Suicide Messiah - Rascunho (1/2)

 

 " Sinceramente essa é uma história que eu gosto muito. Está bem longe de ser perfeita (ou até mesmo boa) e é apenas cerca de 1/3 ou 1/4 do total do conto que virá a ser. Inicialmente eu tinha algumas idéias relacionadas a conceitos filosoficos acerca do suicidio, mas então me veio o impeto de escrever sobre um caixa de super-mercado; da junção de duas idéias nasceu uma nova, que é essa. Eu já trabalhei em algumas histórias paralelas a essa, e, pretendo posta-las também, com a devida explicação de como se encaixam no mesmo universo. Somente espero de coração que essa história te entretenha pelo menos um pouco, e, agradeço imensamente o apoio que a sua leitura e opinião representam. "

— Acerola.

Capitulo 1 
Segurei a lata de extrato de tomate com força. 

 Bip-bip. 

 Pela milésima vez no dia, pela milésima vez em menos de duas horas. 

 O extrato estava em promoção, mesmo os clientes que só queriam uma lata de Coca-Cola, ou aqueles que preferiam Pepsi, se sentiam tentados a levar um extrato de tomate por 1,99. Admito que era um bom preço, mas eu não ousaria levar um desses para casa; não porque existia algum risco, mas já havia passado o código de barras de tantos deles que só de pensar em tomates eu sentia o estomago embrulhar e... 

 Bip-bip 

 O barulho interrompeu meus pensamentos. Mais quatro latas de extrato e dois pacotes de macarrão tipo espaguete, um refrigerante de dois litros com nome estranho e um pacote de milho de pipoca. 

 Bip-bip 

 O barulho infernal não parava, jamais pararia, a cada item que tivesse seu código de barras exibido em frente ao leitor ele repetia interminavelmente o som. 

 Bip-bip. 
Bip-bip. 

 Eu gostaria de socar esse maldito leitor e destrui-lo num só golpe, mas claro, eu não faria isso. Não apenas porque precisava do emprego, mas também não poderia destruir um objeto quase inteiramente de metal num único soco, eu não sou idiota. 

Bip-bip. 

— Tenha uma boa noite. — Eu disse e sorri enquanto colocava a lata de extrato de tomate na sacola. Nunca mais comeria extrato de tomate, ou melhor, nem molho de tomate, nem salada de tomate, nada; adeus macarronada. O homem não respondeu; manteve sua cara fechada e foi embora. 

 Mais itens foram colocados sobre o caixa; uma lata de cerveja de marca barata e uma pequena barra de chocolate com amendoim e caramelo. 

 — Eu quero um maço de cigarros. — Exclamou uma voz feminina. 

 — Nós não temos isso aqui... — Expliquei e então me engasguei com a nuvem de fumaça que atingiu minhas narinas e boca. 

 — Vocês deveriam. — Disse como se fosse óbvio. 

 Levantei os olhos e encarei a pessoa parada na minha frente. Era uma jovem de longos cabelos pretos, usava maquiagem leve que deixava suas bochechas ruborizadas, um vestido branco com estampas de flores rosas e... Um grande e redondo chapéu de vinil vermelho? 

Isso era destoante demais! 

 — Você não pode fumar aqui. — Falei em tom de censura e olhei em volta, percebendo que ela era a última pessoa na fila. 

 — E por que não? — Parecia sem expressão. 

 — É um local fechado, e tem substâncias inflamáveis no corredor de produtos de limpeza. — Suspirei cansado. 

 — Tá. 

 Ficamos parados em silêncio por alguns segundos. 

 — Você não vai jogar fora? 

 — Eu deveria? 

 — Esquece. Vou passar logo suas compras. 

 — Você não pode me deixar ir embora sem fazer isso? — Perguntou no mesmo tom neutro de toda a conversa. 

 — Por que eu faria isso? 

 — Se você passar e eu sair sem pagar, você vai levar uma bronca, certo? 

 — Certo... 

 — Então é melhor não passar. — Seu rosto indicava que era algo óbvio. 

 — Então você pretendia sair sem pagar desde o início?!!! — Sussurrei num quase-grito de indignação. Essa garota sequer considerou a possibilidade de que deixá-la ir embora sem passar os produtos seria igualmente problemático? 

 — Tehe~ — Ela deu um pequeno soco no topo da própria cabeça e colocou a língua para fora, como um personagem de desenho animado. 

 — Nada de “tehe~”! Eu estou trabalhando o dia inteiro e você diz na minha cara que é uma ladra e espera que eu seja seu cumplice? E qual é desse chapéu esquisito? Você é o que? Uma personagem de Haruki Murakami? 

 — O que você quer dizer com isso? Que nós vamos fazer sexo através de um sonho? 

 — Não transforme minha referência literária em algo obsceno! 

 — Então não existe uma conexão, você está apenas dizendo que faz sexo comigo em seus sonhos? 

 — Eu não disse nem metade dessas palavras, muito menos nesses termos! 

 — Está dizendo que vai sonhar que está fazendo sexo comigo esta noite? 

 — Pare, senhorita! 

 — “Pare senhorita, eu não consigo resistir aos pensamentos ilícitos de sonhar que estarei fazendo sexo com você esta noite.” 

 — Isso não é verdade! 

 — “Na verdade, senhorita, eu não tenho desejo nenhum pelo seu corpo jovem e imaturo, mesmo sendo uma mulher adulta os seus seios nem podem ser chamados de ‘tetas’, mesmo assim eu poderia sonhar que estou fazendo sexo com você esta noite, afinal, eu também gosto de barangas feias como você.” 

 — Certo, eu desisto. Pode levar. — Apoiei a cabeça sobre o balcão, segurando a vontade de chorar. 

 — Adeus. 

 — Me deixe passar antes. — Peguei a cerveja e a barra de chocolate e passei no leitor. 

 Bip-bip 
Bip-bip 

— Você não vai levar bronca? — Pela primeira vez demonstrou alguma expressão, ao arquear as sobrancelhas. 

 — Não, eu vou pagar por essas coisas. — Dei de ombros e comecei o processo de fechamento de caixa. 

 — Pagamento pelo sonho que... 

 — Nada de sonho! — Falei irritado e ela foi embora rindo, mas não antes de soprar mais uma nuvem de fumaça cinzenta sobre mim. 

 Continuei meu trabalho por mais algum tempo, na verdade, a finalização dele. Ir embora era sempre um alívio, como em qualquer emprego, mas nesse, não o suficiente, saber que voltaria já me dava considerável ansiedade e desanimo. Não existia nada mais ingrato e melancólico do que ser um caixa de mercado; um emprego que representava toda a falta de perspectiva que um ser humano podia ter (ou não ter). Muitas pessoas dirão que “todo trabalho é digno”, mas eu diria que digno é poder não trabalhar. Trabalhar... Meu pai dizia que o homem precisa trabalhar, que o trabalho engrandece o homem, mas odiava e xingava o seu todos os dias; que hipócrita. Eu acredito que o que ele queria não era que eu me tornasse grandioso através do trabalho, apenas que eu sofresse como ele, pois ele tinha inveja das pessoas que não trabalhavam, e eu, apesar de, agora, entender seu sentimento, discordo de sua crueldade descabida. Existem dois tipos de pessoas: As que querem que tudo melhore e as que querem que tudo piore. Ambas podem soar parecidas, pois buscam um nivelamento. Numa guerra, não tem diferença entre você e o seu vizinho; ambos vão morrer numa trincheira cheia de fezes até o topo. Para muitas pessoas, essa situação é muito mais aceitável do que ver seu vizinho ficar extremamente rico, porém continuar pobre, mesmo que vivo, com uma casa e sem tantas fezes. O desejo por igualdade é cruel, e sempre será assim, igualdade e piedade não são sinônimos. As pessoas que querem que tudo melhore são apenas idiotas que sonham com utopias distantes, sua filosofia parece correta, mas a vida não se dá por filosofia, e sim por ações. Eu, por outro lado, sou diferente dessas pessoas, de todas as pessoas. Não ligo para nivelamento ou justiça, eu apenas desejo estar confortável, seja o único ou não. Você deve pensar que muitos outros cidadãos-de-bem pensam assim, e está certo, mas essas são pessoas que, uma vez que falham no primeiro caso, lutam para não ficar para trás; eu, porém, percebo a forma e as cores do mundo, entendo que não me encaixo e não posso lutar, odiar é o que me resta enquanto caminho, mas diferente dos idiotas que matam uns aos outros pela falsa justiça, eu aceito minha condição de inferior e incapaz, assim sendo, enquanto eles lutam, eu fujo. Meu pai vai continuar trabalhando, eu vou me matar em duas semanas. 

 — E aí, Garoto do Caixa. Sonhando acordado? — Ela sorriu, segurando sua cerveja e com os olhos quase cobertos pelo chapéu de vinil. 

 

 Saí andando sem dizer nada e ela me acompanhou pela rua levemente iluminada pelas lâmpadas dos postes. Eu não me incomodava com sua presença, mas mantinha certa distância da fumaça do cigarro, eu tinha o hábito inconsciente de engolir e se engasgar com ela, e não poderia andar por uma hora tapando a respiração. 

 — Por que está me seguindo? — Eu questionei. 

 — Você escolheu isso. 

 — Por conta da cerveja? 

 — É mais complexo do que isso! 

 — Por quê? 

 — Se você não tivesse pagado por mim, eu poderia estar sendo perseguida e presa agora, ou até pior, aquele segurança parecia meio pervertido. Ele ficou olhando pra minha bunda quando eu saí! 

 — Não ficou não. 

 — Como você pode saber? 

 — Ele é gay. 

 Ela ficou em silêncio por alguns segundos, fazendo um grunhido estranho, como se estivesse se esforçando muito para pensar em algo. 

 — Tá. Tanto faz. Mas isso não significa que ele seja boa pessoa, nem que os policiais que viessem me buscar seriam também! 

 — Idai? 

 — Bem... Você salvou minha vida. Segundo os chineses, se você salva a vida de alguém, você se torna responsável por ela. Ou seriam os coreanos? 

 — Não faça um comentário tão passível de más interpretações. 

 — Eu não entendi...? 

 — Esquece. O que importa é que eu não quero ser responsável pela sua vida; nem pela de ninguém. 

 — O que queremos e o que devemos são coisas muito diferentes, na maioria das vezes. 

 — E como VOCÊ sabe o que eu deveria fazer? 

 — Não sou eu que sei, é simplesmente a verdade. Como se estivesse escrita numa carta, eu sou apenas a entregadora. 

 — Isso é uma opinião errônea. 

 — É uma verdade objetiva. 

 — Sequer chega a uma opinião plausível! 

 — Não precisa agir de maneira tão filosófica; eu já te acho inteligente. 

 — Eu não preciso que você diga isso, eu sei o quanto eu sou inteligente. Obrigado. 

 — Oh~ Quanta grosseria. Então parece que você é assim por trás daquele sorriso radiante de caixa de supermercado... — Colocou o dedo no lábio inferior, como se pensasse sobre algo muito importante. 

 — Sorriso radiante? 

 — Sim. Você pode não perceber, mas não para de sorrir enquanto faz seu trabalho e deseja uma “ótima tarde” a todos os clientes. Mas no fim, parece que existia um Mr. Hyde por trás do magnânimo Dr. Jekyll. 

 — Você está mentindo! Eu consigo ver a risada escapando pelos cantos da sua boca. Além do mais, quem você é nessa história, então? 

 — Gabriel Utterson, é claro. O anjo que foi até Maria avisá-la sobre o nascimento de Jesus Cristo. Amém. — E juntou as mãos, abaixando a cabeça em reverência. 

 — Você está confundindo totalmente livros que sequer se parecem! Além do mais, anjos não tem sobrenome, e se Deus existe, ele não deve estar nada feliz com você comparando seus anjos com advogados! 

 — Mas não seria essa a função deles no “julgamento final”? 

 — Tenho quase certeza que não. 

 — Isso é uma opinião errônea. 

 — Não tente virar o jogo assim tão fácil!!! 

 — Tehe~ — E mordeu a língua. 

 — Não pense que vai fugir com um “tehe~”! 

 Então caminhamos em silêncio por mais alguns minutos. 

 — Aqui eu me despeço. Sua casa está próxima, certo? 

 — Como você sabe disso? 

 — Isso realmente importa? — E fechou os olhos com um sorriso sereno, iluminado agora pela luz pálida do luar. 

 — Na verdade importa muito... 

 — A gente vai se encontrar de novo, e você vai entender. Tudo o que o pequeno Werther precisa é uma experiência fáustica. 

 — O que isso significa? 

 — Não seja tão apressado. Aqui, se mostrar isso para ele, ele vai te levar. 

 — Quem? 

 — O seu Pistorius. 

 — Estamos buscando Abraxas? 

 — Você deve buscar seu Max Demian. 

 — Pelo que parece, eu sou Emil Sinclair. Mas e você? 

 — Na verdade... 

 — “Não importa muito”? 

 — Exatamente. Agora pega. — Ela colocou a mão dentro do decote, eu rapidamente desviei o olhar em respeito, então ela tirou um pequeno objeto em formato de lua minguante; segurou meu pulso e depositou sobre a minha palma, era como uma pedra, e depois de olhar mais de perto, percebi que parecia mais um fóssil, algum tipo de verme gigante (é cabível dizer gigante, já que não se veem vermes desse tamanho), uns 13cm, que cabiam na mão graças a curvatura. Franzi o cenho sem entender, ela soltou minha mão, sorriu, virou de costas e partiu. — Adeus. Ou seria até logo? 

 Eu fiquei ali parado, acenando lentamente enquanto olhava ela desaparecer pela rua mal iluminada, buscando entender o que exatamente havia se passado. 

 Logo em seguida fui para casa e adormeci sem nem tomar banho, simplesmente caí sobre a cama e fiquei ali por horas e horas, sem sonhar e sem, imagino eu, nem roncar. Apenas dormindo, como se estivesse morto, por 15 horas. 

 No dia seguinte acordei já atrasado para o trabalho. Esfreguei a cabeça e xinguei algo ou alguém aleatório, pela simples necessidade de expressar a raiva. Me arrumei e então vi o verme sobre a cama, não sabia o que significava, mas sabia de quem ela estava falando. 

 Parti para o trabalho, e tratei de não esquecer o amuleto enquanto pensava intensamente no lugar que deveria ir assim que saísse, quem eu deveria encontrar. 

 O porquê eu fiquei tão obstinado a ir atrás da garota? 

 É uma boa pergunta, e, normalmente, essa é a hora em que os protagonistas de livros dizem “não sei”, exceto os do romantismo, esses escreveriam um enorme paragrafo de duas páginas e meia falando sobre sua beleza, depois outro parágrafo, agora de quatro páginas e dois terços, falando sobre o sentimento que seu cheiro trazia (eu apenas me lembrava do cheiro do cigarro), e então mais duas páginas sobre coisas aleatórias; eu, porém sei exatamente o motivo, e a verdade é que eu queria persegui-lá simplesmente porque não tinha nada melhor para fazer, nada que eu quisesse fazer. Faltando uma semana e 3 dias para o meu suicídio planejado e bem-marcado no calendário com o disfarce de “encontro”, era a primeira vez em muito tempo, mais especificamente 7 meses, 3 semanas e 5 dias que eu não tinha uma conversa de verdade com alguém, e uma quantidade de tempo no qual eu não dormia mais que 4 horas por noite, muito maior, tão maior que eu não me lembro exatamente. Eu não tinha nada a perder, e nem exatamente a ganhar, mas essa era a última coisa que eu queria fazer, eu iria fazer. Encontra-la mais uma vez, e então morrer. 

Comentários

  1. okey, esse tem um bom ritmo. eu não senti desperdiçando parágrafos... e parece que não é sua intenção tbm. parece ser só um adulto frustrado e niilista. espero ver mais sobre ele e pq dessa personalidade. mas acho que isso é só a primeira camada, então vamos deixar no forno. a personagem que teve destaque é a dos cigarros, ela pareceml roubar mais a cena e ser o ponto de partida da jornada da história. o chamado. realmente eka salvou mais a história e o diálogo. os monólogos do protagonista são, okey. nada a comentar, acho interessante os monolos. pouco texto mas já cativa e tem muita personalidade. as referências infelizmente apesar de serem boas, ficaram meio jogadas em algums diálogos, e isso não é tão ruim. só acho que deve moderar e escolher onde mais se encaixa pra não parecer vago. use frases, trechos desses livros ou nomes ou trocadilhos. (a referência do scooby doo por exemplo foi boa e funciona mesmo sem a pessoa entender)ajuda a ficar melhor. mas boas referências e trocas de diálogo. eu achei engraçado. denovo a personagem feminina carrega muito e dinâmica entre o cara sério e a mulher brincalhona funciona muito bem

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