A Rosa Azul - Capitulo 3
" Aqui eu considero que a história finalmente começa de fato a andar, mas não sem antes olhar em volta e compreender um pouco melhor o cenário. Se você chegou até aqui, é provável que daqui queira continuar com mais ímpeto, e se não, tudo bem. Boa leitura. "
— Acerola
3. Raízes de Fungo
Ren esperou que Dália se trocasse, mesmo sentindo-se embaraçado manteve-se atento a escada que dava acesso ao interior do barco, o homem com a mão de gancho ou qualquer um de seus capangas poderia entrar a qualquer momento a sua procura, bem armados com cimitarras e adagas recém afiadas.
O jovem refletia sobre a atual situação.
Os modos de Dália não se pareciam com o de uma princesa, era mimada e esnobe, como a filha de um pequeno nobre, alguém que precisa provar algo para alguém. Mesmo assim, suas cobertas eram de muita qualidade, e, seu barco, mesmo que não muito luxuoso, ainda era caro, como os barcos costumam ser.
Dália havia dito que veio de Leônia, uma grande cidade de Esmerínia, um país conhecido por sua quantidade exorbitante de rios e lagos. Lá, o principal meio de transporte era fluvial, utilizando uma subespécie de lobos-raposa adaptados ao nado, grandes feras domadas que possuíam membranas entre os dedos das patas e uma capacidade respiratória invejável, que os permitia caçar no oceano como se fossem tubarões.
Esmerínia ficava quase na extremidade oposta do Círculo, considerando que Scorpio ficava em Furidamu.
O Círculo se referia à área explorada e habitada de um mundo sem limites, tinha esse nome pois todos os países 6 continentais, enormes ilhas, formavam um círculo no oceano, e, no centro, sob a água salgada, o reino submarino de Krokoa, acima das nuvens o pequeno império celestial de Magnolia.
Porém, nesse momento, outros lugares não importavam, Ren estava preso em Scorpio, e precisava trabalhar com Dália para sair o mais rápido possível.
Se perguntava por que havia aceitado e se agarrado a primeira oportunidade que apareceu em sua frente.
Seria essa uma circunstância tão favorável?
Seria a ideia de pedir ajuda em outro barco tão arriscada?
Seria a garota tão encantadora?
Sem uma resposta para as perguntas autoimpostas, Ren pensava sobre a cidade. Acreditava que, com um disfarce conseguido por Dália, conseguiria atravessar sem grandes problemas. Julgava que seus perseguidores, apesar de fortes, eram idiotas.
“Quem coloca o próprio nome numa cidade?” Indagou ironicamente.
Em Furidamu, quase todas as cidades tinham o nome do bando de ladrões que a controlasse, por isso existiam nomes ridículos como Scorpio, Serpentile, Turtle e Dragoon. Ninguém se lembrava quando essa prática grosseira e egocêntrica havia se iniciado, só se sabia que a única cidade livre deste fardo era Liz, uma metrópole onde vivia o rei, que, mesmo sem aparecer há anos, ainda mantinha os bandos de ladrões sob controle com seu imponente palácio e sua reconhecida Academia Arcana, um imponente castelo utilizado como escola e moradia por alunos de todos os países para o desenvolvimento de ciências e artes mágicas e marciais.
A Academia Arcana também era muito conhecida pela dificuldade na realização da comumente chamada “Matrícula Infernal”. Um teste de admissão que mudava anualmente, sempre composto de um complicado desafio proposto pelos professores e uma grande taxa de entrada em peças de ouro. Diziam que cada ano era mais difícil do que o anterior, contudo, não aceitavam nenhum tipo de público externo, então não dá para confiar totalmente nisso. Mesmo assim, se Dália estava preparada para enfrentar tudo isso deveria realmente ser uma nobre, deveria ser habilidosa, tão habilidosa quanto era bela. Será que suas pernas delicadas aguentariam correr campos inteiros? Será que ela suportaria ver a pele branca de seus braços manchada com sangue de feras e ladrões? Seus cabelos dourados sujos de terra... Seus olhos rubros carregados de fúria... Suas curvas se movendo graciosamente pelo campo de batalha... Como seria o teste?
Antes que Ren pudesse ponderar mais sobre os possíveis desafios impostos no futuro teste de Dália a porta se abriu.
— Vista isso. — Ordenou a menina enquanto jogava uma capa marrom-escura sobre Ren.
— Esse é o disfarce? — O jovem debochou.
— Você tem algo melhor? — Buffou.
— Certo. Você venceu.
Ren vestiu a capa e cobriu a cabeça com o capuz, Dália retirou do quarto outra exatamente igual e fez o mesmo.
— Podemos ir? — Ela indagou.
— Claro. — Acenou com a cabeça e começou a andar em direção a saída quando foi segurado pela manga.
— Ren... — Era praticamente um sussurro.
— O que foi?
— Por favor. Cuida de mim.
Dália estava de cabeça baixa, sua voz soava fraca e seus dedos seguravam suavemente a capa de Ren.
— Pode deixar. É só vir comigo. — Ren sorriu e acenou confiantemente com a cabeça.
— Promete?... — Sua voz era chorosa.
— Eu prometo!
Não sabia qual parte do seu corpo falava mais alto, só sábia que gostaria de cumprir sua promessa.
Ambos saíram do barco e de cabeça baixa iniciaram sua travessia pela cidade, tentando não chamar atenção indesejada.
Virando em vielas sujas e ruas movimentadas, Dália se sentia enjoada com o cheiro de comida estragada e suor, se assustava quando mendigos desesperadamente se curvavam em sua direção, pedindo esmolas, fazia menção a compra de uma briga justa quando alguém esbarrava nela, jogando seu pequeno corpo de um lado para o outro, Ren a segurava pelo braço quando era jogada para longe e pela cintura quando chegava ao ponto de cair no chão. Dessa forma, após mais de duas horas de caminhada apressada, estavam a algumas ruas da saída da cidade quando o jovem avistou o homem com um gancho no lugar da mão.
— O chefe vai arrancar a cabeça de todos vocês, inúteis! — Gritava com os dois capangas que o seguiam.
Num reflexo, Ren empurrou Dália para a esquina mais próxima, porém, quando tentou segui-la uma barreira de duas camadas de pessoas caminhando impassíveis se formou.
“Droga” ele sussurrou para si mesmo e correu na direção contrária, se escondendo num beco a alguns metros de distância.
Sabia bem como deve-se esconder-se em Scorpio. Prendeu a respiração e se encolheu e entre as paredes tanto quanto pode.
Tentava espiar a rua, mas virou-se quando ouviu um barulho no fim do beco.
Temendo que mais alguém se sentisse disposto a investigar, ele adentrou mais fundo.
Havia uma pessoa de longos cabelos brancos bagunçados revirando o lixo.
— Ei, dá para parar? — Ren fez o pedido-ordem.
— Deus... — Disse numa voz rouca.
A pessoa (pessoa?) virou-se. Parecia uma mulher usando um vestido branco, porém, não tinha um de seus braços, ao invés do membro direito havia grandes raízes vermelhas que se esticavam em todas as direções, além disso, seu braço esquerdo inteiro era tomado por grandes olhos vermelhos que giravam, observando tudo, inclusive Ren. No peito, sobre o vestido, existia o desenho de um olho em tinta preta; na cabeça um grande chapéu pontudo, vermelho com sobressalências brancas, parecido com um grande cogumelo, e seus rosto estava coberto com uma máscara com desenhos rústicos de dois olhos vermelhos, um em cima e outro em baixo.
— Quem é você? — O garoto deu um passo para trás, mas parou, lembrando de seus perseguidores.
— Deus está nos observando. Deus está nos julgando. — Disse a criatura.
— Do que você tá falando? — Ren olhava em volta, procurando uma rota de fuga que não o levasse para um destino ainda pior.
— Você tem um papel. Cumpra seu destino. — Falou e chutou alguma coisa na direção de Ren, que deu um pulo, assustado.
— Como assim? — Ele perguntou e depois se voltou ao objeto no chão. Era uma espada de aço negro, na guarda havia o símbolo de um olho e a espada estava quase toda recoberta por uma espécie de fungo esponjoso, branco e luminescente. — Ein?
Quando ele se voltou novamente para a criatura, nada mais estava ali.
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