Suicide Messiah - Rascunho (2/2)

 "Essa é a continuação da história (como diz o titulo); seria o segundo terço deste conto e admito ser uma versão sujeita a mudanças. Acredito que existam imperfeições nessa parte em especial, mas a deixo aqui, sujeita a criticas e elogios, enquanto trato de continuar minha jornada artistica. Boa leitura"

— Acerola.

Capitulo 2
 O carro seguia em frente, os pneus giravam sobre o asfalto duro, o balanço era confortável, ignorando alguns buracos. Através da janela as árvores iam ficando para trás, eu não sabia a qual velocidade seguíamos, eu diria que uns 80km/h, mas não ousei virar a cabeça e conferir no medidor. No rádio tocava uma música clássica, que até então eu não sabia, porém viria a descobrir que era a Nona Sinfonia de Beethoven. 

 — Não dorme agora, estamos chegando. — Disse o homem no volante. 

 Apenas acenei com a cabeça, não importa se ele viu ou não a resposta. 

 Terno preto, camisa branca, gravata vermelha com um broche uma espécie de urso-leão-alado de anime; cabelos negros e bem penteados, com gel para garantir o formato; o relógio em seu pulso não funcionava mais, mas não se atrevia a sair sem ele. “um homem sério sempre tem um relógio de pulso”, repetia quando perguntado o sentido daquilo. Gregor era um empresário sério, ou ao menos dizia ser. Eu me pergunto que tipo de empresário sério resolve viajar 5 horas de carro com um jovem desempregado numa terça-feira no meio de abril. 

 — O que viemos fazer aqui? — Suspirei pesadamente enquanto abria a porta do carro agora estacionado. 

 — Trabalho. 

 — Que tipo? 

 — O de sempre. 

 — Que papo é esse de “o de sempre”? A gente só trabalhou junto uma vez. 

 — Não. Você trabalhou. Eu já tenho trabalho demais, não posso ficar resolvendo problemas de jovens-com-uma-quantidade-exorbitante-de-tempo-livre como você. 

 — Me chama logo de vagabundo que vai doer menos! — Apertei os olhos como se fosse chorar. Não chorei. Ele não ligou. 

 — Isso seria uma ofensa aos vagabundos. — Mantinha os olhos numa pasta cheia de papéis, procurando algum específico. 

 — A gente veio aqui para você me ofender? — Cruzei os braços. 

 — Não tenho tempo para isso, infelizmente. — Explicou com calma e frieza absurdas! 

 — “Infelizmente”? 

 — De qualquer forma; como se sente? 

 — Normal. Acho que um pouco letárgico pela viagem. 

 — Nada de estranho? — Encontrou o que procurava e finalmente me encarou. 

 — O que eu deveria estar sentindo? — Indaguei. 

 — Eu tenho coisas para resolver, comece a investigar. 

 — Sem resposta? 

 Gregor apenas se virou e partiu, sumindo numa esquina próxima. Eu me perguntava o que deveria investigar, parado no lugar. Então um gato adulto, de pelos alaranjados, começou a se esfregar na minha perna. Eu sorri e acariciei sua cabeça. Quando me abaixei para isso, percebi que havia uma grande quantidade de gatos naquela rua, talvez 13 ou 14, sem contar o que pressionava a cabeça contra a minha mão, exigindo mais carinho. 

 Sussurrei uma desculpa para o pequeno felino e parti. Caminhando pela calçada a pouca quantidade de pessoas me incomodava; mesmo sendo uma cidade pequena, ainda me pareciam ter menos pessoas do que casas. Eu me sentia estranho, mas alguns sorrisos e cumprimentos dos cidadãos que passavam me fizeram sentir mais confortável em investigar pela cidade. 

 A cada rua que eu virava uma nova matilha de gatos estava presente. Alguns fugiam ao me ver, outros olhavam atentos e alguns, mais curiosos, vinham até mim, o que me fazia sorrir. Parecia que a cidade toda era a enorme casa de uma velha solteirona. 

 Após longos minutos de andança me deparei com uma peixaria e uma corrente elétrica disparou no meu cérebro; ainda não tinha encontrado nada relevante fora a enorme quantidade de gatos, mas era isso o que me ajudaria. O plano já nasceu pronto no fundo do meu cérebro; ou melhor, foi concebido, seria parido agora. 

 — Boa tarde. — A senhora da peixaria exclamou assim que eu adentrei a loja e então, com um cutelo, arrancou a cabeça de um peixe sobre a mesa, ela não dobrava os dedos e nem fazia cálculos, também parecia muito mais satisfeita com seu emprego do que eu jamais fui, reparei. 

 — Boa tarde. — Sorri meio sem jeito. 

 — Veio visitar alguém? — Ela perguntou enquanto analisava o corte que havia feito. 

 — Ah, não. Apenas acompanhar um amigo que veio a trabalho. — Expliquei. 

 — Ele é cozinheiro? — Voltou o olhar para mim. 

 — Acho que não. — Eu realmente não tinha como saber, talvez tivesse sido em algum momento da vida, ele era bem metódico. 

 — Então por que está aqui? 

 — Essa cidade está cheia de gatos de rua, eu pensei em alimentar alguns. 

 — Oh, a Constanze fazia isso sempre. Que Deus a tenha. — E fechou os olhos de forma solene. 

 — Perdão. Ela se foi recentemente? — Inquiri, tentando não parecer animado por ter encontrado algo. 

 — Sim, apenas três dias. 

 — Meus pêsames. Posso saber do que ela morreu? — Ela me olhou desconfiada e eu cocei a nuca, sentindo que havia cometido um grande erro. 

 — Ela se matou. 

 Naquele momento meu corpo congelou, senti um forte aperto no peito e inspirei profundamente. Aquilo era incômodo por si só, mas ela, ainda por cima, não aparentava nenhum pesar enquanto falava. A expressão solene ao falar da amiga rapidamente se transformou num leve sorriso ao explicar a causa. 

 Senti vontade de vomitar, mas segurei. 

 — Sinto muito... 

 — Tudo bem. Ela pelo menos manteve o rosto reconhecível. A Carlota, na semana passada, teve que ser caixão fechado. — Meneou a cabeça e riu como se estivesse contando uma piada. 

 — Duas mortes em poucos dias... — Pensei alto enquanto olhava para o chão. 

 — Duas? Ah não, querido. Foram 15 na semana passada. 

 — Quinze pessoas morreram em menos de duas semanas?... 

 — “Morreram” é coisa de quem sofre acidente. Elas se mataram, escolheram isso. — Dessa vez parecia estar me dando um sermão. 

 Levei a mão até a boca e contive a ânsia de vomito mais uma vez. 

 — Duas sardinhas apenas, por favor... — Pedi levantando os dedos, indicando a quantidade. 

 — Claro. — Sorriu, enrolou duas sardinhas em papel e me entregou 

 — Obrigado. — Agradeci enquanto mantinha os olhos no chão. 

 — Volte sempre. 

 Saí da loja e comecei a desenrolar o peixe, notei que; apesar de ser uma peixaria, a quantidade de gatos em frente era bem baixa, apenas três, sendo que havia muito mais ao fim da rua. 

 Coloquei o peixe no chão, evitando me distrair com coisas inúteis, meu dedo indicador tocou uma das escamas enquanto posicionava o papel. Muito gatos começaram a se aproximar rapidamente, e um gato branco com manchas pretas... ou seria preto com manchas brancas?... e olhos verdes, lambeu meu dedo que havia se sujado com a umidade da sardinha. Fiz um carinho na cabeça dele com a palma e saí enquanto se alimentavam. 

 Por mais que não tivesse nada muito conclusivo, imaginei que os fatos que eu tinha eram importantes o suficiente para falar com Gregor, então passei a procurá-lo, resmungando alguns xingamentos enquanto lembrava que ele não havia me dito onde estaria. 

 No meio do caminho; se é que se pode chamar uma caminhada sem rumo de “caminho”, avistei uma casa que parecia abandonada, as paredes e portão destruídos, janelas em cacos, fungos e mato para todos os lados. Decidi entrar. 

 Ao empurrar o portão para conseguir passar, um pedaço de ferro retorcido e afiado cortou meu dedo indicador, que logo levei até a boca. Desde criança as pessoas tendem a levar pequenos machucados até a boca, na esperança que melhorem mais rapidamente, eu não abandonei esse costume.  

 Investiguei a casa por algum tempo enquanto chupava meu dedo. Não havia nada, tudo tinha sido roubado, retirado, vendido ou qualquer coisa assim. Era apenas uma estrutura prestes a cair na primeira brisa que coincidentemente passasse por ali. 

 Frustrado eu saí por um buraco no muro, contrário ao portão que entrei. Caminhei por mais algum tempo e encontrei Gregor encostado no carro, fumando um fedorento cigarro. 

 — Você não vai acreditar... — Eu disse, colocando a mão na testa e suspirando. 

 — No que? — Ele parecia completamente desinteressado, como se me julgasse incapaz de conseguir uma informação relevante. 

 — Tem alguma coisa acontecendo aqui. 

 — É. Eu sei. Já descobri tudo. 

 — Você já descobriu o porquê as pessoas estão se matando? 

 — Se matando? 

 — Sim. 15 pessoas em nove dias. 

 — Quanta gente... 

 — O que você descobriu então? 

 — Tem um vampiro nessa cidade. 

 “Isso é pior do que eu pensava.” Dissemos em uníssono. 

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