Diário De Um Gato

 " Essa postagem é um pequeno fragmento de uma história que fiz há muito tempo atrás. Bug foi o nome escolhido inspirado no meu gatinho que infelizmente faleceu; por isso tenho carinho especial por esse texto, como se conseguisse sentir e ouvir ele ronronando no meu colo enquanto eu escrevo, como foi no dia em que escrevi. Anos se passaram, e a ideia dessa história ainda me é atrativa, mas, é de teor amargo e me fragiliza só de pensar. Se um dia continuarei, ou se, por um milagre, terminarei... Só o tempo dirá. "


Diário De Um Gato

 Seja bem-vindo, seja você um gato, cachorro, humano ou qualquer outra coisa. Essa é uma pequena história sobre um gato, o mais belo, macio e esperto gato que já existiu. Esta é a minha história. 

 Comecemos pelo começo. 

 Eu me lembro como se fosse ontem, apesar de não me lembrar de como cheguei lá. Era apenas um filhote, ainda com pelagem rala e pequeno como um ratinho (apesar de não tão saboroso quanto um), estava preso numa caixa, naquela época eu não sábia o quão divertidas elas podiam ser, e naquele momento não era nada divertido. Como qualquer gatinho tão novo, eu tremia de medo e frio, tinha saudades da minha mãe, a qual nunca mais tornei a ver, mas tudo bem, as coisas estavam prestes a mudar. Miava em desespero, implorando por ajuda, e o Deus dos gatos ouviu minhas preces, a caixa foi aberta e pela primeira vez eu a vi, minha amada dona! Seus cabelos pretos, naquela época eram curtos e ela vestia um grande casaco, afinal estava congelando. 

 — Você está sozinho? Quem foi a pessoa horrível que te abandonou aqui nesse frio? — Ela disse, ou eu acho que disse... Naquela época eu não entendia bem a língua dos humanos, mas sei que foi algo parecido com isso. Apenas miei em total desespero, afinal eu não a conhecia ainda, mesmo assim ela me pegou em seu colo e me abraçou, numa tentativa vã de me aquecer. — Seu nome vai ser Bug! — Ela disse e sorriu. “Bug” é o meu nome, e eu tenho quase certeza de que significa “cinza”, pois essa é a cor de meus pelos, então foi a primeira coisa que ela pensou ao me ver. 

 Corremos, ou melhor, ela correu e eu permaneci em seus braços, até chegarmos em casa; um pequeno apartamento com a janela bem alta, coisa que os humanos chamam de “4° andar”, era a primeira vez que eu estava ali então parecia até muito grande, para um filhote então, parecia ainda maior. Fechou a porta, tirou o casaco e foi até a cozinha; fiquei ali parado, sem saber o que fazer, minha dona então trouxe uma caixa e me serviu leite num pequeno pote. Claro que tomei com muito gosto e pressa, mas não sem pisar na borda e virar tudo no chão, me molhando no processo, ela riu e continuou rindo enquanto me limpava e em seguida o chão. 

 — Eu sou Alice e essa é sua nova casa. — Me acariciava enquanto falava. — Eu tenho umas coisas para fazer então você pode explorar. — Apenas miei sem saber o que se passava, ela então foi até o quarto e logo voltou com uma blusa de lã, me colocou em cima e foi pra cozinha, provavelmente se alimentar. Eu, é claro, fui logo explorar o local, adentrando frestas pelas quais hoje em dia eu não consigo mais passar, a casa era limpa e arrumada, mas tinha um leve cheiro estranho, que mais tarde eu fui conhecer como o de uma coisa que os humanos chamam de “fritura”. Depois de um tempo voltei até o canto onde estava a blusa de lã, não havia encontrado nenhuma areia em minha exploração, então coloquei as patas sobre o tecido, abri as pernas, fechei os olhos e relaxei enquanto urinava. Quando terminei, fui até o sofá e escalei com certa dificuldade, me curvei e encolhi, logo adormecendo. 

 — BUG!!! — Acordei num susto, olhei para ambos os lados e bocejei. Alice veio até mim com a peça de lã nas mãos, ela provavelmente estava muito brava, mas eu não compreendia isso antes. — Não acredito que você fez xixi na minha blusa! — Suspirou e foi até o banheiro, onde deixou a roupa no cesto. — Amanhã eu compro uma caixa de areia. — Disse e coçou os olhos enquanto bocejava. — Vou tomar um banho e então vamos dormir. — Me pegou no colo e levou até o quarto, fiquei em cima da cama enquanto ela se despia e depois caminhava até o banheiro, que antes estava totalmente fechado, era a primeira vez que eu o via aberto, então logo que vi minha dona entrando pulei para o chão e corri até lá, apenas para dar de cara na madeira da porta, que havia sido fechada. Tentei arranhar algumas vezes, mas nada aconteceu, ela não se abriu, então fiquei ali parado, encarando-a até cansar, quando enfim me deitei ali mesmo. 

 Depois de alguns longos minutos, a porta se abriu e eu me levantei na mesma hora e logo tentei entrar, mas antes fui acertado por um enorme pé (na época era enorme para um gatinho como eu era) e caí para trás, a porta se fechou. 

 — Ai meu Deus! Me desculpa Bug, não vi que você estava aqui. — Me pegou nas mãos e esfregou a bochecha úmida contra meu rosto. — Estava me esperando? Se sentiu sozinho? — Deu uma risadinha e fomos pro quarto, onde ela me deixou na cama e foi até o guarda-roupa, apenas observei, momentos depois estava vestida. — Hora de mimir. — Puxou um tecido grosso e confortável que se chama “edredom”, me colocou ao seu lado e recostou a cabeça no travesseiro, logo se cobrindo. — Boa noite Bug! — Apertou os lábios contra minha cabeça e fez um pequeno estalo. É claro que ela não conseguia resistir a minha fofura, me colocou pra dormir com ela sem nem questionar se um gato da rua trazia algum tipo de praga ou doença, mas apesar do meu charme ser inquestionável, isso também se deve, em parte, pela gentileza e inocência de minha dona, coisa que eu considero louvável, de certo modo, ela tem seu próprio charme. 

 Fechei os olhos e adormeci. 

 Algum tempo depois, eu não sei dizer exatamente o quanto, mas sei dizer uma coisa: não havia areia por perto. Me ajeitei sobre o edredom, abri as pernas, fechei os olhos e relaxei. 

 Ouvi um “hm?” e Alice começou a se mover, me fazendo cair para o lado. “Molhado?” murmurou. 

 — BUG!!! — Ela gritou. 

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