O Fim De Todas As Coisas - Contos De Um Pobre Homem #2
" Esse conto faz parte de um projeto especial, possuindo o mesmo narrador do conto anterior (#1) e também o mesmo de alguns outros que virão. Portanto possuí camadas que serão melhor compreendidas conforme novos contos forem postados. O importante, porém, é que você aproveite a história contida aqui, independente de maiores pretensões. Obrigada por ler. "
— Acerola
O Fim De Todas As Coisas
O homem se prepara ao ano, mas não sabe que morrerá antes do dia terminar.
Provérbios... Uma classe de reflexões na qual existem somente dois tipos; os muito sábios e os completamente sem sentido. Em qual destas se encaixa o caso acima? Fica a seu critério.
Minha amada Beatrice era expert em provérbios; eu aprendi muitos por ela; mas isso não foi o suficiente para que me desse sua mão; talvez, refletir mais sobre certos provérbios me livrasse de tornar-me decrépito e solitário, sem minha amada Beatrice.
Enfim a história...
Paulo era um homem de 30 anos que aparentava quase 50; cansado, ele contava as notas, sentado à mesa. Paulo tinha muitas notas e poucos amigos, talvez nenhum; tinha uma esposa e uma filha, Rosa e Maria; tinha também três irmãos: Pedro, Thiago e João, todos com nomes de profetas, pois sua mãe havia sido uma mulher muito religiosa, temente a Deus e suas instituições financeiro-religiosas.
— É aniversário do seu irmão. — A mulher interrompeu a contagem, fazendo Paulo estalar a língua e jogar a cabeça para trás. Sentiu vontade de xingar, mas, viu a filha no canto da cozinha e não o fez.
— Não temos dinheiro para viajar, precisamos juntar dinheiro. — Explicou com notável impaciência.
— Você deveria pelo menos ligar... — Rosa insistiu.
— Não.
— Sua mãe não ficaria feliz, se estivesse viva.
— Mas não está.
O borbulhar do ensopado no fogão e os murmúrios da bronca que a boneca recebia no canto da cozinha foram os únicos sons presentes pelos próximos minutos.
Então o bater de talheres do prato;
Então a voz eloquente do apresentador do telejornal;
Então o ranger das portas do guarda-roupas;
Então os roncos de alguém;
Então o despertador;
Mais um dia.
Eram 4:37 em outro canto da cidade, o som de tiros ecoava; três corpos molhavam o chão com sangue.
Um homem de cabelos ralos e terno preto colocou a mão sobre o silenciador da pistola, era destro, segurava a arma com a mão direita e girava o silenciador com a esquerda; separou ambos e guardou num saco de pano velho e, consideravelmente, sujo, tirou as luvas de couro e colocou ali também.
Caminhou até a mesa próxima a janela, observou a maleta sobre ela por alguns segundos.
Levou as mãos aos bolsos, sacou um maço de cigarros Chesterfield Silver e um isqueiro de ferro; acendeu e tragou.
Soltou a fumaça, relaxando, e abriu a maleta.
Sorriu, satisfeito, encarando a beleza do conteúdo.
Fechou a mala e saiu pela porta da frente; não havia nenhum sinal de sangue ou poeira em suas roupas; não havia pesar ou tensão em seu olhar; não havia nada que o destacasse, era um homem comum caminhando com uma maleta comum, fumando um cigarro comum, por uma rua comum, que abandonou três corpos comuns, de homens igualmente comuns, mortos de forma comum, como é comum a todos os seres vivos.
Esse era Pôncio.
Pôncio era um homem quase comum;
A única coisa incomum em Pôncio era o fato de ser bom;
Muito bom;
Ótimo;
Pôncio era o melhor no que fazia.
Mas o que Pôncio fazia não era nada agradável.
Na casa de Paulo, ele se levantou, lavou seu rosto, se vestiu, pegou sua maleta e, sem vontade, saiu para trabalhar.
Na rua, encarou o horizonte ainda escurecido sem o sol.
3:58 pegou o ônibus,
As 5:05 desceu no centro da cidade, assim como tantos outros.
Caminhando em direção a fábrica, parou para tomar um café.
Sentou-se ao balcão, ao lado de um homem de terno e cabelos ralos, que parecia sério, mas não cansado.
Deixou a maleta ao lado da cadeira e pediu.
Enquanto esperava, fitou o homem, e, sentindo-se exausto, reclamou.
— Segunda é foda, não? — Falou com descontração.
— Sim. — O de terno respondeu.
— Você trabalha num escritório por aqui? — Perguntou.
— Não. — O de terno respondeu.
— Está passeando a esse horário? Quanta coragem. — E riu.
— Sim. — Respondeu.
— O café daqui é o melhor. — Insistiu.
— Talvez.
— Minha esposa não sabe fazer café. Fica aguado, sabe?
— Sim.
— Você tem esposa?
— Não.
— Sério?
— Sim.
— É. Mulheres podem ser um problema.
— Sim.
— Os homens sempre pensam que as mulheres são a solução, e elas só trazem mais problemas. — E riu.
— Sim.
— Eu vou indo.
— Okay.
— Adeus. — Se despediu.
— Hm. — Murmurou.
Paulo pegou a mala e partiu para a fábrica.
“Que cara antipático” pensou.
Adentrou o trabalho;
Cumprimentou o segurança, mal pago, como ele;
Retirou o casaco;
Abriu o armário;
Apoiou a maleta sobre o branco;
Abriu-a.
Fechou-a com pressa e surpresa, olhou em volta, ninguém. Abriu novamente e sorriu, impressionado.
O conteúdo da maleta reluzia e fazia seus olhos brilharem; como brilhavam os de minha amada Beatrice ao ver os lírios.
Paulo fechou a maleta e colocou o casaco.
Ao sair, não a segurava pela alça, abraçava-a como se fosse a própria filha, talvez, até mais calorosamente do que se fosse.
Se despediu do segurança com uma desculpa apressada como “estou doente, não posso trabalhar hoje”, e saiu sem olhar para trás.
Caminhando a velozes passos, fitou o balcão onde tomará café, onde tinha trocado sua maleta com aquele homem desconhecido e antipático; o homem não estava lá; Paulo sorriu.
Pegou o ônibus sem desgrudar a maleta do próprio peito, sempre procurando por qualquer suspeito que poderia tentar roubá-la de si. Felizmente, ninguém o fez.
Desceu no mesmo ponto de sempre, mas não o mesmo homem de sempre.
Caminhou, quase que correu até a porta de casa;
Rua vazia. Bom. Menos fofoqueiros.
Antes que colocasse a mão sobre a maçaneta, sentiu a ponta fria de metal em sua nuca.
— Como encontrou minha casa...? — Estava tremendo.
— Sua maleta tinha seus documentos. — Tirou, com a mão esquerda, o Chesterfield Silver da boca e soprou a fumaça.
— Eu vou devolver.
— É claro que vai.
— Não me mate. Eu tenho mulher e filha.
— Muitos homens têm.
— Por favor... — Paulo implorou.
— Aceita um cigarro? — Perguntou Pôncio.
— Eu não fumo. — Respondeu.
— Entregue a mala sem se virar.
— Pronto. — Exclamou após girar a maleta pelo corpo.
— Obrigado.
— Me deixe ir agora...
— Sabe, as pessoas dizem que eu sou o melhor no que eu faço.
— ... — Paulo ficou em silêncio.
— O que você acha?
— ...
— Responda!
— Acho que sim! Você é!
— Você está certo. E sabe por que eu sou o melhor?
— N-não...
— Eu não deixo nada pela metade.
Click.
O gatilho contraiu, ativando um sistema complexo, o qual não vale uma explicação detalhada aqui.
Minha amada Beatrice acreditava fortemente na existência de criaturas imortais ao tempo, como vampiros ou fadas; eu não compartilho de tão veemente fé, então partiremos do pressuposto que esses seres não existem; dessa forma, tudo o que existe morre, e se tudo que existe, existe porque morre, mesmo as histórias felizes onde caçadores salvam a vovozinha, ou a gata borralheira se torna a, absurdamente rica, princesa de todo um reino, acabam, na verdade, quando essas personagens enfim se vão.
Seja por azar, ganância ou destino, Paulo encontrou seu fim em Pôncio.
Mas;
Se tudo o que existe morre;
E tudo o que morre, existe porque morre;
O fim de Paulo não é diferente do de Cinderela ou Chapeuzinho Vermelho.
Um assassinato é o fim da vida, é a morte.
Mas;
A morte, querido leitor...
É o fim de todas as histórias.
não tão bizarro quanto o outro mas ainda assim, bem interessante. esse foi bom, e me prendeu legal. terminei em 10 minutos, acho que foi uma leitura fluída. a prosa aqui tá ótima também, bela finalização. os dois são muito boms. acho que tô entendendo pra onde tá indo
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