eu amava Beatrice mais do que qualquer coisa.
Clarice chorou e suas últimas palavras antes que eu nunca mais a visse foram “eu te odeio”; ela me bateu, mas, eu não revidei; enquanto ela virava as costas e partia eu pensava: sempre fora tão linda?
Não tornei a ver Clarice.
Beatrice não gostava dessa história, e, condenava a riqueza de detalhes com a qual eu contava. As mulheres tendem a esse tipo de ciúmes bobo, não suportam saber sobre ex’s namoradas ou paixões passageiras; para elas, ser única vale mais que todo o ouro do mundo, e minha Beatrice não era diferente.
Ah! Se ela soubesse!
Ah! Se pudesse ao menos imaginar!
Que nunca;
Jamais!
Haveria alguém que eu pudesse tão fortemente amar.
Beatrice se foi, então ninguém irá me censurar por contar essa história; nem mesmo você, querido leitor.
Caramba, esse foi bom também. Selvagem, louco e romântico
ResponderExcluirOutro conto curioso é exitante.
Dessa vez tivemos algo relacionado ao próprio narrador e ao seu passado. Mas ainda quero saber mais sobre ele e esses personagens. Estou curioso e empolgados