Suicide Messiah - Rascunho (2/2)
"Essa é a continuação da história (como diz o titulo); seria o segundo terço deste conto e admito ser uma versão sujeita a mudanças. Acredito que existam imperfeições nessa parte em especial, mas a deixo aqui, sujeita a criticas e elogios, enquanto trato de continuar minha jornada artistica. Boa leitura"
— Não dorme agora, estamos chegando. — Disse o homem no volante.
Apenas acenei com a cabeça, não importa se ele viu ou não a resposta.
Terno preto, camisa branca, gravata vermelha com um broche uma espécie de urso-leão-alado de anime; cabelos negros e bem penteados, com gel para garantir o formato; o relógio em seu pulso não funcionava mais, mas não se atrevia a sair sem ele. “um homem sério sempre tem um relógio de pulso”, repetia quando perguntado o sentido daquilo. Gregor era um empresário sério, ou ao menos dizia ser. Eu me pergunto que tipo de empresário sério resolve viajar 5 horas de carro com um jovem desempregado numa terça-feira no meio de abril.
— O que viemos fazer aqui? — Suspirei pesadamente enquanto abria a porta do carro agora estacionado.
— Trabalho.
— Que tipo?
— O de sempre.
— Que papo é esse de “o de sempre”? A gente só trabalhou junto uma vez.
— Não. Você trabalhou. Eu já tenho trabalho demais, não posso ficar resolvendo problemas de jovens-com-uma-quantidade-exorbitante-de-tempo-livre como você.
— Me chama logo de vagabundo que vai doer menos! — Apertei os olhos como se fosse chorar. Não chorei. Ele não ligou.
— Isso seria uma ofensa aos vagabundos. — Mantinha os olhos numa pasta cheia de papéis, procurando algum específico.
— A gente veio aqui para você me ofender? — Cruzei os braços.
— Não tenho tempo para isso, infelizmente. — Explicou com calma e frieza absurdas!
— “Infelizmente”?
— De qualquer forma; como se sente?
— Normal. Acho que um pouco letárgico pela viagem.
— Nada de estranho? — Encontrou o que procurava e finalmente me encarou.
— O que eu deveria estar sentindo? — Indaguei.
— Eu tenho coisas para resolver, comece a investigar.
— Sem resposta?
Gregor apenas se virou e partiu, sumindo numa esquina próxima. Eu me perguntava o que deveria investigar, parado no lugar. Então um gato adulto, de pelos alaranjados, começou a se esfregar na minha perna. Eu sorri e acariciei sua cabeça. Quando me abaixei para isso, percebi que havia uma grande quantidade de gatos naquela rua, talvez 13 ou 14, sem contar o que pressionava a cabeça contra a minha mão, exigindo mais carinho.
Sussurrei uma desculpa para o pequeno felino e parti. Caminhando pela calçada a pouca quantidade de pessoas me incomodava; mesmo sendo uma cidade pequena, ainda me pareciam ter menos pessoas do que casas. Eu me sentia estranho, mas alguns sorrisos e cumprimentos dos cidadãos que passavam me fizeram sentir mais confortável em investigar pela cidade.
A cada rua que eu virava uma nova matilha de gatos estava presente. Alguns fugiam ao me ver, outros olhavam atentos e alguns, mais curiosos, vinham até mim, o que me fazia sorrir. Parecia que a cidade toda era a enorme casa de uma velha solteirona.
Após longos minutos de andança me deparei com uma peixaria e uma corrente elétrica disparou no meu cérebro; ainda não tinha encontrado nada relevante fora a enorme quantidade de gatos, mas era isso o que me ajudaria. O plano já nasceu pronto no fundo do meu cérebro; ou melhor, foi concebido, seria parido agora.
— Boa tarde. — A senhora da peixaria exclamou assim que eu adentrei a loja e então, com um cutelo, arrancou a cabeça de um peixe sobre a mesa, ela não dobrava os dedos e nem fazia cálculos, também parecia muito mais satisfeita com seu emprego do que eu jamais fui, reparei.
— Boa tarde. — Sorri meio sem jeito.
— Veio visitar alguém? — Ela perguntou enquanto analisava o corte que havia feito.
— Ah, não. Apenas acompanhar um amigo que veio a trabalho. — Expliquei.
— Ele é cozinheiro? — Voltou o olhar para mim.
— Acho que não. — Eu realmente não tinha como saber, talvez tivesse sido em algum momento da vida, ele era bem metódico.
— Então por que está aqui?
— Essa cidade está cheia de gatos de rua, eu pensei em alimentar alguns.
— Oh, a Constanze fazia isso sempre. Que Deus a tenha. — E fechou os olhos de forma solene.
— Perdão. Ela se foi recentemente? — Inquiri, tentando não parecer animado por ter encontrado algo.
— Sim, apenas três dias.
— Meus pêsames. Posso saber do que ela morreu? — Ela me olhou desconfiada e eu cocei a nuca, sentindo que havia cometido um grande erro.
— Ela se matou.
Naquele momento meu corpo congelou, senti um forte aperto no peito e inspirei profundamente. Aquilo era incômodo por si só, mas ela, ainda por cima, não aparentava nenhum pesar enquanto falava. A expressão solene ao falar da amiga rapidamente se transformou num leve sorriso ao explicar a causa.
Senti vontade de vomitar, mas segurei.
— Sinto muito...
— Tudo bem. Ela pelo menos manteve o rosto reconhecível. A Carlota, na semana passada, teve que ser caixão fechado. — Meneou a cabeça e riu como se estivesse contando uma piada.
— Duas mortes em poucos dias... — Pensei alto enquanto olhava para o chão.
— Duas? Ah não, querido. Foram 15 na semana passada.
— Quinze pessoas morreram em menos de duas semanas?...
— “Morreram” é coisa de quem sofre acidente. Elas se mataram, escolheram isso. — Dessa vez parecia estar me dando um sermão.
Levei a mão até a boca e contive a ânsia de vomito mais uma vez.
— Duas sardinhas apenas, por favor... — Pedi levantando os dedos, indicando a quantidade.
— Claro. — Sorriu, enrolou duas sardinhas em papel e me entregou
— Obrigado. — Agradeci enquanto mantinha os olhos no chão.
— Volte sempre.
Saí da loja e comecei a desenrolar o peixe, notei que; apesar de ser uma peixaria, a quantidade de gatos em frente era bem baixa, apenas três, sendo que havia muito mais ao fim da rua.
Coloquei o peixe no chão, evitando me distrair com coisas inúteis, meu dedo indicador tocou uma das escamas enquanto posicionava o papel. Muito gatos começaram a se aproximar rapidamente, e um gato branco com manchas pretas... ou seria preto com manchas brancas?... e olhos verdes, lambeu meu dedo que havia se sujado com a umidade da sardinha. Fiz um carinho na cabeça dele com a palma e saí enquanto se alimentavam.
Por mais que não tivesse nada muito conclusivo, imaginei que os fatos que eu tinha eram importantes o suficiente para falar com Gregor, então passei a procurá-lo, resmungando alguns xingamentos enquanto lembrava que ele não havia me dito onde estaria.
No meio do caminho; se é que se pode chamar uma caminhada sem rumo de “caminho”, avistei uma casa que parecia abandonada, as paredes e portão destruídos, janelas em cacos, fungos e mato para todos os lados. Decidi entrar.
Ao empurrar o portão para conseguir passar, um pedaço de ferro retorcido e afiado cortou meu dedo indicador, que logo levei até a boca. Desde criança as pessoas tendem a levar pequenos machucados até a boca, na esperança que melhorem mais rapidamente, eu não abandonei esse costume.
Investiguei a casa por algum tempo enquanto chupava meu dedo. Não havia nada, tudo tinha sido roubado, retirado, vendido ou qualquer coisa assim. Era apenas uma estrutura prestes a cair na primeira brisa que coincidentemente passasse por ali.
Frustrado eu saí por um buraco no muro, contrário ao portão que entrei. Caminhei por mais algum tempo e encontrei Gregor encostado no carro, fumando um fedorento cigarro.
— Você não vai acreditar... — Eu disse, colocando a mão na testa e suspirando.
— No que? — Ele parecia completamente desinteressado, como se me julgasse incapaz de conseguir uma informação relevante.
— Tem alguma coisa acontecendo aqui.
— É. Eu sei. Já descobri tudo.
— Você já descobriu o porquê as pessoas estão se matando?
— Se matando?
— Sim. 15 pessoas em nove dias.
— Quanta gente...
— O que você descobriu então?
— Tem um vampiro nessa cidade.
“Isso é pior do que eu pensava.” Dissemos em uníssono.
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