A Rosa Azul - Capitulo 2

 " Esse capitulo é o que realmente da inicio a aventura, mesmo que de forma aparentemente simplista. Inicialmente ele era maior, mas, decidi que seria melhor dividir e manter capítulos mais curtos. Não o considero especialmente genial, porém, acredito que sirva de base para os primeiros passos da história em direção as suas temáticas mais complexas. Dito isso, talvez ele seja reescrito algum dia. "

 — Acerola

2. Uma Dália

 Entre os sábios a dália é considerada uma flor importante por suas capacidades medicinais, entre os supersticiosos (muitos também sábios) é vista como símbolo de novos começos. 

 Observe a colocação da frase, a escolha de palavras, a semiótica do conhecimento. 

 “Novos começos” poderia ser lido como “mudança”. 

 Poderia? 

 Mudança significa uma alteração visível, um abalo perceptível no estado de coisas. Um novo começo seria uma mudança, porém, nem todas as mudanças seriam um novo começo. 

 “Novo” significa que é algo que não foi experienciado antes, inédito. 

 “Começo” significa, principalmente, que algo foi encerrado, dando início a uma história de características distintas. 

 Um novo começo... 

 Uma dália. 

 Significava não somente uma mudança na arriscada vida de Ren, e sim uma transformação profunda. 

 — Cadê esses guardas inúteis? — A menina se abaixou, pegando as cobertas do chão e se enrolando, cobrindo a cabeça, deixando somente seu rosto a mostra, escondendo seu corpo só de camisola. 

 — Olha, será que não dá para a gente conversar um pouco? — Perguntou Ren. 

 Ela olhou para a adaga na mão dele e se encolheu. 

 — Guard- — Gritaria novamente, contudo, apertou os olhos e abraçou o corpo num gemido quando Ren jogou com cuidado a adaga aos pés dela. 

 — Podemos conversar? — Indagou novamente. 

 — Certo... — Concordou com os olhos marejados. 

 — Eu me chamo Ren Liddel, qual é o seu nome? 

 — Dália... Dália Sphynxel. 

 Dália era uma jovem moça que aparentava seus 18 anos, era baixa e tinha cabelos louros bem cortados, seus olhos, dotados de uma íris vermelho vivo, eram grandes e brilhantes. A franja caia sobre a testa e o cabelo parecia perfeitamente arrumado mesmo que tivesse acabado de acordar em desespero, característica que causava inveja em outras jovens, que gastavam horas penteando e finalizando seus cabelos antes de ousar abandonar o quarto e mostrar ao mundo suas beldades. 

 — Desculpe por invadir seu barco... e o seu quarto. — Ren sorriu, como se já tivesse sido perdoado. 

 — Diga logo o que está fazendo aqui! — Bufou a menina. 

 — Eu só estava procurando uma forma de sair da cidade. Você pode me dar uma carona? Eu pago. 

 — Por que não pegou um navio de transporte comum? 

 — Meio que tive alguns problemas... 

 — Você é um criminoso invasor de quartos, não é?! Sai por aí invadindo o quarto de donzelas para observar seus corpos enquanto elas dormem e agora está sendo caçado por isso! — Dália apontou para Ren vigorosamente. — Eu não posso deixar você sair impune! 

 — Não! Não é nada disso! — Ele olhou para os lados, preocupado que alguém tivesse escutado e acreditado em tal acusação. Não havia mais ninguém no quarto. 

 — Então o que é? 

 — Eu tive um problema com uma bolsa de moedas... 

 — Você é um ladrão? 

 — Não! Digo... Não exatamente... 

 — Eu sabia, todos nessa cidade são criminosos. 

 — Isso foi absurdamente preconceituoso! — Dália apenas cruzou os braços, fechou os olhos e fez um “humpf”, Ren preferiu ignorar. — De qualquer forma, pode me ajudar por favor? Eu já disse que posso pagar. 

 — Talvez... — A menina deu um sorriso de satisfação, como se tivesse vencido um difícil debate intelectual. 

 — Talvez? 

 — Eu sou uma nobre da grande família Sphinxel, não preciso da sua esmola! — O jovem, ao ouvir essa frase, expressou sua enorme confusão com um leve tapa na própria testa. — Mas talvez você possa ser útil. 

 — Vai direto ao ponto. O que você quer? 

 — O único motivo para eu vir a um lugar como esse é que eu tenho algo importante para resolver... 

 — Importante? 

 — Muito importante! 

 — E o que é? 

 — Eu preciso ir até Liz, do outro lado do continente. 

 — Uma nobre indo para Liz? Você vai para a... 

 — Academia Arcana! Isso mesmo. 

 — Isso é ótimo, mas, então esse barco não está de saída né? Adeus. — Ren se virou e colocou a mão sobre a maçaneta. 

 — Pera ai! Pera ai! Eu não terminei de falar... — Dália soltou a coberta e correu, segurando o braço dele. 

 — Certo... Fala. — Suspirou. 

— Eu preciso de alguém para me ajudar a atravessar o deserto... — Seus lábios tremiam e seus olhos, já cheios de lágrimas, atingiam a alma de Ren, o fazendo ceder. 

 — E o que eu ganho com isso? 

 — As aulas só começam daqui a 6 meses. Então, depois que eu fizer a matrícula, vou voltar para casa, em Leônia. Você pode ir comigo, no meu barco! 

 — É mais fácil se eu só pagar outro barco com o dinheiro que tenho... — Colocou a mão no bolso, buscando as moedas de platina, não encontrou nada. Em desespero, começou a apalpar todos os bolsos, não havia nada. — Que roteiro ridículo! — Vociferou. 

 — Você vai ou não? 

 — Eu vou. Porém, o deserto é perigoso, eu também quero 25 peças de platina para valer o risco. — Ren cruzou os braços, não tinha interagido com muitos nobres, contudo, os poucos que teve a chance de conversar o ensinaram uma coisa: sempre cobre muito mais caro do que deveria. Eles sempre pagam. 

 — Combinado! — Disse animada. 

 — Combinado. — Sorriu satisfeito. 

 — Vamos te arranjar um disfarce, para sairmos dessa cidade, e então partimos! 

 — Posso fazer uma pergunta? 

 — Claro. 

 — Por que não vai com seus guardas? 

 — Eu... não tenho guardas. 

 Ren suspirou e olhou dos pés à cabeça de Dália. A camisola revelava suas curvas pouco acentuadas, suas pernas eram lisas e brancas, pareciam mais macias do que qualquer coisa que já tivesse tocado, seus joelhos não tinham calos ou cicatrizes como os de todas as outras mulheres que conhecia. Sua expressão vivida de felicidade a enfeitava com um ar infantil e inocente, parecia como uma pintura. 

 Dália puxou rapidamente o cobertor do chão e escondeu o corpo, sua expressão se alterou para um misto de vergonha e raiva, seu rosto estava completamente ruborizado. 

 — É melhor eu esperar do lado de fora do quarto enquanto você se troca... — Ren desviou o olhar tentando esconder as bochechas vermelhas e saiu do quarto com pressa. 

 Ao sair desfez sua mascará de negociador sagaz e buscou controlar a respiração descompassada, então recostou-se numa das paredes de madeira do barco e refletiu. 

 Uma nobre de Esmerínia; 

 A Academia Arcana; 

 O deserto de Liz; 

 Todas eram coisas grandes demais para um rato de Scorpio. 

 Grande de mais para ele. 

 Havia encontrado de colhido uma Dália. Mesmo que ainda houvesse pessoas atrás da sua cabeça, esse era um novo começo. 

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